São Paulo e a Guerra do Fogo



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A partida entre Botafogo e São Paulo representou mais uma explicação sobre o porquê futebol, antes do jogo, é teoria; mas, quando a bola rola, é metafísico. O São Paulo, combalido, na zona de rebaixamento, foi ao estádio Nilton Santos enfrentar o organizado Botafogo, muito bem treinado por Jair Ventura. E, contrariando a razão, como assim funciona a lógica na filosofia da bola, venceu por 4 a 3, depois de estar perdendo por 3 a 1, até os 39 do segundo tempo.

A partida pareceu o roteiro do filme “A Guerra do Fogo”, de Jean-Jacques Annaud, quando os homens compreendiam o fogo como algo sobrenatural e, diante do fato de apagar sua chama, partiam em sua busca em outras terras. O São Paulo reencontrou o fogo no Rio.

O São Paulo entrou em campo em 18º na tabela, com 16 pontos, em 16 partidas, estreia de Hernanes, apoio da torcida, que enviou mais de 40 ônibus ao Rio de Janeiro, e a esperança por dias melhores.

O Tricolor que, no Morumbi, havia arrancado um empate contra o Grêmio, mais na base mais da vontade do que na organização, contra o Botafogo foi uma equipe mais coesa. Isso não se reflete pelo placar final, mas pelo futebol desenvolvido.

Ao contrário do time voluntarioso, o São Paulo fez a bola correr entre as linhas.  A entrada de Hernanes no meio campo, ao menos nesta partida, pareceu ter resolvido um problema que se arrasta desde o início do ano no Tricolor, que é um meio-campo que não consegue fazer a bola chegar ao ataque.

Outro ponto do Profeta no meio que alterou o sistema Tricolor: Cueva, que no México não era um camisa 10, mas um meia-atacante, com chegada de Hernandes foi posicionado corretamente por Dorival, entre o meio e a ponta-esquerda. Seu futebol, com a posição (aliada à disposição), cresceu. Mesmo perdendo um pênalti – que não existiu – por uma cobrança displicente, não alteraria a boa partida do peruano.

O São Paulo fez a bola correr, mas não abriu mão de correr, na busca por intensidade com técnica. Desta forma, pressionando o adversário, o São Paulo abriu o placar aos 17/1T, com Cueva, que aproveitou a falha da defesa e só empurrou para as redes. Era tudo o que o Tricolor precisava: sair na frente.

No entanto, um velho problema reapareceu. O São Paulo não consegue administrar o placar positivo, levando um gol logo na sequência. Dois minutos após, 19/1T, cruzamento na área, a defesa Tricolor afastou, a bola sobrou para Pimpão, livre, na esquerda, tocar para Marcos Vinicius receber e bater no canto de Renan.

Tomar um gol na sequência repetiu um padrão negativo do São Paulo, no entanto, o que mudou foi que o time, com o empate não entrou em parafuso. O time não desgovernou nem quando o Botafogo marcou o segundo gol, aos 25/1T, com um peruzão de Renan Ribeiro. Marcos Vinícius recebeu a bola na meiuca, bateu de longe, a bola quicou na frente do arqueiro Tricolor, que aceitou a bola encobrir-lhe vadiamente.

O Tricolor não esmoreceu. Mesmo perdendo, continuou jogando bola. Essa já parece ser um grande avanço para o São Paulo da Era Dorival. Compreender que, ganhando ou perdendo, há que se ter um padrão de jogo.

O time voltou para o segundo tempo com a ingrata missão de se superar e buscar o empate, para conquistar um ponto no Rio. Mas a partida prometida mais ao Tricolor.

Dorival retornou para a segunda etapa com a mesma formação inicial: Renan, linha de defesa formada por Bruno, Arboleda, Rodrigo Caio e Edimar. No círculo central Jucilei e Petros. No meio, Hernanes. No ataque, Cueva pela esquerda, Pratto no centro e Marcinho na direita.

