Há mais Filosofia, Sociologia e Poesia no futebol que se possa imaginar



Em tempos de terra plana, a sociedade pende a bússola para o tecnicismo, direcionando a praticidade como única razão de ser das coisas. Com isso, temas como Filosofia, Sociologia e Poesia são relegadas ao fútil, desnecessário e ao inútil. Em meio a uma complexa e nada aleatória por esse construção do vazio encontra-se o futebol, que também replica e reverbera esse movimento que cultua o vácuo do pensamento, agora atingindo o nível da institucionalização.

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No imaginário da bola, Filosofia, Sociologia e Poesia, salvo raras exceções, abordadas de maneira jocosa, como objetos de piadas, memes ou instrumentos para a desqualificação do discurso do oponente.

Pensar a dinâmica da bola somente como algo tecnicista é como compreender o futebol somente pelo resultado estampado no placar. Esse pensamento da praticidade das coisas e dos seres também afeta o futebol, principalmente em tempos que se discute o jogo praticado, a filosofia dos técnicos, ética (fair play a exemplo, transparência nos contratos, etc), a decadência dos dribles, em que se questiona o destino do futebol brasileiro…

O mais estranho e paradoxal é que parte da imprensa esportiva, até de forma inconsciente, ao mesmo tempo em que zomba, insere as disciplinas nos debates sobre futebol.

Para desmitificar a idiotice de que Filosofia, Sociologia e Poesia não entram no campo do futebol, elencamos situações que essas disciplinas dialogam com a bola.

FILOSOFIA

É muito comum nos debates esportivos, ao tratarem sobre modo de pensar o futebol, referirem-se como “filosofia de jogo”. A disciplina, neste ponto, serve para sintetizar o estilo de compreender o futebol adotado pelo treinador. A partir daí que se estabelecem, dentre outros, os conceitos de reativo, ofensivo e até chegar à conciliação da ideia aplicada aos esquemas táticos.

Nesses tempos de cientificismo total, desde as metodologias de treinamento ao data-base nas análises matemáticas e estatísticas dos movimentos dos jogadores. Parte de um todo, o futebol divide-se em treinamento, esquema tático, concepção de jogo, fisiologia, medicina esportiva, economia, marketing, gestão, psicologia, entre outras ciências.

Diante dessa fragmentação ordenada, que convergem para a materialização da disputa em 90 minutos, como ignorar, a exemplo, obras como “O Discurso do Método”, escrito em 1637, século XVII, por Descartes, que abriu as portas para o conhecimento científico?

SOCIOLOGIA

A Sociologia, em linhas gerais, é a ciência que estuda o comportamento dos homens em sociedade e a maneira como se inter-relacionam. Mas, sendo o futebol um produto da vida em sociedade, não há com ignorar a aplicação da matéria nas análises futebolísticas.

As relações dos torcedores com seu clube, a paixão por um escudo, a violência nos estádios, os preços dos ingressos e seus impactos nos orçamentos familiares, a elitização das arenas, a homofobia nos estádios, o racismo, a xenofobia, etc. Tudo isso tabela com a Sociologia.

POESIA

Sendo o futebol um ambiente hostil, reflexo do homem em sociedade, este é o tema de maior motivo negação. Um dos equívocos do senso comum e até de parte da crônica esportiva é compreender a poesia como somente objetivo de uma sensibilidade frágil, não compatível com o desejo de ser superior, exterminar os adversários (tratados como inimigos).

O equivoco regado de preconceito estende-se a limitar que a poesia é somente sensibilidade afeminada. Quem diz isso, provavelmente, nunca lera a poesia marginal nos anos 70 em que questionava o sistema totalitário; nunca lera “Canto Geral”, de Neruda, sobre a América Latina; nunca lera Ferreira Gullar, só para alguns de inúmeros exemplos.

No entanto, por mais que não se aceite, fato é que existe mais poesia no futebol que possa imaginar nossa vã filosofia da bola.

O hino de um clube, construído em versos, cantados pelos torcedores nas arquibancadas, o que é, senão poesia? O arrebatamento diante de um mosaico construído por torcedores, com frases poéticas, expressando amor ao clube, o que é, senão poesia? Os cânticos das torcidas, quase sempre rimados, o que são, senão poesia?

Um dos principais elementos da poesia é a desconstrução do sentido literal para que, numa fusão de dois ou mais conceitos, estabelecermos um terceiro, de modo a expressar algo além do sentido, mas que se completamente de sentido. Isso, nada mais é que a metáfora, uma das principais matérias-primas da poesia e que está diariamente no universo do futebol. Quer ver?

Expressões metafóricas se alastram nas línguas dos narradores aos debatedores: “acertou onde a coruja dorme”, “rasga a defesa”, “quebrou a bola”, “entortou o adversário”, “chamou para dançar”, “joga a luva goleirão”, “balançou o capim no fundo da rede”, dentre tantas outras, é como se fizessem versos…

Como se vê, mesmo no mundo da bola (o “mesmo” é pelo preconceito arraigado) pratica-se Filosofia, Sociologia e Poesia diariamente em todo universo da bola.

A visão utilitarista que vem subindo de divisões no pensamento social interfere negativamente na compreensão do mundo e, também, do futebol, planificando o pensar.

A propósito, é sempre importante lembrar que o mundo em que vivemos é redondo, assim como o principal instrumento do futebol, porém, em pleno século XXI, não dá mais para tabelar com imbecilidades nem jogar com volantes brucutus, mais preocupados em desconstruir do que desenvolver a capacidade criativa da bola. Chega de relativismo, dentro e fora de campo.



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