O relatório francês: Brasil, o país do futebol?



Foto: Tiago Santana

Nesses tempos em que a Seleção Brasileira consegue a proeza de empatar com o Panamá e os jogos nacionais tornam-se, rodada a rodada, cada vez mais insípidos, amplia-se a discussão sobre a qualidade do futebol praticado e os jogadores revelados no Brasil.

A decadência da bola brasileira, que se demonstra nas pupilas dos mais singelos torcedores, coloca ainda mais exclamações e interrogações a partir de um relatório realizado por representantes de um clube europeu, formado por diretor de futebol, o diretor tático e head scout que, a convite de Alex Bourgeois, ex-CEO do São Paulo e Figueirense, por cinco dias, acompanharam treinos, jogos e conheceram as estruturas dos clubes.

O Blog Crônicas do Morumbi teve acesso ao relatório e conversou com Bourgeois, quem acompanhou e traduziu a impressão dos europeus. A foto que ilustra esse texto, de Tiago Santana, é uma síntese da impressão que os gringos tiveram do futebol brasileiro. 

Confira: 

“Na última semana, um grupo de europeus, formado por representantes de um dos times mais tradicionais da Europa veio ao Brasil para conhecer de perto o futebol. Pelos campos brasileiros, passaram o diretor de futebol, o diretor tático e o head scout. 

Passamos cinco dias assistindo treinos e jogos. Vieram ao país do futebol, nas palavras deles, à terra de Pelé, o maior jogador de todos os tempos e do futebol arte, que nos encantou na nossa adolescência. 

Futebol brasileiro sempre foi venerado na Europa, admirado e muito respeitado e nossos jogadores sempre foram os preferidos pelo talento, a técnica e a inteligência. A medicina esportiva era revolucionária, os métodos de treinamento eram a vanguarda, e sempre jogavam com novidades táticas que encantavam a Europa e o mundo. 

Vieram analisar o mercado, pois o novo dono do time vem fazendo grandes investimentos e quer melhorar o time a cada temporada. Ficamos em São Paulo e seguimos o campeonato Paulista. 

Fui autorizado [Bourgeois] por eles a compartilhar essa experiência sem nomeá-los e sem nomear o time. Então segue o pensamento de um dos maiores time da França, o país bicampeão mundial e que soube, como poucos, formar uma legião de grandes jogadores nos últimos 20 anos em diversas posições como, por exemplo, Vieira, Henry, Zidane, Ribéry, Desailly, Thuram ou ainda Griezmann, Varane, Kanté, MBappé, Pogba ou Dembelé entre muitos outros.

  1. TREINOS

– Gramados de péssima qualidade, com a grama muito fofa e muita alta, tirando velocidade.

– CTs pequenos, com infraestrutura fraca e muitos equipamentos ultrapassados

– Elencos muito inchados e treinos confusos em decorrência disso

– Muita gente nas comissões técnicas participando do treino

– Trabalhos táticos simples e com finalidade questionável

– Trabalhos táticos reativos e não propõe jogo. Fogem da característica do futebol brasileiro que procuramos.

– Intensidade muito fraca. Treinos parecem recreativos sem a intensidade necessária para o jogo.

– Não há nenhuma ideia de jogo interessante, tudo muito básico. Jogadas ensaiadas não são treinadas com a repetição necessária.

  1. JOGOS

– Sem intensidade, sem velocidade e sem movimentação

– Ideias de jogo simplistas e esquemas táticos básicos

– Sensação de ter viajado no tempo, mas para o país errado. Estamos vendo o “kick and rush” da década de 70 da Inglaterra na terra de Pelé, Ronaldo e Romário! Como isso aconteceu?

– Muito espaço, jogo é jogado numa faixa grande demais no mínimo o dobro da faixa de 25 metros que usamos.

– Pouca agressividade e pouca potência

– Do jeito que se movimentam alguns jogadores mais velhos eles jogam tranquilos até 45-50 anos de idade

– Muito erro de posicionamento tático e de posicionamento do corpo na hora de receber e de tocar a bola

– Transições com jogadores velhos são muito lentas e sem potência

– Teria que ver quanto os jogadores mais jovens alinhados com jogadores veteranos (ex-jogadores) não se comprometem taticamente já que precisam esperar os veteranos em cada transição, em cada posicionamento, em cada aceleração.

