Para não se apequenar, desafio do São Paulo é construir um novo ciclo vitorioso



A vida é ciclo. O futebol, também. A partir de 1º de janeiro de 2019, o São Paulo, com apenas um título na década, iniciará uma nova etapa em busca de reencontrar-se com a sua história, em busca de um novo caminho para as vitórias e, consequentemente, troféus, que são a razão da existência de todo clube de futebol. Qualquer coisa além de títulos é coisa de torcedor que comemora patrocinadora de material esportivo.

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Longe do saudosismo, mas resultado de levantamento histórico, fato é que o São Paulo conquistou suas maiores glórias quando conseguiu formar ciclos vencedores.

O PRIMEIRO CICLO: 1990-1994

O primeiro grande ciclo aconteceu na década de 90, com a chegada de Pimenta à presidência do São Paulo. O que muita gente desconsidera é que o Tricolor, antes de conquistar duas vezes a América e o Mundo, passava por graves problemas financeiros.

O blog Crônicas do Morumbi conversou com Kalef João Francisco, um dos brilhantes diretores do São Paulo na gestão Pimenta, que relatou o caos Tricolor no início dos anos 90:

“O início da gestão Pimenta foi muito difícil até a gente conhecer os intestinos do clube. Pimenta assumiu em abril de 90 e encontramos as finanças do clube em petição de miséria e o futebol totalmente sem rumo, sem motivação e sem qualquer perspectiva de recuperação.”

O desafio de Pimenta e seus comandados era recolocar o São Paulo era recuperar as finanças do clube e, consequentemente, conseguir formar um time. Passados praticamente 29 anos, assemelha-se a situação atual do São Paulo com o desafio da década de 90. Neste caso, repetiu-se o ciclo decadente.

Kalef João Francisco, um dos diretores do São Paulo campeão das Américas e do Mundo na década de 90

Questionado como conseguiram romper a falta de perspectivas, Kalef conta que “num primeiro momento o Pimenta e o diretor estatutário Fernando Casal de Rey resolveram substituir boa parte da comissão técnica, culminando com a chegada de Telê e Moracy Santana. Mesmo frente a uma situação financeira difícil ainda assim compramos alguns equipamentos para a comissão técnica que eram necessários. Na parte técnica, Telê começou um trabalho de recuperação emocional dos jogadores e como a situação financeira era difícil, o Mestre começou a garimpar os jogadores da base. Com muito trabalho a equipe foi vencendo alguns jogos e conquistando o primeiro campeonato. O time foi ganhando moral, apareceram os patrocínios e fomos gradativamente conquistando vitórias e títulos. Para que o sucesso acontecesse, foram contratados jogadores experientes e promessas que se tornaram realidades.”

Na década de 90, a era Pimenta conseguiu romper um ciclo negativo aparentemente sem solução e colocou o clube em outro patamar.

O SEGUNDO CICLO: 2005-2008

O segundo grande ciclo vitorioso no São Paulo aconteceu de 2005 a 2008, com os presidentes Marcelo Portugal Gouvêa e Juvenal Juvêncio. Neste período, o Tricolor venceu o Paulistão 2005, sob o comando de Emerson Leão (último conquistado), a Libertadores e o Mundial 2005, com Autuori, três Brasileiros (2006-2007-2008) e ainda um vice-campeonato de Libertadores, em 2006, sob o comando de Muricy.

O que há de similitude entre 1990 e 2000? A construção de construção de ciclos vencedores.

Ciclo, no futebol, não se limita à contagem do tempo, de forma cronológica, mas avanços na estrutura física do clube, com centros de treinamentos, e a formação, manutenção e reposição de jogadores, que mantiveram o nível competitivo da equipe.

O São Paulo 90 de Telê Santana, mesmo vendendo jogadores, realizava um intenso trabalho de observação do mercado para cobrir as eventuais ausências. No segundo ciclo, em 2000, o processo foi o mesmo. Mesmo com a equipe dominando o cenário nacional, o clube, permanentemente, buscava jogadores no mercado. Só para citar um exemplo, o zagueiro Miranda, que o São Paulo foi buscar no Sochaux, da França.

A questão é que a partir do tri-hexa brasileiro, o São Paulo nunca mais conseguiu construir um novo ciclo vencedor. E perdeu-se.

Além do sentimento de soberba, com a auto intitulação de “Soberano” invadiu os corredores do Morumbi, como se quem ali chegasse tudo transcorreria naturalmente para o caminho das glórias.

Muricy, formado no SPFC: ídolo nos gramados e multi vencedor como técnico.

