Nomenclaturas “modernetes” escondem o vácuo de bom futebol praticado no Brasil



O futebol praticado no Brasil vem definhando. Diante do empobrecimento técnico das partidas, muita gente, dentre e fora do mundo da bola, caiu na esparrela de tentar explicar o jogo a partir de conceitos “modernetes”, porém vazios.

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Futebol é visual. O mais singelo torcedor brasileiro, nascido e criado com uma bola dente de leite, pode não possuir um amplo vocabulário nem expressar o que se vê, porém, com certeza, quando perguntado sobre uma partida, ele é capaz de dizer se o jogo jogado é bom ou ruim.

Marcação alta, externo, jogo apoiado, amplitude e outras groselhas conceituais, que se proliferam e são reproduzidas sem filtro, na prática, tornam ainda mais o futebol distante do massa e, pior, não melhoram o jogo.

Esses novos verbetes da bola, em sua grande maioria, não acrescentam nada do que já não tenha sido praticado e visto e observado pelos torcedores, porém, agora, sob uma nova roupa velha colorida.

Sempre que me deparo com as coletivas de técnicos que se arvoram nesses conceitos, lembro-me da coluna do Professor Pasquale, “Inculta e Bela”, quando o mestre da Língua Portuguesa, no Folha de São Paulo, desvendava uma coleção de expressões “à nível de” escalada no cotidiano, que poderiam soar bonitas, mas que eram vazias e equivocadas gramaticalmente.

O futebol brasileiro, salvo raras exceções como Renato Gaúcho, Fernando Diniz e Sampaoli, transformou-se praticamente em discurso político, onde se substituem palavras simples por palavras que requerem dicionários, no sentido de que ninguém compreenda ou para manipular e distorcer a realidade.

A grande diferença da política – que é complexa -, para o mundo da bola, é que futebol é visual, e o mais singelo torcedor é capaz de olhar e dizer se aquilo projetado em suas retinas é bom ou ruim. Ainda mais para o brasileiro, que tem um histórico futeboleiro nos corações e nas mentes.

Também não é necessário ser jornalista esportivo, ex-atleta ou especializar-se em pranchetas eletrônicas para explicar quando revemos, nesses tempos de memória estendida no Youtbe, que Garrincha, Pelé, Zico, Careca, Romário, Ronaldo, Pelé, Dinamite, Ronaldinho Gaúcho, dentre muitos outros, jogavam demais. Eles não precisavam de explicação conceitual nem de verbetes e discursos enfadonhos. O encanto estava na imagem, e todo mundo entendia.

Quando entrevistei o grande técnico Rubens Minelli (clique aqui para conferir a entrevista completa), fiz questão de querer saber sua posição sobre o embate “futebol antigo” versus “futebol moderno”. Minelli, em uma das respostas, disse: “Há 42 anos, quando montamos o Internacional de Porto Alegre, bicampeão brasileiro em 75 e 76, com folgas no segundo ano, implementamos exatamente o que se busca nos tempos atuais, que é marcação sob pressão (atual marcação alta), não permitíamos que o adversário se movimentasse muito, jogando muito pelos lados do campo, subindo ao ataque e fechando pelo meio-campo. Isso tudo que nós vemos hoje já acontecia na aquele tempo. É uma pena que o futebol daquela época não contava com a mesma estrutura da mídia atual e, deste modo, não foi tão documentado para mostrar tudo isso que apontei.

O VISUAL FURA A BOLHA DO CONCEITUAL

Muito além da tentativa de criar uma nova roupagem para o futebol, é sempre necessário contextualizar as novas nomenclaturas “modernetes” da bola à realidade brasileira .

Um estudo apontou que apenas 8% dos brasileiros possuem condições de ler e compreender. Outra pesquisa, realizada em 2016 pelo IBOPE, e divulgada por Maria Fernandes Rodrigues, no Blog Babel, no jornal O Estado de São Paulo, “44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, aponta pesquisa Retratos da Leitura.

Mesmo com esse vácuo educacional para a compreensão da realidade, que não é culpa da população, mas da ausência de políticas públicas para a formação de uma nação, o futebol ainda resiste à compreensão do jogo em si, porque se explica pela imagem, então, assim, resiste às marcações altas das novas nomenclaturas no futebol.

Atualmente, os técnicos falam de tática como se no Brasil o futebol praticado antigamente fosse composto por um bando de índios correndo atrás de um coco. O que não é verdade. Isso não implica que a tática não seja importante, mas a pergunta que se tem de fazer é: – merece todo esse peso dos dias atuais?

O futebol brasileiro precisa se reinventar, mas dentro de campo, sem cortar a linha do tempo de sua História. Não será reinventado através de verbetes. É necessário retomar nas bases os dribles, os cruzamentos precisos, a posse de bola (ainda objeto principal), o passe, as finalizações, o desejo pelo gol.



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