A Odisseia moderna do mito Rogério Ceni



Nada tranquilo é caminho do Mito Ceni para atravessar o Paulista e a Copa do Brasil

Exceção à conquista da Copa Sul-Americana, em 2012, fato é que, desde 2009, depois de sagrar-se tricampeão brasileiro e inflamar-se como “o soberano”, o São Paulo tornou-se um time refém de uma estrofe de seu hino, em que as suas glórias vem do passado.

Futebol ruim, técnicos que não se ajustavam, flerte com o rebaixamento, colapso político com impeachment de presidente, dificuldades financeiras, contratações de jogadores questionáveis, perda de patrocinadores de peso, elenco reduzido, todos esses elementos combinados, ao longo dos últimos seis anos, levaram o São Paulo a conviver com o rebaixamento no Campeonato Brasileiro 2016.

Diante do alerta vermelho, que se acendeu no Morumbi, Leco resolveu, quebrando paradigmas e concomitante blindando-se para a eleição que estava por vir, alçar o ídolo Rogério Ceni ao comando técnico do time. Política ou não, a decisão foi ousada.

A questão de ser ou não blindagem nunca pesou na mente de Ceni, que busca, incessantemente, estabelecer um novo padrão de jogo ao São Paulo. Para isso, trouxe não somente novos conceitos da Europa, como também auxiliares estrangeiros, um inglês estudioso da bola, formando um corpo técnico consistente.

O tempo passou. A discussão política ficou para trás. Com os inícios do Paulista e da Copa do Brasil chegou o momento de sair da teoria e ir a campo. Era o momento de iniciar uma Odisseia no turbulento futebol brasileiro.

Mito na história do São Paulo, Rogério Ceni, em sua “Odisseia reversa”, no caminho de ida em direção de títulos, tenta superar todas as limitações que o futebol brasileiro e o atual São Paulo lhe impõe como desafios.

O primeiro é o de superar o calendário brasileiro, com jogos de três em três dias, em um país com dimensões continentais, que extenua os jogadores e pouco da margem para o técnico promover ajustes na equipe. As ideias são muitas, mas o tempo é escasso.

Complementando essa circularidade negativa do futebol, o elenco reduzido – e muitas vezes limitado – herdado por Ceni ampliam as dificuldades para manter o bom futebol apresentado nas primeiras rodadas.

Para dimensionar as carências do Tricolor, o São Paulo contava com apenas três laterais: Bruno e Buffarini na direita, e Júnior Tavares, na esquerda. No momento em que chega outro lateral esquerdo por empréstimo, Edimar, Ceni perde Bruno por contusão. Assim o que era para ser reforço e ampliação, torna-se reposição.

A saída de Ganso para o Sevilla só não deixou um rombo no meio-campo, porque Cueva, meia-atacante de ofício, muito habilidoso, consegue transitar entre a articulação e a chegada ao ataque. Não fosse Cueva, o São Paulo não teria um camisa 10.

Tanto os goleiros quanto os zagueiros também não se configuram na mente como indiscutíveis. Se perdera Bruno, na lateral, ontem perdera Lyanco, talvez o mais promissor defensor para o Torino. Com o SPFC precisando fazer caixa, Rodrigo Caio dificilmente ficará até o final desta temporada. Desta forma, analisado ponto a ponto, setor por setor, o São Paulo é um time em processo em obras.

Imerso nesse contexto de arrumar a carruagem em movimento é que Ceni depara-se com as limitações de tempo e de elenco. O caminho não é fácil.

Rogério Ceni, pela sua capacidade cognitiva, sua inteligência acima da média, sua obsessão por vencer, está longe de ser um aventureiro. Não é esse o sentido do termo Odisseia neste texto, mas sim pelo caminho que Ceni tem a percorrer e superar nos campeonatos.

Em sua Odisseia moderna no mundo da bola, Rogério Ceni também terá de enfrentar Cícones, Lotófagos, Ciclopes, Éolo e outras turbulências no caminho para Ítaca, no caso do futebol, no caminho para a vitória.

Buscando distanciar-se do Hades, amanhã, o Mito tem de encarar mais um: o Corinthians, arquirrival Tricolor, no Morumbi, em seu templo no futebol, que estará lotado.



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