Assim seguiu até dos 18/2T, quando Dorival resolveu arriscar. Sacou Marcinho, que não foi bem, para dar lugar a Nem. Tirou o volante Petros, para promover Marcos Guilherme. Com isso, buscou melhorar as jogadas pela ponta direita com Nem, abdicou de um volante, deixando o time com apenas Jucilei no círculo central, abriu Marcos Guilherme na ponta esquerda e recuou Cueva mais para o meio, formando dupla com Hernanes.

Funcionou. Dois minutos depois das substituições, aos 20/2T, Hernandes, do meio campo, lançou de primeira em direção a Nem, que partiu com tudo para a área e sofreu pênalti. Em realidade, infração pela visão do árbitro, pois, de fato, não foi nada.

Cueva bateu mal, quase displicente, e o bom Gatito defendeu com facilidade. Mas a ducha maior viria um minuto depois de perder a chance de empatar. Em contra-ataque fulminante, que contou com a falha de marcação de Edimar, e deixou o setor livre para o lateral do Fogão, Luis Ricardo, receber, tocar para trás, na chega de Guilherme bate de primeira e fazer um belo gol no canto esquerdo de Renan.

O placar de 3 a 1, depois do pênalti, já passado metade da segunda etapa, aparentava decretar o final da partida. A torcida do Botafogo começou a cantar: “Arerê, o São Paulo vai jogar a Série B”. No entanto, futebol, como diz a filosofia popular, não se explica enquanto não se encerra.

Dorival sentiu, mas não se entregou. Aos 31/2T, sacou Pratto e colocou Gilberto. O time seguia jogando e lutando.

Quando tudo caminhava para mais uma derrota do São Paulo, eis que o jogo virou. Aos 39/2T, Cueva cobrou escanteio, Arboleda desviou de cabeça e Marcos Guilherme empurrou para as redes, diminuindo para 3 a 2, fazendo o “Sobrenatural de Almeida” entrar em campo.

Dois minutos depois, aos 41/2T, Hernanes recebeu na área, bateu com a direita, a bola voltou, o camisa 15 insistiu, e, ambidestro, bateu de esquerda para empatar a partida. 3 a 3.

Nessa partida-redemoinho de gols e emoções, quando novamente tudo se encaminhava para o final, eis que Cueva fez um lançamento primoroso, em profundidade, para a velocidade de Marcos Guilherme, que avançou e bateu na saída de Gatito.

Gol da virada Tricolor, para catarse de milhões e milhares de apaixonados, que partiram em caravana de São Paulo ao Rio, para ocupar as arquibancadas do Nilton Santos.

Além dos evidentes três pontos a mais na tabela, chegando a 19 e subindo para 15ª, mas ainda podendo descer dependendo dos resultados dos adversários direto neste momento de luta evitar a degola, tão bom quanto o resultado final foi o futebol apresentado.

Os números, quando contextualizado e interpretados, para não recairmos na numeralha, revelam muito desse novo São Paulo que se forma nas mãos de Dorival.

Segundo o Footstats, o Tricolor teve 63% de posse de bola, contra 37%. O que antes era somente posse de bola sem produtividade, desta vez não foi bem assim: o São Paulo construiu 12 cruzamentos certos contra 2 do Fogão, 8 finalizações certas, contra 4 (o dobro), e 526 passes certos, frente a 235. (Confira as estatísticas completas da partida no blog Num3r0s da Bol4, de André Schidmt)

Ainda que o tempo deva favorecer Dorival para mais ajustes, é nítida a linha da defesa está se posicionando melhor. Salvo o terceiro gol do Fogão, em que Edimar não recompôs e assim acontecia muito com Júnior Tavares. Hernanes tem capacidade suficiente para ser um 10, problema que se perpetua desde a saída de Ganso e muitas vezes apontada pelo blog.

E, por fim, um ponto importante: o time, ao contrário de muitas outras vezes, não perdeu a cabeça diante de um gol ou placar adverso.

O Tricolor voltará a campo na próxima quinta-feira, às 19h30, no Morumbi, frente ao Coritiba e já como promessa da torcida de ultrapassar o recorde de público contra o Grêmio e colocar mais de 60 mil torcedores.



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