“Minha missão é evitar que se repita o desastre de 1950”, diz Marin



New president of the Brazilian Football Confederation (CBF) Jose Maria Marin attends a news conference in Rio de JaneiroQuase um ano depois de assumir a presidência da CBF, José Maria Marin já trocou todos os técnicos da seleção, o comando da arbitragem e organizou a Série D. Neste ano, pretende entregar a Granja Comary e a sede da CBF. Mas nos pontos cruciais, como calendário e segurança, nada foi feito e pouco deverá ser feito.
Marin, que nunca esperou ser o presidente, nestes meses, mostrou seu estilo. Ao contrário de Ricardo Teixeira, gosta de futebol, e gosta de defender suas ideias. Marin assegurou a ascensão de Del Nero como um cartola de nível mundial, manteve os compromissos (e a gorda mesada) de Teixeira.
Nesta entrevista, Marin oscilou de um extremo a outro diante das perguntas. Em algumas, assumiu posições, não se esquivou das polêmicas. Em outras, voltou à época da sua juventude. Como um bom ponta-direta, saiu driblando. Às vezes ia no grito.

LANCE – Qual é o balanço destes dez meses à frente da CBF?
José Maria Marin –
Em março vamos completar um ano. No campo futebolístico, organizamos as diversas Séries do Brasileiro. O futebol da CBF não se resume à Seleção Brasileira e Série A. Temos outras Séries . Muitos pregavam a extinção da Série D., mas a CBF não mediu esforços e está subsidiando. Pagamos viagens e hospedagem para uma delegação de 25 pessoas e sete bolas por equipe por jogo. O investimento é de R$ 23 milhões. Com isso, há um anseio dos clubes em participar.

L! – E para os próximos dois anos?
Marin –
Só penso neste ano. Estamos trabalhando para entregar a nova sede da CBF. Compramos um prédio de três blocos na Barra, e estamos reformando. Vamos dar mais condições de trabalho para os funcionários e vamos ter uma instalação que será o Cartão de Visistas da CBF.

L! – O que será?
Marin –
No térreo vamos criar o Museu do Futebol Brasileiro. Nós temos o maior acervo do futebol mundial e não temos um local adequado para expô-lo. Consultamos várias empresas e contratamos aquela que fez o projeto do Museu do Barcelona. O projeto está em fase final. Depois será definido o orçamento e começaremos as obras. Na cobertura, teremos um restaurante e o salão nobre.

L! – E a reforma da Granja Comary?
Marin –
Nós tínhamos um terreno para fazer um CT no Rio, mas o projeto não foi para a frente e estamos reformando a Granja. A principal reforma é nos alojamentos. Os ateltas passarão a ter suítes individuais. Além de mais privacidade, os atletas terão mais espaço, os quartos foram aumentados. Os banheiros serão reformados e serão trocados todos os móveis e camas. O que for descartado será doado para as vítimas de Xerém, em Duque de Caxias, e à Prefeitura de Teresópolis.

L! – Voltando ao campo esportivo, como você viu a eliminação do Brasil no Sul-Americano? Nós noticiamos que o técnico Emerson Ávila estava cumulando as três seleções de base: sub-15, sub-17 e sub-20.
Marin –
Qaundo eu cheguei, essa situação já existia (NR não foi assim, Ney Franco (sub-20) saiu em julho de 2012 e Marquinho Santos (sub-17, em setembro). Não quero me alongar, mas digo que foi uma tremenda decepção.  Para não dizer que a CBF não deu apoio, eu fui até San Juan (ARG) antes do jogo contra a Venezuela, ganhamos 1 a 0, e depois voltei.

L! – Aproveitando o gancho da sua viagem à Argentina, estamos vendo o senhor muito ativo, viajando muito. O poder rejuvenesce?
Marin –
Não é o poder. É o esporte. Eu sempre fui esportista, nunca fumei. E também tenho uma missão, que é impedir que se repita a tragédia que aconteceu em 1950. Naquela época, eu jogava pelo São Paulo e acompanhei pelo rádio. Mas eu me sinto mesmo rejuvenescido. Eu trabalho 20 horas por dia. Estou rouco de tanto falar.
Voltando ao episódio do Sul-Americano, quero dizer que eu delego, não convoco ninguém, não insinuo para convocar ninguém, mas eu cobro depois. Não temos compromisso com ninguém, com dirigente, jogador, com quem quer que seja. Só com o torcedor. Eu entendo muito de futebol, porque já fui jogador,

