Torcedor, o inocente útil na estrutura do futebol



Desde os primórdios da vida em sociedade, há 2.500 anos, ideais que reverberam anseios ou paixões coletivas, em determinado ponto, são apropriadas por pequenos grupos que, sob a premissa da organização, acabam também por instaurar regulamentos que, ao final, beneficiam mais a si.

O esporte futebol, que consiste basicamente em assistir a 22 atletas, divididos em dois times de 11, correndo atrás de uma bola, lutando para atravessá-la através de retângulos, insere-se nesse contexto da paixão, que move milhões de pessoas.

É fato que o futebol, em sua fase inicial, era esporte aristocrático, mas que tomou a alma do povo, principalmente no Brasil. O lastro dessa condição percorre o cotidiano da bola e está explícito no próprio verbete para designar os dirigentes de futebol: os cartolas.

A fusão de sentimentos e potencial de mercado fez com que pequenos grupos criassem, além dos clubes, entidades normatizadoras. O desdobramento dessa junção é que, com o passar do tempo, foram deixando o em segundo plano os torcedores, tratando-os como inocentes úteis, para estabelecer as bases de um grande negócio, que movimenta milhões de pessoas, oportunidades e bilhões em dinheiro.

Diante desse potencial, que atualmente atinge números ainda mais estratosféricos no mercado da bola, os clubes de futebol passaram a se tornar disfarçadas monarquias, não mais justificadas e perpetuadas pelos laços sanguíneos, mas pela ação conjunta de grupos com interesses em comum.

Constatar o círculo vicioso do poder nos clubes de futebol não se faz necessário esforço metafísico, bastando apenas listar os nomes dos dirigentes que comandaram as agremiações nos últimos 40 anos.

Com isso, preponderantemente no Brasil, país de formação colonial, escravagista, que pouco – ou quase nada – proporcionara ao povo a capacidade crítica por meio da educação e palco de uma democracia teórica, os dirigentes criaram estatutos-estratagemas praticamente impossíveis de um torcedor, sequer, votar na escolha de seu representante.

Complexos, engenhosos, contraditórios em suas estruturas de poder, os clubes de futebol desafiam os regimes, uma vez que conciliam três sistemas em um só: são democráticos, quando os dirigentes precisam do apoio das massas para uma votação indireta; monárquicos, considerando a perpetuação no poder de pequenos grupos; e coloniais, no momento em que exportam a matéria-prima-jogador.

Os torcedores, quem de fato sustentam toda a estrutura de um clube de futebol e as respectivas entidades da bola, na prática, são os inocentes úteis, mera mercadoria nessa imensa máquina chamada futebol, com o simples dever, quase dogmático, de torcer, sofrer, consumir produtos de seu time de coração e viver à esperança de times melhores para gritar é campeão.

Como já disse Maquiavel, “Há três espécies de cérebros: uns entendem por si próprios; os outros discernem o que os primeiros entendem; e os terceiros não entendem nem por si próprios nem pelos outros; os primeiros são excelentíssimos; os segundos excelentes; e os terceiros totalmente inúteis.”

Com essa combinação de paixão, dinheiro e poder, a grande massa segue alimentando uma pequena casta no futebol.



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