José Trajano, 70 anos



Ainda “menino”, lá nas divisas de Minas, apaixonado por futebol, mas distante dos estádios, alimentava meus sonhos assistindo as partidas na tv, ouvindo via rádio e complementava com o programa “Cartão Verde”, criação de Michel Laurent, exibido pela TV Cultura.

Sentava no sofá ao lado de meu pai, não desgrudávamos os olhos daquele programa mágico, que reunia três camisas 10 num mesmo time: José Trajano, Juca Kfouri e Armando Nogueira.

O futebol, quando tratado pelos craques, compreende a vida, desfaz a lógica, tabela com questões sociais; explica o mundo; é onírico, mantém vivo o menino nos homens e faz poesia com dribles. E Trajano é assim: consegue interligar o futebol à vida dos homens, o destino de cada partida ao destino das nossas vidas, a dureza da realidade ao direito ao delírio.

Do Cartão Verde, na Cultura, Trajano foi para a ESPN, onde manteve seu modo diferente de tudo e muitas vezes de todos na hora de compreender o universo da bola, que não se restringe a colocar réguas, trenas, compassos, estatísticas e numeralhas para explicar o sentimento que envolve uma bola passando por um retângulo.

Trajano tira o que há de mecânico e tecnicista do futebol. No Linha de Passe, da ESPN, também foi assim. E eu não perdia um programa, só para ver aquelas aberturas em que história, futebol, causos, política, lances, jogadas, golaços, polêmicas, opiniões, informações, tudo isso se misturava, porque, como bem sabe Trajano, para quem ama futebol ele está conectado com a vida e não em uma bolha à parte da sociedade.

Foram 22 anos para encontrá-lo pessoalmente, no lançamento do seu livro “Tijucamérica”, em São Paulo. Tenso, comprei um exemplar, fiquei na fila, com o passado inteiro voltando à minha mente. Também avistei o Juca Kfouri, outro mito.

Pensei em um milhão de frases para dizer ao grande Trajano, mas aquilo era muito surreal para um “menino” que saiu das divisas de Minas e estava diante de um dos seus ídolos.

Evidente que, no momento em que chegou a minha vez, não consegui pronunciar uma só palavra. Apenas fiquei ali, silente, observando-o autografar “Tijucamérica”, com o passado e o presente tabelando em minhas memórias.

Trajano não está mais na ESPN. Continuo assistindo ao “Linha de Passe”, porém, com um sentimento parecido de quando Raí deixou o São Paulo, de quando Sócrates deixou o Corinthians, de quando Neymar deixou o Santos, de quando Djalminha saiu do Palmeiras. (Pelé, Rivelino, Canhoteiro, Ademir são de outro mundo…).

Poderia dizer que Trajano faz falta. No entanto, quando o assunto é Trajano, sou obrigado a dizer que ele faz é golaço.

Salve Trajano, 70 anos.



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