São Paulo 2018: Raí e Ricardo Rocha entre o real e o imaginário



Nos últimos 10 anos, exceto a conquista da Copa Sul-Americana, o São Paulo coleciona fracassos. Ano após ano, além de fracassos, também acumula as mais diversas – incluindo as mirabolantes – soluções para iniciar uma nova e vencedora temporada.

Evidente que diante do histórico de derrotas e vexames faz-se necessário encontrar uma solução dentro e fora de campo para o clube reencontrar o caminho de vitórias, mas a grande questão que se verticaliza, o ponto que deve ser analisado, se dá nos formatos que essas soluções se constituem, estabelecendo um exercício para distinguir o real do imaginário.

Depois cair no Paulista, vexativamente sucumbir ao Defensa y Justicia, em pleno Morumbi, e patinar por longas rodadas no limbo da zona de rebaixamento do Brasileirão, eis que a diretoria lança um novo projeto para reerguer o Tricolor, com a contratação de um time fora de campo, formado por Raí, Ricardo Rocha e, talvez, Zetti e Lugano.

No plano real, considerando que antes o setor estava ocupado por Pinotti, é boa a ideia dessa comissão de notáveis, que no plano imaginário reconstitui não só um São Paulo vencedor como também faz projetar na mente um comando formado por vencedores, campeões do mundo, que entendem os meandros dos vestiários e teoricamente se preparam para as funções administrativas.

Nomes de peso no cenário mundial e história dentro do São Paulo, inevitavelmente, preenchem o vazio coração do torcedor com esperança (elemento mais vendido pelas diretorias na última década), porém, esse conceito, definitivamente, necessitava obter um efeito prático na realidade do campo.

Raí e Ricardo Rocha pouco, ou nada, poderão fazer para reconstruir um clube em visível decadência se não contarem com o aval da diretoria, caso contrário, transformar-se-ão, com o perdão da mesóclise, em meros títeres de uma estrutura de poder.

Considerando a hipótese que contem de fato com o apoio da diretoria, Raí e Rocha, bom time fora de campo, terão a missão de construir um bom time dentro de campo, onde o São Paulo mostrou ser frágil e vulnerável, recorrendo a atos desesperados e de alto custo, como a contratação de Hernanes, que funcionou e foi decisivo para livrar o clube do pior capítulo de sua história: o Rebaixamento.

Funcionou, mas a chegada de Hernanes também serve como ponto de partida para análise e compreensão da completa falta de planejamento do São Paulo 2017, que queimou ídolos devido à precipitação e falta de respaldo, à venda desesperada de jovens promessas para cobrir rombos orçamentários e expôs a falta de critérios na contratações, formando uma “constelação” de jogadores medianos, ruins e muito ruins. O resultado dessa combinação ficou claro nas desclassificações e na tabela do Brasileirão.

Lidar com o real, buscando boas contratações, evitando que um time das dimensões do Tricolor se visse em uma situação em que, com a temporada avançada, não possuía um reserva para a lateral esquerda; não houvesse uma definição sobre o goleiro titular; a lateral direita se tornasse um palco de improvisações, dentre outras desordens que deveriam ser previstas no início da temporada 2017. Todas essas incongruências – para usar um nome pomposo para as gambiarras -, no mundo real do futebol, cada vez mais competitivo, não pode existir.

Função da nova dupla gerenciadora é também afastar o imaginário que tomou conta dos corações e mentes dos sofridos torcedores que, frente à escassez de títulos e buscando soluções imediatistas, daquelas que um dia deram aval das arquibancadas à contratação de um zagueiro veterano e questionável por R$ 40 milhões, novamente recorrem a jogadores (exceto Hernanes) que tiveram boas passagens pelo clube, como no caso de Calleri, sendo que o elenco conta com um jogador do porte de Pratto, que deveu muito em 2017, mas tem potencial para fazer uma grande temporada.

Raí e Rocha precisarão ponderar, e muito, sobre esse exercício de tentar reconstruir o presente com peças do passado, porque o tempo e a vida são dinâmicos. Fosse a tese do passado uma Verdade inquestionável, bastaria colocar Raí e Rocha para jogar e não para gerenciar. A dupla terá a missão de iniciar o processo de formação de um novo elenco, um novo ciclo, como acontecera no São Paulo de 2004, desaguando nos títulos paulista, Libertadores, Mundial e três brasileiros.

Como ciclos não se formam da noite para o dia, Raí e Rocha terão de enfrentar o imediatismo burro das arquibancadas, atravessar o deserto da pressão da seca de títulos, visando sempre um São Paulo com bases sólidas, reais, não dando margem ao clube que atualmente só existe nas campanhas de marketing, visando sempre a lógica mercadológica que o maior marketing é a foto do capitão levantando a taça.

A pressão virá das arquibancadas e dos bastidores do poder no Morumbi.  O tempo demonstrará se os dois craques poderão representar de fato uma virada nas ações para a construção de um São Paulo com base sólida, real, ou se se tornarão mais um capítulo do imaginário mitológico que passou a ocupar as arquibancadas do Morumbi.



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