L! – O senhor disse que não tem compromisso com ninguém. Nem com o Marco Polo? O senhor já está até fazendo campanha para ele…
Marin –
(Risos) Qualquer pessoa tem direito de fazer campanha. Mas eu não vou interromper meu trabalho para ajudar qualquer candidato. Existe uma afinidade, mas eu não vou pedir voto para ele. Ele não está só por amizade ou gratidão. Se alguém se apresentar como candidato, não vou ficar magoado.

L! – O Marco Polo teve um papel fundamental, para que o senhor assumisse no lugar do Ricardo Teixeira. A indicação do Marco Polo para o Comitê Executivo a Fifa já era um prenúncio de que ele irá substituí-lo?
Marin –
Não. São coisas diferentes. Quando o Ricardo Teixeira saiu da Fifa, corríamos o risco de perder aquela cadeira. Não é a CBF quem indica, mas a Conmebol. O Uruguai estava de olho na vaga . O Marco Polo já fazia parte da Conmebol e eu estava chegando. Ele era a solução natural, para que não perdêssemos a vaga, como aconteceu na comissão de arbitragem.

L! – Quando o senhor soube que iria substituir o Ricardo Teixeira? Sabe-se que ele e o Marco Polo estava conversando pelo menos desde novembro, se não antes.
Marin –
Só soube alguns dias antes da saída dele. Não sou de ficar perguntando essas coisas. Foi o Teixeira que me disse, não o Marco Polo. E ele só me escolheu porque sabe que eu seria fiel a ele, antes e depois de assumir. Depois de tomar posse, eu não mudei em nada.

L! – O que ele diz de tão importante para merecer um pagamento de R$ 130 mil por mês?
Marin –
A CBF tem muitos contratos comerciais. Todos foram assinados na gestão dele. Alguns são bem longos, de forma que estou tentando renegociar para ver se a gente consegue arrancar mais alguma dinheiro. O Teixeira está a par de todos. Assim assinamos um contrato com ele de um ano, que termina em março. Mas estamos aprendendo a entender os contratos. É possível que a gente encerre esse contrato antes de março.

L! – Com que frequência o senhor fala com o Ricardo Teixeira? Toda semana?
Marin –
Eu falo com ele quando preciso. Por exemplo, no fim do ano falei com ele para desejar Boas Festas.

L! – Quantas vezes o senhor já esteve com ele depois que assumiu?
Marin –
Estive com ele uma vez fora daqui.

L! – E aqui? Já esteve com ele?
Marin –
Não, que eu saiba ele não veio mais para o Brasil. Mas não posso afirmar.

L! – O Andrés disse que foi traído por você e o Del Nero no episódio do Mano. Como responde a isso?
Marin –
Houve alguma má interpretação do que ele disse. Tenho certeza de que o Andrés não se julga traído pelo José Maria Marin.

L! – Ele reclama que quando vocês o chamaram para discutir a situação do Mano, você já tinha decidido pela sua saída…
Marin –
E isso é verdade, eu não vou negar. Mas eu tenho o maior respeito pelo Andrés como dirigente.

L! – Vocês têm conversado?
Marin –
Muitas vezes. Nós nos falamos no Natal, no fim de ano. É uma relação normal.

L! – Há algum tempo quero lhe fazer uma pergunta em particular. Soube que o senhor negociou com o Felipão bem antes de ele sair do Palmeiras, que quando ele venceu a Copa do Brasil, em julho, já tinham conversado.
Marin –
É pura intriga! Não é verdade. Nunca falaria com algum técnico sem falar antes com o presidente do clube. Guarde isso para você me cobrar. Eu respeito a hierarquia e disciplina. Não vou a nenhuma cidade sem falar com os presidentes de federação e até dos clubes. Só depois falo com o governador e o prefeito.

L! – Só falou com o Felipão depois que ele saiu do Palmeiras?
Marin –
Bem depois. Quem ele falou isso é mentiroso.

L! – E o Mano, por que o senhor do demitiu justamente na hora em que ele estava começando a vencer?
Marin –
Vocês mesmos, jornalistas, estavam dizendo que os adversários eram fracos. E essa é a verdade.

