Futebol brasileiro deixou-se enganar pelo cientificismo exagerado



A ciência dominou todos os setores do futebol. Com isso, nas quatro linhas, muito além dos jogadores e esquemas táticos, também entraram em campo fisiologistas, estatísticos, mapas de calor, treinos regenerativos, dentre outros métodos. Esse movimento do “futebol científico” é, sem dúvida, importante, no entanto, pouco questionam os limites da ciência – esquematizada pela lógica –  frente à capacidade do drible, da improvisação, elementos capazes de quebrar pranchetas táticas.

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Antes que se atirem pedras, reitero que a questão não é renegar a ciência como base da preparação física, técnica e tática, no entanto, a impressão que temos é que todas as soluções dentro de campo só se concentram na lógica, arremetendo o futebol brasileiro, como em um lateral cobrado à grande área, em um cientificismo que sufoca o que sempre tivemos de melhor, que poderia ser sintetizado no “dibre”, o que quebra da lógica.

O “futebol científico” atual não possui diferentes premissas das estabelecidas pelo corpo técnico da União Soviética, em 1958, quando se preparou cientificamente para enfrentar o Brasil na Copa do Mundo da Suécia. Segundo relatos da época, os soviéticos estavam preparados para correr 180 minutos, foram traçados cientificamente esquemas táticos para conter os jogadores brasileiros, ocultaram treinos, espiaram os adversários e traçaram catetos e hipotenusas sobre os gramados.

O problema é que do outro lado havia Pelé e Garrincha, com “dibres” desconcertantes, desorientando e embaralhando números, táticas e impondo o imponderável sobre a ciência. E o Brasil venceu.

Nestes tempos de “futebol moderno”, de muita flexão e pouca reflexão, em que se parece renegar o presente como uma sucessão, acúmulo e síntese de fatos do passados; às novas gerações, parece que o futebol foi inventado nos últimos há 10 anos.

Dias desses vi o Corinthians de Carille jogando em 4-2-4, um esquema tático com mais de 60 anos que, aos incautos modernos, era o que havia de mais “muderno”. Vira e mexe coloca-se em discussão jogar com três zagueiros (3-5-2), outro esquema antigo, dentre outros exemplos esquemas dos passado que trotam no campo do presente. E, ressalto, não há problema algum a confluência entre o antigo e o novo. Aliás, essa convergência é o ponto a ser debatido.

Mas a necessidade por estabelecer o conceito de “futebol moderno” dá-nos a impressão de quererem fundar uma nova ordem mundial, uma tentativa de apagar o passado e fundar um novo tempo, como se construindo um igreja sobre um templo; no caso, uma arena sobre um estádio, na vã tentativa de sobrepor crenças e conceitos.

Esse cientificismo chegou ao ponto de renomear os conceitos da bola. Agora, nessa era de extremos, é comum as mesas redondas proliferarem nomenclaturas como externos desequilibrantes, último terço, marcação alta, etc, como se fosse um novo futebol, sendo que, analisado e contextualizado, praticamente a maior parte não é novo, apenas uma nova roupagem.

Sob essa nova ordem, finta-se o “dibre”, talvez a mais relevante característica do futebol brasileiro, que vem sendo engolido pelo – sintetizemos assim – o cientificismo, a ponto de assistirmos na Copa da Rússia, o centroavante Gabriel Jesus, abdicar de gols em nome da marcação dos extremos (p*** nomenclatura chata). Para quem já viu Careca, Ronaldo e Romário, deparar-se com o centroavante tatiquês, além de empobrecer e matar o futebol, convenhamos, é um porre. Vide os jogos da Copa América…

O “futebol moderno”, em que muitas ciências convergem para o gramado, sem dúvida, são essenciais e é evidente que devam ser consideradas, mas no momento em que coloca a improvisação e o drible em uma pipeta de laboratório, estraga a fórmula espontânea do futebol brasileiro. O “dibre”, cada vez mais, perde espaço para as pranchetas, com isso, o jogo está cada vez mais truncado, modorrento, entediante.

Os precipitados dirão que estas linhas representam uma poesia que busca trazer o antigo futebol brasileiro para os tempos atuais. Quando analisado de forma ampla, é bem simples constatar que não se trata disso.

A ânsia pelo “dibre”, elemento dos primórdios do jogo, reforça esse pensamento. Por mais que se busque a compreensão total da partida por meio da lógica, todo apaixonado por futebol respira fundo quando vê um Cebolinha partir para o mano a mano contra o adversário. E de que forma? Com “dibre”. Digo Cebolinha porque é o que temos para hoje.

Se a capacidade criativa não fosse mais importante no futebol, jogadores como Messi, Ronaldinho Gaúcho, Cristiano Ronaldo, Neymar não seriam o que são. Aqueles capazes de romper a ciência no futebol são os diferenciados.

É ilusão pensar que a seleção brasileiro era um esquadrão de craques.  Existiam os “carregadores de piano”, como base para os fora de série colocaram sua ginga em campo. Nesse equilíbrio entre operários e poetas, a exemplo, Dunga e Mauro Silva eram pilares na Seleção para Romário e Bebeto. A partir disso, poderemos formatar diversos casos.

Fato é que somos carentes pelo improviso, esse termo que nos deu identidade no futebol, e que vem perdendo cada vez mais espaço para uma cientificismo que deve ser questionado por torcedores e a imprensa esportiva.

Todos os extremos produzem sofismas. Assim como o cientificismo total na bola é um erro, a total improvisação – em sentido amplo – também. O futebol em geral passa por um período de contradições, mas há que se buscar um equilíbrio, uma síntese entre a ciência, marcada pela lógica; e a capacidade criativa, marcada pela improvisação, que rompe esquemas táticos.

Essa mudança conceitual e estrutural sobre a abordagem do futebol é questão que começa na base, agora invadida por escolinhas com metodologias em que a tática vem se sobrepondo à técnica, com isso, o futebol brasileiro definha no cientificismo e, desta forma, iguala-se em relação ao que sempre se praticou no restante do mundo.

Por burrice, modismo ou reprodução sem reflexão, deixamos o que temos de diferencial, assim germinaram em nossos gramados o tal futebol reativo, o jogador somente tático entre outras aberrações, considerando o que sempre fomos para o mundo do futebol.



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