A noite sem fim de Medellín



Milhares de colombianos dividiram o sofrimento do povo brasileiro: a dor não tem pátria, nem limites, nem fronteiras

Milhares de colombianos dividiram o sofrimento do povo brasileiro: a dor não tem pátria, nem limites, nem fronteiras

Nem o escritor colombiano Gabriel García Márquez, mestre do realismo fantástico, gênero literário que mistura o sonho à realidade, imaginaria o que aconteceu no estádio Atanasio Girardot, quando o povo da Colômbia se uniu ao Brasil para dividir a dor da perda pelas vítimas do trágico acidente aéreo da Chapecoense.

Quarenta mil vozes dentro do estádio, dezenas de milhares nas ruas, com velas, flores, bandeiras, vestidos de branco, formaram um só povo brasileiro-colombiano, um só povo latino-americano, envoltos em um só sentimento, que entrelaçou o mundo inteiro.

Há milhas do Girardot, os chapecoenses também se reuniam na Arena Condá, numa conexão humana, sem fios, como se um pudesse ouvir ao outro, como se estivessem em um mesmo estádio.

Nem o mais apaixonado torcedor ousou imaginar que a torcida de um clube de outro país entoasse o cântico das arquibancadas de outra agremiação que, em realidade, nem se conheciam.

No entanto, como parece haver mais ficção na realidade que na própria ficção, os hinchas do Atlético Nacional preencheram o vazio das ausências com um grito de “Vamos, vamos, Chape! Vamos, vamos, Chape! Num som tão potente, construído com as cordas vocais da sinceridade, que ele se propagou aos corações de todos os brasileiros. E nos fez chorar.

Os tecnocratas alegarão que homenagens não resolverão os problemas cotidianos futuros e que as pessoas necessitam de amparo prático, não de sentimentalismo. Sem dúvida que as pessoas que permaneceram realmente precisam de amparo, o que naturalmente virá depois dessa catarse mundial diante da tragédia, mas, neste momento, sobretudo, precisam de carinho, de conforto, para dividir a dor da perda e colocar a cabeça no lugar diante do incompreensível.

Enquanto o povo colombiano abraçava os brasileiros e nos arrancava lágrimas, horas antes, a Confederação Brasileira de Futebol “sugeria”, eufemismo para pressionar, o presidente da Chape para que entrasse em campo contra o Atlético Mineiro, disputasse a partida pelo Brasileirão, e assim se fizesse uma grande – pasmem –  “festa”. Como se ignorando a dor e o fato de que, na sexta, as vítimas da tragédia serão veladas no gramado do Condá.

No romance “Cem anos de Solidão”, de Gabo, o vilarejo dos Buendía fora atingido pela “peste da insônia”, doença em que as pessoas começavam a esquecer o nome das coisas e das pessoas, tendo que anotar em papel o nome de tudo.

Com o passar do tempo, com o esquecimento também das milhares de anotações, misturando memória e realidade, as pessoas passaram a viver numa realidade imaginária. “Assim, continuaram vivendo numa realidade escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que haveria de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita”.

A CBF parece ter contraído a peste da insônia, esquecendo-se de tudo e de todos, em nome de protocolos toscos e contratos comerciais, que não se dissolvem nesses momentos em que não se comercializa a vida. Os homens da CBF parecem que se esqueceram que somos humanos.

Mas não há problema. O gesto do povo colombiano encobriu todas as vozes dissonantes, insensatas, desumanas. Revelou ao mundo o tamanho do ser humano e, ao mesmo tempo, revelou a pequenez de instituições.

A noite de Medellín não tem fim. Nem terá. Vamos, vamos, Chape! Ressoará ao longo do tempo, ao longo da história, de geração em geração, de memória em memória.

Depois do que se viu, todos os brasileiros são Chape, assim como todos sempre seremos colombianos e Atletico Nacional.

#ForçaChape



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