L! – Quem escolheu os adversários?
Marin –
Quem escolhe é a empresa que detém os direitos dos amistosos, no exterior e no Brasil. O que eu puder lutar é ter No ano passado, à custa de muita pressão nossa, conseguimos que eles marcassem jogos com equipes mais fortes em 2013. Já existe o contrato de uma empresa lá fora, que faz os contratos dos amistosos, de todos os amistosos, inclusive no Brasil. Vou te dizer que os amistosos no Brasil dão prejuízo. A CBF tem prejuízo.

L! – Como a CBF tem prejuízo se ela vendeu os amistosos a essa empresa?
Marin –
(silêncio) O prejuízo é na bilheteria.

L! – A CBF tem uma parte da bilheteria?
Marin –
Tem.

L! – Um tema muito importante é o calendário. Até quando teremos o Campeonato Brasileiro sendo interrompido no meio por Copa América, do Mundo das Confederações?
Marin –
O nosso país é atípico, pelo seu tamanho. Cada estado é um país. Se eu prometesse mudar o calendário, eu estaria criando uma falsa ilusão. Além disso, se eu matasse os estaduais, iria matar o surgimento de muitos jogadores. Veja o caso do Hulk. Surgiu no Vitória e foi para a Europa. Se adotarmos o calendário europeu, causaríamos um transtorno no Brasil inteiro. Enquanto for presidente, o calendário não vai mudar. Veja por exemplo, a Copa do Nordeste seria prejudicada.

L! – Mas a Copa do Nordeste é justamente uma mudança do calendário. Por que, em vez de obrigar os clubes grandes a jogar com os pequenos, pensar num modo de ajudar os clubes pequenos, inclusive a melhor a gestão?
Marin –
A CBF não pode pagar pela incompetência do dirigente.

L! – A CBF tem mais de 300 milhões de receita por ano Por que não usar uma parte disso para ajudar os clubes a se desenvolver.
Marin –
A CBF tem suas obrigações fixadas em estatuto. Eu não posso fugir um milímetro. Além disso, uma mudança drástica pode causar um dano grande ao futebol. O nosso papel é trabalhar pelo bem do futebol. Por exemplo, a arbitragem. Estamos investindo muito na arbitragem, ela está melhorando. E, repetindo, não temos compromisso com ninguém.

L! – Foi bom o senho tocar nesse assunto. Quando você assumiu, o presidente de uma das federações rebeldes disse que, com paulistas no comando da CBF, a arbitragem não poderia ficar com São Paulo. Dias depois, houve um acordo e acabou a rebelião. Meses depois, o senhor trocou o paulista Sérgio Correia pelo carioca Aristeu Tavares. Isso não é compromisso político?
Marin –
Isso foi para satisfazer a arbitragem. Se fosse satisfazer dirigente, estaria trocando a toda hora. Mas posso trocar de novo. Ninguém, a não ser pessoa eleita, tem seguro comigo.

L! – Vamos voltar ao Marco Polo, eu li que alguns assuntos da CBF estão na mão dele. Isso inclui arbitragem…
Marin –
Eu deleguei alguns assuntos a ele, mas a palavra final é minha. O regime é presidencialista. Eu delego porque eu o considero competente. Outra pessoa que colabora é o Reinaldo Carneiro Bastos (NR: vice da FPF).

L! – O Reinaldo vai ter um cargo na CBF neste ano?
Marin –
O Reinaldo já estava aqui quando eu cheguei. Ele cuida da Série B (NR: Teixeira o colocou na função em 2011). Ele também organizou a Série D. É um grande colaborador.

L! – Então qual será a providência que tomarão em relação à matéria do LANCE! que mostrou que a comissão de arbitragem promoveu um bandeirinha novato para o quadro da Fifa? Esse bandirinha foi promovido pelo Aristeu duas vezes em poucos dias…
Marin –
Eu não estava sabendo disso. Vou mandar apurar e dependendo da conclusão vou tomar uma
providência.

L! – Vamos falar um pouco de segurança. Quando a CBF vai começar o cadastramento que prometeu fazer?
Marin –
Eu não conheço esse projeto, só ouvi falar. Eu tenho muita preocupação com a volta da família e em especial as crianças ao futebol. É nossa obrigação dar tranquilidade para as famílias irem ao futebol.

