Fla-Flu: o futebol nos tempos dos estatutos



Quem ousou, um dia, imaginar que a discussão sobre um Fla-Flu seria sobre uma questão de moradia?

Quem ousou, um dia, imaginar que a discussão sobre um Fla-Flu seria sobre uma questão de moradia?

Não bastasse o que fizeram com o nosso futebol, construindo estádios na Copa do Mundo, em lugares onde não existia futebol, determinação de torcida única, o Maracanã sendo arrancado do povo, entre outros absurdos, agora estão substituindo a paixão dos torcedores por regulamentos, liminares, estatutos e regimentos.

O que está acontecendo sobre a (in)definição do estádio para realizar a partida entre Flamengo e Fluminense é algo que nem o escritor Franz Kafka conseguiria imaginar para Josef K., personagem do romance “O Processo”, que é processado por um crime que não se especifica nunca.

Nesses tempos em que nos vemos obrigados a discutir o óbvio, é importante lembrar que Fla-Flu é, sem dúvida, o maior clássico do Brasil, que transcende as divisas estaduais e sintetiza toda a catarse do torcedor frente a um jogo de futebol, seja esse torcedor de qualquer clube. Fla-Flu é uma espécie de patrimônio do imaginário coletivo de quem ama o futebol.

Enquanto os cartolas insistem na burocratização para resolver questões relativamente simples, do outro lado da tabela, nesse campeonato da vida, encontra-se o torcedor, que se lasca para pagar impostos, preocupa-se com as contas de águas e luz, que luta por condições dignas de vida, que tenta dar educação para seus filhos, e não está nem um pouco preocupado com artigos, incisos, liminares, regulamentos.

O torcedor, da massa, que xinga tudo na hora do jogo, que pula, que grita, que extravasa tudo o que o mundo lhe dá – e o que não dá também – só quer o direito ao delírio. Na verdade, além de não se importar com esta instância estatutária do futebol, em sua maioria nem entende. E nem quer.

A vida já é muito cheia de regras para quem acorda às 4 da manhã, pega trem, metrô, lotação e leva duas horas para chegar ao trabalho. A vida já é complicada demais e não cabe aos cartolas se agarrarem em regras, normas e estatutos para acabar com uma das poucas diversões que o pobre povo brasileiro possui.

Se insistirem nessa burocratização desmedida, que ultrapassa os limites, mais um pouco deixaremos de falar de futebol para cobrirmos audiência e reuniões em federações, incorporaremos um novo personagem nas “mesas-redondas”: o advogado especialista em direito esportivo para explicar todas as nomenclaturas dos estatutos.

Enquanto os cartolas transferem as discussões do campo para os escritórios, ficamos nós, os torcedores Josef K., à espera de uma definição que não chega nunca à uma conclusão.



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