Fato é que depois da saída de Muricy, de lá para cá, foram mais de 20 técnicos, muitos anos com dois ou três comandantes na temporada, jogadores entrando e saindo, atletas virando as costas para o clube, vendas constantes sem reposições à altura, o que foi achatando o nível do futebol e colocando o São Paulo, de um time que se programava, para recair em um espiral de tentativas e erros. Mais erros.

Além de não formar um time competitivo, o São Paulo queimou muito dinheiro com atletas que praticamente não jogaram ou quase nada entregaram. Foi muito dinheiro pelo ralo nas contratações, salários, empréstimos.

O ápice do descompasso aconteceu na temporada 2017, quando o time, sem dinheiro, viu-se obrigado a vender e vender jogadores durante os torneios, repondo às baciadas, não permitindo a formação de um elenco, trocando de técnicos e sem um rumo definido.

Novamente frente ao caos, que quase culminou no rebaixamento em 2017, Leco trouxe Raí, Ricardo Rocha e Lugano para comandar o futebol. Foi um passo para reencontro o caminho de glórias do São Paulo.

O SÃO PAULO 2019

Leco, Raí, apresentado como executivo de futebol, São Paulo FC, CCT da Barra Funda, 08/12/2017, Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Demonstração dos ciclos da vida e da bola se estabelece com a chegada de Raí ao Morumbi. De jogador do São Paulo, integrante do primeiro ciclo de ouro, na década de 90, retornou ao clube em 2017, na função de dirigente, com a missão de formar uma equipe competitiva, capaz de reviver os períodos de glória.

Raí foi ao mercado para formar o elenco 2018. Chegou com o discurso assertivo de manutenção de técnicos, formação e manutenção do elenco. Em seu primeiro ano como dirigente acertou e errou.

Mesmo com um time em construção, conseguiu fazer com que a equipe chegasse à liderança Brasileirão 2018, mas também deu margem a ingerências no vestiário e a demissão de Aguirre, restando poucas rodadas, quebrando a proposta de manutenção de um trabalho. Mesmo depois de uma queda vertiginosa de rendimento no segundo turno, o Tricolor, ainda assim, conseguiu se segurar em uma vaga na Libertadores 2019.

Retoma Raí as atividades para dar sequência à formação de um elenco para a temporada 2019. Em contratações boas pontuais, o eterno ídolo do São Paulo, agora dirigente, acerta, em teoria, com as chegadas de Volpi, para sanar um problema crônico no gol; Pablo, atacante cobiçado do Atlético Paranaense; trouxe dois jovens laterais, outro problema dos últimos anos. Ainda falta a contratação de um meia-armador. Se chegarem Hernanes e Rodriguinho, sem dúvida, o Tricolor apresentará, no papel, um bom escrete.

A chegada de jogadores com mais rodagem, somados aos jovens talentos da base, poderá formar um time competitivo. No entanto, um bom elenco 2019 não necessariamente resultará em títulos. O processo de formação de ciclos vitoriosos, assim como na vida, não acontece da noite para o dia. É processo cumulativo, que não tolera desmanches.

Ainda que considere a necessidade de um técnico experiente, uma vez que o São Paulo enfrentará um caminho de pedras na Libertadores e a escassez de títulos faz do Paulista uma mega taça a ser conquistada, se Jardine é o escolhido, então que se dê total suporte ao seu trabalho e sua filosofia de jogo.

O deserto de títulos do São Paulo nos últimos anos não é decorrente do destino, mas da somatória de decisões equivocadas. É preciso romper esse ciclo sucessivo de erros, que muito se explica, dentre tantos fatores, pelo imediatismo, pela falta de critério nas contratações, por apostas onerosas, pela falta uma filosofia no futebol que se pretende para sua equipe.

Considerando as novas contratações pontuais e a limpeza gradual no elenco, Raí parece dar os passos certos para a formação de um novo ciclo vitorioso em 2019. O caminho da vitória compreende decisões acertadas e paciência, sentimento que a torcida não tem.

Título é a razão de ser de um clube. Consequentemente proporciona vendas de jogadores em altos valores, gera receitas com patrocinadores, ativa o processo de sócio torcedor.

No entanto, ou se constrói uma equipe em um processo cumulativo ou o São Paulo seguirá perdido, olhando-se no espelho, perguntando-se onde foi que o tempo o castigou, transferindo os erros para o destino.

Importante ressaltar que não se trata de copiar o passado, mas de construir um novo futuro, considerando as variáveis no novo mundo do futebol.



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