A Seleção Brasileira ainda é minha pátria em chuteiras



Tá bom! Calma! Não é texto ufanista maquiador dos fatos. Também sei que o país atravessa um período nebuloso, que há escassez de combustível nos postos, que o desemprego assola os lares e as famílias, que as entidades da bola dão um bico em nossos sentimentos, que os craques da nossa esquadra estão milionários, que a vida está dura e está caro de se viver, porém, confesso, sem o menor constrangimento, que a Seleção Brasileira ainda é minha pátria em chuteiras.

Pesquisas recentes apontam que o brasileiro não liga mais para a Seleção. Proferem até palavrões quando o assunto é colocado sobre a mesa. Eu considero um absurdo, porque se tem uma algo que está em nosso DNA é o futebol.

Se por um lado estão transformando o nosso território em espaço a ser explorado pelos interesses do Capital, tornando-nos ainda mais colônia, no território da bola, no gramado, quando o Brasil entra em campo, é naquele espaço (também explorado) que se resguarda um pouco do sentimento de nação.

É um treinamento intenso, em dois turnos, escrever sem cometer o pênalti do pieguismo das propagandas de autoajuda, que se proliferaram nos intervalos das TVs, como as do bom Tite, em momentos curyanos.

Essas linhas não têm a intenção a fazer apologia ao anestesiamento, à alienação, ao ufanismo. Não se trata disso! Apenas tentar mostrar que é preciso separar os sentimentos: um é o Brasil, país com tantos descaminhos a serem resolvidos, com tanta desigualdade social; outro, é o Brasil em campo.

Podemos não ter o Coliseu nem o Parthenon e nossas ruínas de civilização renovam-se a cada dia, mas temos o futebol, capaz de explicar muito sobre quem somos. Não existe nada mais brasileiro que um Garrincha fintando as linhas de marcação tão quanto a gente lutando para encontrar um espaço no ônibus em direção ao trabalho para ganhar o pão e  “dibrar” as dificuldades.

Para os mais radicais, futebol é pura alienação, ópio do povo. Porém, como libertar de minhas memórias meu choro soluçante, em 1986, aos 10 anos, quando a Seleção perdeu para a França, meu pai me consolando, com aquele olhar de homem adulto tentando mostrar que na vida se ganha e se perde?

Passados 30 anos da derrota no México, com meus olhos já beirando os 40, encontrei o centroavante Careca e ganhei uma camisa dele. Diante de um ídolo é que a gente percebe que o tempo é invenção dos homens, porque na minha mente, naquele momento, fundia-se o garoto de 10 anos que assistiu ao Brasil cair da Copa com o pai da Lara de oito anos. E não titubeei ao perguntar o que faltou naquela partida. Por mais que nossos pais nos expliquem sobre o futebol – e a vida -, existem algumas derrotas que a gente não aceita.

Nenhum princípio filosófico ou conceituação sociológica são capazes de demover o meu sentimento pelo futebol e pela Seleção, nessa partida entre a razão e a emoção, está decretado o empate. Assim vive-se melhor.

Por mais que os cartolas insistam em acabar com nosso patrimônio imaterial, impondo-nos vergonhas homéricas como o 7 a 1 em nosso quintal, diante de nosso povo, quando o apito trila, é como se se instaurasse um tempo dentro do nosso tempo, então a gente percebe o quanto o futebol está arraigado no coração do brasileiro.

Se olho para as entidades do futebol, para os subterrâneos, deixo de torcer para a Seleção, por isso me concentro nos 90 minutos em que a bola rola, porque os cartolas, que transformam também nossos sentimentos em colônia a ser explorada (também por incompetência nossa?), não poderão arrancar de mim a emoção de ver uma partida com a Seleção em campo. Se deixo de torcer, assim eles vencem.

A Seleção Brasileira está a caminho da Rússia. O meu coração também.



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