Técnica da Seleção feminina vê ‘peso’ pelo passado e nega medo sobre o futuro na CBF



Emily Lima (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Emily Lima (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Na semana pós-Dia Internacional da Mulher, Emily Lima, técnica da Seleção feminina, fala ao blog sobre desafios, afasta temor pela função na CBF e quer tirar dos ombros do grupo que comanda a responsabilidade pelos tropeços do passado.

Com três meses, já caiu a ficha de que está treinando a Seleção principal?
Já deu para sentir o primeiro torneio, que foi em Manaus. Estamos procurando fazer o melhor possível. Saímos satisfeitos com o entendimento e com o que foi colocado em prática. Tentamos jogar a responsabilidade totalmente para nós. Sempre vi nelas, tanto na parte da imprensa e da própria instituição, porque é alto rendimento, esse peso de: “Elas sempre chegam, mas batem na trave. As amarelonas”. Mas pera aí. O que elas têm de estrutura para serem vice-campeãs olímpicas? É muita coisa, pelo que oferecem no nosso país.

Você dá palestras, visita lugares. O que vê nas pessoas quando te apresentam como “técnica da Seleção feminina de futebol”?
Eu vejo que o mundo é feito de status. Algo que eu não estou acostumada e não gosto muito. Quando saí da sub-17, as pessoas falavam: “Você vai sair da CBF?”. Nunca me apeguei a status. E eu vejo esse olhar: “Nossa é a treinadora da Seleção”. Não querem saber o que eu fui, o que eu vou somar. Claro que tem alguns que têm outro olhar, mas o principal é o status. Olham o cargo. O que eu fiz muita gente não sabe. Mas o respeito é total.

O quanto o Brasileirão feminino, com duas séries, vai te ajudar?
Da observação vamos tirar os talentos. Eles existem, mas não temos na modalidade equipes que qualificam as atletas para estarem aqui no nível que estamos querendo, que é bastante acima do que estava sendo cobrado. Vamos aumentar o nível, porque vemos EUA, França, Inglaterra… Se estivermos 99%, ficamos para trás. Temos que estar 100%, 110%, 120%. O problema vai ser essas atletas que estiverem no Brasileiro chegarem no mesmo nível. Vamos fazê-las entender que são importantes. Tivemos uma convocação e vimos que o negócio está complicado. Os resultados são assustadores na parte física. Elas se acomodam com percentual de 28%, 20% de gordura. Vamos pedir 12%, 13%. Vai ser difícil de chegar. Passamos para elas que precisam estar bem para chegarem à Seleção. Elas precisam estar comprometidas.

Fazer uma mini-seleção permanente serviria?
Não, hoje não. Não adianta fazer Seleção permanente com atletas que não vão estar em competições. Acho que seria um gasto que poderia ser feito em outras coisas. Além disso, iríamos tirá-las dos clubes, deixando os campeonatos mais frágeis. Hoje, permanente não cabe. 90% das meninas estão fora do país.

Está mais otimista com a obrigatoriedade dada pelo licenciamento da CBF e da Conmebol aos clubes de ter times femininos?
Estou. Acho que em quatro, cinco anos as coisas vão caminhar de forma natural. Vai existir competição entre os clubes. A derrota vai trazer procura de atletas. Vamos dizer que o Santos e Corinthians têm times registrados. Aí o São Paulo monta um timaço. O Santos vai lá e tira jogadoras a qualquer momento, porque elas não têm vínculo. A competição vai chegar. Acredito que as coisas vão estar melhores pela obrigatoriedade.

Acha que o aumento de times femininos significará mais treinadoras também?
O mercado está crescendo. Temos quatro treinadoras na Série A e uma quinta na Série B. Há três anos, só tinha eu. A tendência é o crescimento na mulher. Isso vem da capacitação também, sem dúvida.

Já teve aquela conversa que queria com o Tite sobre futebol?
Ainda não. Conversamos, mas não sobre isso ainda. Vejo que as coisas estão se aproximando mais a cada dia. Eu sou reservada, na minha. Vejo que ele tem muito trabalho, mas o contato está muito mais próximo. O momento vai chegar para trocarmos uma ideia da parte técnica.

O nono lugar no Ranking da Fifa feminino é, hoje, justo para o Brasil?
Fiz um levantamento essa semana das 10 primeiras seleções. Dentro do que eu conheço a modalidade, vi que o Brasil está onde tem que estar. No site dá para ver quantos jogos fez, ganhou, empatou… Todo o ano. Estamos indo atrás para saber onde estamos falhando. Fomos comparar com EUA e Alemanha, estamos na média de jogos delas. Ouvia falar que jogamos pouco, mas não é. Estamos debatendo sobre isso. Por que? Precisamos entender onde está a falha. Não é tão simples assim. Não vamos conseguir em um ano. Deixei isso claro para o presidente: não estamos aqui para dar uma solução mágica. Envolve muita coisa, estamos iniciando o trabalho. Temos que trabalhar para sermos campeãs sul-americanas, mundiais e olímpicas. Mas o trabalho vai muito além disso.

Qual o seu nível de “vício” em futebol?
25 horas. É total. Assisto jogo às 16h,às 18h, às 20h… vejo VT do que eu não vi. As pessoas sempre falam pra dar um tempo, respirar, mas é futebol sempre. Eu gosto de ver tudo. Cada time que você vê dá para aprender algo novo. Muitas vezes sai uma jogada no quadrante perto da área e coloco no treino. Vivo isso. Tenho vida social? Tenho. É o mínimo, mas é suficiente.

Como é a relação com o presidente Marco Polo Del Nero?
É até muito boa. Me surpreendi como fui acolhida e como sou diariamente abordada. No almoço trocamos ideia. Quando ele tem dúvida, me liga, manda mensagem. Eu só tenho que trabalhar, porque estão me dando toda a estrutura.

Com o que aconteceu com o Micale, teme ser demitida no primeiro fracasso?
Não tenho medo. Estou fazendo tudo o que a gente pode, no melhor. Se tropeçarmos em uma competição e ele mandar embora, mandou… Mas temos que sair sabendo que chegamos, encontramos a Seleção de uma maneira e deixamos de outra, melhor do que encontramos. Precisamos dos resultados. Caso não aconteçam, temos que sair de cabeça erguida, sabendo que fizemos tudo o que tínhamos que ser feito.



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