Rogério Ceni: mito como jogador, mortal como treinador?



Como será a vida de Ceni treinador, condição que transforma mitos em mortais e homens em “burros”?

Na era digital, em que a informação é praticamente instantânea, verticalizou-se o fato de que Rogério Ceni assumirá o comando do São Paulo. A notícia está dada, propagada, não é mais novidade, mas alguns pontos merecem ser analisados com o Mito na era treinador.

É preciso contextualizar a chegada de Ceni ao Morumbi.

As arquibancadas estão em polvorosa, como se olhando para o sol e vendo a imagem de um santo. Fala-se da mãe, mas não de Ceni e sua história no Tricolor.

No campo político, o São Paulo contabilizou um ano horrível, talvez o pior de sua história com script de novela mexicana: escândalos, invasão de CT, agressão aos jogadores, greve de silêncio dos atletas por atrasos nos salários, queda de presidente, denúncias, afastamento e composições. Teve de tudo.

Nos gramados, exceto à inexplicável chegada à semifinal da Libertadores, as participações nos Campeonato Paulista e Brasileiro foram vexatórias. Mesmo a Libertadores, quando analisada num todo, principalmente a primeira fase, só não foi um fiasco total, porque o time conseguiu uma classificação na bacia dos Andes.

Bauza entrou, Bauza partiu, Jardine assumiu, Jardine voltou à base, Ricardo Gomes chegou, Ricardo Gomes saiu e Ceni chegou. Nessa ciranda conceitual, o antes tão organizado e soberano São Paulo já contabiliza quatro técnicos na temporada 2016. Um “recorde”, que daria até para pedir música no Fantástico.

Com o time em colapso no meio do Brasileiro, o presidente Leco convidou Marco Aurélio Cunha, antigo opositor, para formar uma frente na tentativa de fazer o time se segurar na primeira divisão, tentar amenizar as turbulências dos bastidores e dos vestiários.

MAC também retornou depois de conversar, lá atrás, com Lugano e Ceni. Agora, conduz Ceni a treinador e, assim, estabelece-se de vez a “Tríplice Regência” no São Paulo.

Com idade avançada e pouco aproveitado no São Paulo, não será estranho Lugano se tornar auxiliar de Ceni em 2017.  Dois ídolos com personalidade forte e com amor incondicional ao São Paulo. Nenhuma diretoria do mundo teria dois parapeitos tão fortes como Lugano e Ceni. Com MAC, outro querido pela torcida, a massa estaria controlada.

A torcida por Ceni dar certo é grande, até da imprensa, ainda mais nessa entressafra de técnicos pós 7 a 1. Mas, depois da catarse da torcida em assistir a um Mito assumir como técnico do São Paulo, como será a vida de Ceni treinador, condição que transforma mitos em mortais e homens em “burros”?

O grande problema é que, como diz o hino do São Paulo, em futebol não dá para limitar o tempo nas “glórias do passado”. Ceni tem história como jogador, ídolo, mito, jogador de 25 anos de clube, com inúmeros recordes, mas não como treinador.

O máximo que Ceni fez como treinador foi realizar alguns cursos na Europa. Aliás, os cursos preparatórios europeus tornaram-se obsessão dos treinadores, como se buscando um banho de civilidade e tática. Estranho e contraditório, que o país do futebol agora precisa se vestir com as tendências europeias. Bom, mas isso é assunto para um outro texto…

Retomando Ceni, ninguém da crônica esportiva possui um parâmetro para avaliar como será Ceni treinador. O que se tem palpável neste momento é o que foi Rogério Ceni em campo, como jogador, como mito que é.  No entanto, isso não assegura que será um grande técnico, afinal, fosse o futebol matemático e lógico, nessa linha de raciocínio Pelé seria o maior treinador de todos os tempos.

Consideremos que os cursos europeus são capazes de transformar homens em técnicos, no entanto, é preciso relativizar com o fato de que a teoria precisa tabelar com a prática, não acontece isolada e envolve ambiente político, vestiário, poder, bastidores, conselheiros e jogadores, cada um com uma capacidade técnica, uma personalidade e todos os conflitos que permeiam os seres humanos. Por isso, atualmente, diz-se que o treinador também é gerenciador de pessoas. E é verdade.

Nesse sentido, como será para os jogadores que até pouco tempo conviviam com Ceni no vestiário no mesmo patamar de jogadores e, a partir de agora, terão de vê-lo como treinador?

Dentre as inúmeras situações complicadas que Ceni, pensemos nesta, que é real: Denis ficou esperando 7 anos, praticamente um Jó, para que Ceni se aposentasse e recebesse a merecida oportunidade de mostrar o seu trabalho.

Ceni se aposentou, falou que Denis teria condições de ser o seu sucessor. Denis teve uma temporada inteira, não foi bem. Falhou demasiadamente. Em muitos casos, bestamente. Não pode ser considerado um injustiçado. Porém, como um carma do destino, Ceni agora retorna. Técnico. E diante da má fase de Denis, será Ceni responsável em colocar novamente Denis no banco?

Outra questão inevitável é o contexto com as eleições do São Paulo, em abril de 2017, que, queira Ceni ou não, transformou-se no maior cabo eleitoral para uma possível reeleição de Leco.

Aliás, não fosse o ano conturbado, com o time melhor na tabela, sem eleição e com os bastidores controlados, Leco teria chamado Ceni imerso em outro cenário? Parece que o mundo conspirou a favor de Leco e de Ceni, ao menos, nessa reta final de 2016.

Ceni técnico é bom para o São Paulo, bom para o produto futebol, bom para vender jornais, bom para chapas eleitorais, bom para o delírio da torcida, no entanto, só o tempo será capaz de mostrar se Ceni poderá ocupar o panteão dos treinadores.



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