Futebol brasileiro: colonial, monárquico, ditatorial ou democrático?



Em 7 de setembro de 1822, Dom Pedro I foi às margens do Ipiranga e declarou a Independência do Brasil em relação à condição colonial imposta pela Coroa Portuguesa. Passados 195 anos, a pergunta que ecoa do grito do Ipiranga é: se não é mais colônia, então, qual o regime vigente?

A análise pode ser compreendida a partir da estrutura do futebol brasileiro, onde os clubes são nações dentro do país e reproduzem o modus operandi da manutenção do poder.

Consolidada a separação de Portugal, o Brasil deixou de ser colônia e constituiu um poder imperial. Com isso, a condição monárquica determinou uma linhagem, com direito à sucessão sanguínea, perdurando esse regime até 1889, quando se verticalizou a República, que de fato só “acabou” com os títulos de nobreza, porém, manteve uma elite no poder.

As transformações são alicerçadas em conceitos democráticos, mas o povo só participa de maneira figurativa nas decisões e sempre está à margem dos acontecimentos e das decisões.

Sendo plástico o poder, moldando-se conforme os acontecimentos, geralmente no sentido de preservar privilégios, assim como acontece na formação do país, nos clubes de futebol, que também são estruturas políticas e verdadeiras nações, que congregam milhões, refletem os regimes implantados na sociedade. Mas, no futebol, os regimes não são únicos, formavam-se em um amálgama de conceitos que conciliam vários sistemas e um só.

No campo da teoria, tudo é democracia. No entanto, há tantos entraves, vírgulas, regulamentos, carimbos, parágrafos, incisos e alíneas que, no futebol, para um torcedor-comum participar desse processo teoricamente democrático dos clubes, chega-se à conclusão a essa “democracia” só existe nas palavras dos estatutos. Na prática, é utopia.

Para ilustrar a condição monárquica dos dirigentes, basta fazer um recorte histórico, nas últimas três décadas, relacionando os nomes das diretorias dos principais clubes de futebol do Brasil para demonstrar que, apesar de não existir sucessão sanguínea, há uma circularidade dos mesmos personagens, que se alternam no poder, constituindo uma monarquia branca, velada.

Como apontado, o futebol, no Brasil, ainda que seja um produto da sociedade, configura-se como uma estrutura à parte do sistema. Complexo, a estrutura do futebol consegue conciliar vários regimes em um só sistema.

É colonial, no momento em que vende seus jovens craques para o exterior, exportando matéria-prima, assim como os portugueses faziam com o ouro, o pau-brasil, entre outras preciosidades. Também repete o ciclo dependente, quando repatria seu jogadores, a preços exorbitantes, no mesmo movimento das matérias-primas que retornam ao mercado brasileiro manufaturadas.

Monárquico quanto à administração, pois os estatutos são tão fechados, que dificilmente um torcedor-comum, antiga plebe, conseguirá vir a ocupar um cargo na instituição. A possibilidade até existe, o que reveste o conceito democrático, no entanto, é praticamente impossível.

O futebol revela-se ditatorial quando os estatutos são subvertidos, com dirigentes criando mandatos adicionais, impondo novas regras à sucessão, de modo que se perpetuem no poder os mesmos atores sociais.

Por fim, somente é democrático nos discursos dos dirigentes em períodos eleitorais, em um exercício complexo e contraditório em si mesmo, em uma dialética difusa, uma vez que a maioria das instituições de futebol decidem seus governantes por meio de eleição indireta, constituída por seus conselheiros. Nestes casos, a torcida, representação do povo nas estruturas de futebol, nem figurativa é.

Tanto na formação do país quanto na estrutura de poder dos clubes de futebol, fato é que o povo continua à margem do riacho do sistema, como se olhando as águas do Ipiranga passando pelo tempo de seus vidas, assistindo bestializado a dinâmica dos acontecimentos.



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