Vadão não critica CBF, mas diz: ‘Meninas estão pedindo socorro, como um mendigo’



Vadão, técnico da Seleção feminina (Foto: CBF)

Vadão, técnico da Seleção feminina (Foto: CBF)

A De Prima, a partir de hoje, abrirá um espaço aos domingos para entrevistas com personagens do mundo dos bastidores, da política e economia do futebol. O primeiro deles é Vadão, técnico que foi demitido da Seleção feminina, que fala sobre o período de convivência com Marco Polo Del Nero, Marta e a busca das meninas por investimento para a modalidade.

Como você classifica a experiência de ter treinado a Seleção feminina?
Foi uma experiência muito boa, só tenho a agradecer. Fui contratado no final da gestão Marin e também pelo Marco Polo, convivi muito mais com o Marco Polo. Foi experiência diferente. Na minha saída, diferentemente de outras vezes no futebol, não teve sequela. Tudo foi feito às claras. Meu compromisso terminava na Olimpíada. Ele pediu para ficar mais um pouco. Não temos competição oficial ano que vem. Fui para o amistoso na França e estava preparando para terminar o ano. Como queria colocar uma figura feminina, ele entendeu que a Emily era o nome. Conversamos semana passada. Quando fui comentar o jogo na final da Copa do Brasil, eu já sabia da mudança. Na segunda-feira eu estive na CBF, fiquei um tempo muito grande conversando. O Marco Aurélio Cunha foi quem me comunicou primeiramente. A mesma felicidade que entrei eu sai. Espero que a Emily tenha sorte, é mulher, jovem…

A única decepção foi não ter conquistado o ouro na Rio-2016?
Foi a única. Exatamente isso. Toda construção da Seleção permanente foi um processo longo. As meninas ajudaram muito, não é fácil ficar no hotel direto. Isso cria um clima diferente, mas conseguimos lidar. O obstáculo foi realmente a medalha. Acho que merecíamos uma sorte melhor. Não fomos competentes para fazer um gol na Suécia em um jogo que tivemos na mão. Fizemos 120 minutos para vencer e garantir ao menos a prata. É a grande frustração que eu sinto, por todo apoio que nós tivemos.

Você acha que a Seleção feminina será campeã do mundo no futuro?
Provamos que com apoio, boa alimentação, treinamento, trabalhando profissionalmente, elas são capazes de apresentar um futebol tão bonito, que encantou o Brasil todo. Se as mulheres tiverem apoio, seremos muito fortes no futebol feminino. É triste que estamos caminhando para o enfraquecimento. Nós estamos pedindo socorro, como se fosse mendigo, e mesmo assim elas conseguem apresentar o que elas apresentaram.

Como foi trabalhar com Marta?
Ela me mandou uma mensagem muito carinhosa. Me surpreendeu como pessoa, caráter, ela foi cinco vezes melhor do mundo. Ela é indiscutível. Não quero nem comentar o lado técnico. Ela me surpreendeu como pessoa, como mulher, capitã, líder. Foi um privilégio muito grande termos nos conhecido. A Marta não é só a atleta dentro do campo. A Marta é de um caráter indiscutível. Foi muito bom ter trabalhado com ela, sei que vai ser para o resto da vida. A simplicidade… Ela nunca pediu um privilégio. Nunca pediu uma desconvocação. Cansada, sentido dor, jogou com contusão, problema nas costas, recebemos até um boletim do time dela na Suécia de que ela não deveria jogar os 90 minutos todos os jogos no Torneio de Algarve.

Que complicações você teve no cargo de treinador da Seleção?
Eu não tive complicação. Foi só a Olimpíada. O jogo. Quando eu assumi, conhecia muito pouco da modalidade. O Fabrício foi comigo, que era da Ferroviária. Depois veio o Marco Aurélio Cunha. Quando fizemos o diagnóstico que precisávamos para disputar as competições e começamos a jogar contra a França, percebemos que estávamos abaixo fisicamente e taticamente. Tecnicamente não, porque no mundo inteiro não tem seleção melhor que a nossa. Mas o presidente nos deu a Seleção permanente. A dificuldade foi me adaptar. Toda minha comissão não tinha trabalhado no feminino. O Fabrício deu uma força muito grande. As meninas ajudaram muito, fui muito bem recebido. Não tenho do que reclamar.

Como foi a relação com Marco Polo Del Nero?
Foi muito boa. Às vezes elogiamos quando estamos dentro. Não estou mais na CBF e continuo elogiando. Marco Polo não faz reunião para ficar 1h30 reunido. Mas ele colocou pessoas da confiança para dirigir. Ele foi sempre muito transparente. Foi tudo muito sincero. A atenção que ele deu para o futebol feminino. Eu não quero nem saber dos problemas (políticos). Quero saber do que ele fez comigo. Nunca nos pressionou. Tive o prazer de trabalhar sem o terrorismo do futebol.

Você agora volta a trabalhar com o masculino, mesmo após a indicação para estar no top-10 do prêmio de melhor técnico do feminino pela Fifa?
Logicamente que sim. O mercado feminino não é o meu. Eu estava na Ponte Preta, sempre foi o masculino. Não dá para trabalhar com o feminino por uma série de coisas. Meu objetivo é voltar a minha vida normal. Recebi um prêmio que me pegou de surpresa, em uma modalidade que eu estava há dois anos e meio. Mesmo sem ganhar medalha eu fui reconhecido. Fico muito feliz com esse fato. Vou voltar para as minhas origens, a não ser que aconteça uma coisa muito diferente.



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