Futebol reativo, o túmulo do futebol brasileiro



O futebol reativo é o novo establishment da bola no Brasil. A antiga retranca, sob um novo verbete, ganha ares de modernidade e encontra milhares de conceituações-vernizes para explicar e apascentar o torcedor, que olha para os jogos, e sente enjoos diante de um futebol pragmático, que privilegia o resultado.

+ Acompanhe o Crônicas no Morumbi no Facebook
+ Leia também os blogs do Lance: Gol de Canela | Papo de Boleiro

O futebol brasileiro, que se consolidou no mundo por meio de um jeito de jogar em que se predominava o domínio da bola, agora os técnicos preferem entregar a bola ao adversário.

Guardiola, o maior técnico da era moderna, já declarou em diversas entrevistas, que se inspirou no futebol praticado pelo Brasil entre os anos 50, 60 e 70, a partir dos relatos de seu pai. Visão que se complementou por si, ao se deparar com a Seleção Brasileira de 82.

O futebol brasileiro era o melhor porque dominava a bola, aplicando-lhe bons passes e invertendo a lógica com dribles.

No atual futebol praticado no Brasil, salvo raras exceções, a bola tornou-se penduricalho da disputa. A tática agora é entregar a posse de bola ao adversário à espreita de um contra-ataque que, basicamente, se constitui com dois velocistas pelas pontas. É uma forma de antigo-jogado.

O mesmo Guardiola, da escola de Michels e Cruyff, chegou ao ponto máximo da posse de bola com efetividade no comando do Barcelona, fazendo os adversários girarem como crianças em uma ciranda, transformando as partidas em meros “bobinhos oficiais”. Uma das sínteses foi a final do Mundial Interclubes, contra o Santos.

Depois desse Mundial Interclubes, em 2011, em que explicitou a fratura entre o futebol que se praticava na Europa e o melhor do Brasil, os times nacionais passaram a tentar imitar a questão da posse.

A tentativa de copiar o que já fora nosso encontra sua primeira barreira, pois se viu incongruente com a realidade dos jogadores que formam o futebol brasileiro.

Muito diferente dos nossos gramados, Guardiola contava com os melhores para desenvolver o seu estilo.

No Brasil, o futebol é praticado, em sua maioria, por aqueles que os mercados rejeitam. E com o aumento da exportação de pé-de-obra, com novos mercados contratando, como a China, Índia, Estados Unidos, Arábias, levando de aluvião os nossos talentos, cada vez mais novos, o futebol em nossa Terra de Vera Cruz precisou se reinventar.

Não podendo contar com os mais técnicos e habilidosos, recaiu-se no engodo do “futebol reativo”, como alternativa para manter a competitividade. Usaram, para apascentar as massas e não desprestigiar o produto campeonato, o Chelsea de Conte para amparar suas justificativas, escamoteando o verdadeiro sucateamento do nível técnico.

Uma coisa é contar com os melhores e optar pelo estilo reativo; outra, bem diferente, é ter que se submeter à retranca devido às limitações técnicas.

Depois dos 7 a 1, a crise de identidade acentuou. Não éramos mais o futebol da posse de bola, nem conseguíamos imitar as novas táticas da Europa. Resolveu-se, então, da pior maneira possível: com a expansão do futebol reativo, formado pelo contra-ataque, que preza a força física e abandona a bola.

Compreensível aos pequenos, por outro lado, os grandes clubes brasileiros entraram nessa onda reativa, que está contaminando a qualidade das partidas. São raros os momentos em que se presencia um jogo bem disputado, na bola, como se diz no popular.

Não se trata do saudosismo do futebol dos velhos tempos. Longe disso. No entanto, os técnicos precisam repensar o modo de jogar futebol no Brasil. Não que seja o momento para ideias mirabolantes, mas simplesmente compreender que é possível jogar bola e possuir um time que marque bem, que ocupe os espaços com organização, sem deixar de praticar o futebol.

A tragédia do Mineirão ainda reverbera nos gramados do Brasil. O trauma fez com que se buscasse respostas para um futebol a qual nunca praticamos. Aproveitar novas técnicas praticadas mundo afora é fundamental, mas não de forma como macacos tentando passar um cubo pelo espaço de um círculo.

Ainda que o futebol reativo se imponha pelas limitações, há também a questão de ter impregnado na mentalidade dos técnicos, que conhecem bem a realidade imediatista dos clubes brasileiros, em que três derrotas representam demissão.

Mas o bom futebol depende muito dos modelos propagados pelos técnicos, que estão deixando de lado as características que sempre nos diferenciaram. É necessário resistir contra o retrocesso reativo.

Renato Gaúcho, exceção à derrota para o River, é um dos poucos no Brasil que consegue montar equipes capazes de jogar bola, trocando passes, buscando o gol, mas de forma organizada, conciliando futebol ofensivo com a bola, mas com uma capacidade de se recompor, formando uma boa marcação, sem que se recaía no esquema reativo.

Há que se observar o mundo, absorver o que há de bom, respeitando nossas características. Eles (Europa) assim fizeram: copiaram o que tínhamos de melhor, e aprimoraram, enquanto nós, retraímos, ficamos reativos, copiando o que eles faziam no passado, e com o que havia de pior.



MaisRecentes

Nández e o senso de comprometimento no futebol



Continue Lendo

A Xepa do São Paulo em Chapecó



Continue Lendo

Final da Libertadores: partida deveria ser disputada na Argentina



Continue Lendo