L! – Concretamente o que será feito?
Marin –
Eu convidei o ex-promotor Fernando Capez (NR: Capez foi o promotor que conseguiu a extinção de torcidas organizadas de São Paulo, no fim dos anos 90) meu grande amigo. Podemos criar um departamento destinado à segurança dos estádios.

L! – Um assunto que não pode faltar aqui é o COL. O que o senhor faz no COL?
Marin –
Toda semana eu vou ao COL, quando estou no Brasil e me inteiro dos assuntos e Mas um ponto precisa ser esclarecido. O COL não participa de nenhuma concorrência, tomada de preço. O COL é um órgão de informação e de acompanhamento. O COL não tem nada a ver com os estádios.

L! – Mas o COL não cuida da organização?
Marin –
O COL participa da organização, mas é um órgão de informação. O Ricardo Trade, na minha ausência, é o responsável pelo COL Nós conversamos todos os dias.

L! – Qual é o dia da semana que o senhor dá expediente no COL?
Marin –
Uma vez por semana eu passo no COL para assinar os documentos, mas não tem dia específico.

L! – Por que você trocou a Joana Havelange pelo Ricardo Trade?
Marin –
Não houve nenhuma mudança. Mas, como o Ricardo Trade tem mais facilidade de locomoção, ele tem mais contato comigo. Mas a Joana continua com a mesma atribuição e a mesma confiança de mim.

L! – O que o Ronaldo e o Bebeto fazem no COL?
Marin –
Eles não são embaixadores. São participantes. Mas eles são grande promotores do Mundial.

L! – Como está a relação com a presidente Dilma Rousseff? O senhor já conseguiu uma audiência com ela?
Marin –
Eu nunca pedi audiência para a presidente. Minha preocupação é cuidar do futebol, Tenho o maior respeito por ela, mas nunca pedi. Pretendo pedir uma audiência para oferecer um projeto que dá uma contrapartida a para que os clubes possam pagar sua dívida.

L! – Quando o senhor foi deputado estadual, nos anos 60, o senhor foi um entusiasta do governo militar.
Marin –
Não (interrompendo). Eu não fui entusiasta. Eu respeito o poder constituído.

L! – Mas o golpe militar justamente derrubou o poder constituído.
Marin –
Estou me referindo a um poder estável, que faz o país ser produtivo…

L! – Qual é sua relação com Paulo Maluf de quem foi vice-governador?
Marin –
(Fica sério) Eu continuo amigo do homem Paulo Maluf.

L! – E com o Lula?
Marin –
(Relaxado) O Lula e eu nos falamos quase diariamente. Nos damos muito bem. O Lula gosta muito e entende muito de futebol.

L! – Vamos falar de Copa do Brasil, até que ponto a Globo intereferiu na mudança do formato com o
Marin –
Nós atendemos a um pedido de um só de uma empresa, atendemos ao futebol brasileiro, mas no mundo inteiro, o esporte em geral depende dos meios de comunicação.  E não vamos tapar o sol com a peneira. Nós ajustamos o interesse de todos, dos clubes e da TV. Mas não houve um “faça isso, faça aquilo”  .

L! – Qual é o valor dos direitos da Copa do Brasil?
Marin –
Alguns contratos tem a cláusula de privacidade. Você pode perguntar aos clubes?

L! – Mas os clubes não sabem o todo, só as cotas que recebem…
Marin –
Eu não posso dizer que seria uma deselegância falar de um contrato de terceiros.

L! – Acho que o senhor está fazendo uma confusão. Não estou falando do Brasileiro. O contrato da Copa do Brasil é assinado pela CBF…
Marin –
Eu te prometo que vou ver esse assunto

L! – Falando em Seleção, o senhor vai continuar a ver a lista de jogadores antes da convocação?
Marin –
Sim, mas nada muda. O técnico é que convoca.

L! – O que o senhor conversou com o Ronaldinho na festa da CBF? Prometeu a convocação dele?
Marin –
Não, quem convoca é o Felipão. O que eu lhe disse é que o comportamento fora de campo é muito importante também. Copa do Mundo é mata-mata. O jogador precisa se cuidar muito.



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