– Incrível como times da 3º e 4º divisão rivalizam de igual para igual com times da 1º divisão. Folha de pagamento dos times da 1º divisão não compatível com esse “equilíbrio”. Times nivelados por baixo

  1. JOGADORES

– Nenhum jogador acima da média da Europa

– Os mais jovens são interessantes pela idade, mas temos (na Europa) jogadores similares na mesma faixa etária

– Sempre haverá um ou outro brasileiro acima da média, mas hoje temos na Europa, e na França em particular, um ou outro jogador acima da média

– Antigamente o jogador brasileiro era diferenciado e existia uma quantidade maior de jogadores diferenciados do que na Europa, não vimos nada disso, muito pelo contrário.

– Os poucos jogadores diferenciados já estão na Europa, e confirmamos nossa opinião que os jogadores são na grande maioria comum.

– Nível dos grandes times é muito fraco, equivalente à parte de baixo dos campeonatos de 1º divisão da Europa ou 2º divisão da Europa.

– Salários dos jogadores absurdamente elevado pela qualidade. Dificulta muito levar jogadores do Brasil, pois não pagamos esses salários por jogadores comuns.

– Jogadores com pouco entendimento tático e sem técnica muito diferenciada, fraco cognitivo (QI Futebol)

  1. ESTÁDIOS

– Muito longe do campo para assistir bem o jogo

– A única coisa que oferecem é o jogo não tem nenhuma experiência

– Jogo lento e de baixa qualidade, muito difícil atrair público. Estão 25 anos atrasados em experiência. Modelo econômico questionável.

– É legal ser raiz e viver no futebol da década de 1950, mas o consumidor quer isso?

– Acesso aos estádios é muito complicado, não tem transporte público! Isso piora o modelo econômico.

– Jogos de uma torcida só! Nunca imaginamos ver isso na nossa vida. Péssima experiência os jogos de uma torcida só. Muito estranho o silêncio quando o visitante marca um gol é totalmente anticlímax e anti-futebol

– Arena Corinthians é excelente, padrão Premier League apesar da distância da cidade, mas existe transporte público, e a experiência é completa. Tudo é feito para agradar o público, mas o jogo precisa melhorar muito, muito mesmo, é assustador a lentidão, a falta de intensidade e o esquema tático estático, sem movimentação, não existem ideias de futebol, é muito pobre.

– Eles não integram a parte esportiva dentro da realidade econômica do clube. Não existe futebol fora das 4 linhas.

– Área esportiva não é responsabilizada, como nós somos, pelo resultado comercial, pela exposição da marca, pelo marketing, pelo resultado financeiro e obviamente pelo dia do espetáculo que é o que traz nosso consumidor à nossa casa.

– Não sei como vão conseguir competir com todas as alternativas que o consumidor tem hoje em dia. Eles não parecem ter compreendido que precisa sempre proporcionar a melhor experiência possível independentemente de ter o faturamento do Manchester United ou do Betis.

– Não entenderam que jogar bem futebol é a principal premissa dessa equação, e a única garantia de vitórias ao longo do tempo. Jogam com medo de perder, não jogam para vencer.

Resumo: Somente jogadores jovens com no máximo 20 anos apresentam um “certo” potencial, mas para correr menos risco precisamos emprestá-los a algum clube parceiro. Nossos parceiros portugueses, holandeses ou belgas seriam ideais para formar esses jogadores, pois esses jogadores tem uma formação na base muito fraca!

Jogadores tem técnica, mas é algo intuitivo, não é desenvolvido com trabalho, repetição de situações de jogo em alta intensidade para a tomada de informação, desenvolvimento do QI Futebol é muito fraco.

Parte tática precisa de muito desenvolvimento e muito trabalho antes de se tornarem jogadores prontos para disputar nosso campeonato. Agora entendemos melhor como alguns jogadores que chegaram à Europa com grande expectativa não vingaram, a formação deles no Brasil, na base ou no primeiro time, é muito fraca. Não é uma questão de adaptação à Europa como sempre achávamos, é um problema profundo de formação.”



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