A permanência de Dorival no São Paulo



Desde a demissão de Muricy, em 19 de junho de 2009, pode até soar como exagero, porém, exceção a pequenos lapsos, nunca mais o São Paulo se acertou com um técnico. Os trabalhos sequentes foram de curta duração, ora por maus resultados, ora por saídas dos comandantes para assumir seleções nacionais, o que resultou em ausência de padrões de jogo e, consequentemente, dentre outras variáveis negativas, em fracassos nos torneios disputados.

É óbvio que, tratando-se de futebol, onde a lógica brinca de driblar a razão, a grande duração de um técnico não é condição única para a conquista de títulos, mas, sem dúvida, está diretamente ligada à realização de bons trabalhos. Manter é o caminho mais sensato a ser seguido.

O caso recente mais emblemático do futebol nesta questão é o de Tite, ainda no Corinthians, em que depois de cair de forma vexatória para o Tolima, na Libertadores, Andres Sanches respaldou o treinador, reforçou a equipe, deu sequência ao trabalho, demonstrou convicção em sua escolha e o resultado foi que o Timão chegou à conquista da América e do Mundo.

Ainda que o contexto seja o de nove anos atrás, à época, Muricy permanecera três anos e meio no comando do São Paulo e o resultado foi a conquista de três brasileiros e um vice-campeonato da Libertadores.

Ainda que essa questão seja tratada de forma utópica no futebol brasileiro, cabe aos dirigentes mudarem esse cenário.

O cenário era tenebroso: Dorival chegou ao São Paulo em 5 julho de 2017, envolvo em um turbilhão, momento em que a diretoria vendia e comprava jogadores, o time estava na zona de rebaixamento e a confiança do elenco exalava desânimo.

Para piorar a situação, Dorival, que chegara a 11ª rodada, tentando formar algo palpável em um São Paulo fragmentado, vacilou com resultados negativos frente a adversários diretos na luta contra o rebaixamento. Foi o suficiente para a torcida colocar uma interrogação gigantesca se o técnico seria capaz de reverter o caos instalado no Morumbi.

Mesmo fechando o primeiro turno com muitas desconfianças, Dorival permaneceu. E não dá para negar que a permanência de Dorival foi decisiva para uma retomada. Os números provam: na 37ª rodada (penúltima), considerando o segundo turno, o São Paulo encontrava-se em primeiro lugar, com 30 pontos.

É preciso um mínimo de tempo para se conhecer o elenco, ambientar-se no clube e implantar seu pensamento por meio dos treinamentos. Se a combinação desses elementos já são complicadas no início da temporada, o que dizer, então, do contexto conturbado em que Dorival fora imerso.

Não se faz aqui o exercício retórico de vitimizar o técnico, uma vez que Dorival é um dos mais lúcidos, articulados e obviamente possuía a dimensão do problema pela frente. O argumento de que os técnicos ganham muito e tem que reverter qualquer situação desastrosa também não é mais sustentável. Não dá mais para alimentar pensamentos tão simplistas e superficiais.

É questão mais ampla, pensar o planejamento de uma equipe e combater o imediatismo burro que perpetua no futebol brasileiro, que engloba setores que vão das diretorias às arquibancadas. Coloca no centro da discussão, também, que chegou a hora de os dirigentes pararem de jogar para a torcida, planejar de fato suas ações e respaldar seus comandantes com apoio, demonstrando convicções, proporcionando boas contratações e a manutenção dos bons jogadores.

A permanência de Dorival no comando do São Paulo é decisão que está ao domínio de Leco e também passa por Raí(?). Não há mais espaço para improvisações e mudanças no meio do percurso. É momento de reafirmar a contratação do técnico, caso contrário, por que, então, se contratara Dorival?

Trocar Dorival em 2018, além de sacanagem, considerando o contexto em que chegara, é também alimentar um paradigma disforme e anacrônico, que afunda não só ao São Paulo, mas o futebol brasileiro.



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