Ferreira Gullar, poesia e futebol



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Morreu o maranhense Ferreira Gullar, um dos maiores poetas da literatura brasileira, membro da Academia Brasileira de Letras. E, você, leitor, deve estar se perguntando: – mas o que tem a ver a vida de um poeta com o mundo de futebol? Tudo, porque ninguém explica o homem e sua paixão por um time de futebol se não for pela poesia.

Diriam alguns que poesia é coisa de sentimentalistas, de sonhadores, que não tem conexão com a realidade. Ledo engano, porque a literatura mergulha na realidade, reinventa-a, para que se possa aproximar daquilo que se sente e não tem como converter em palavras: como a emoção de um gol do seu time na final do campeonato.

Ainda assim, por desconhecimento ou consequência de um sistema educacional em que se retiram cada vez mais os “lados Humanas”, há muita resistência para a poesia, para o pensamento. Agora tudo é o futebol força.

No futebol, então, tratam-na como algo inaceitável, colocam-na para escanteio. Outros fazem questão de nem ao menos deixá-la no banco de reservas. Outros, machistas, que é coisa de maricas.

No entanto, mesmo inserida em ambiente machista e preconceituoso, em que muitas vezes apenas se busca o texto registro de ata, o que mais tem no futebol é poesia.

Jornalistas lidam com palavras, matéria-prima da poesia e da literatura, para redigir seus textos. Quando se narra uma virada épica, um golaço, o delírio da torcida. Em tudo isso há poesia. Fazem poesia sem saber, mesmo negando-a.

Como não falar que é poesia o momento em que precisamos reinventar o significado das palavras para descrever movimentos inventados com os corpos, como “gol de bicicleta”, carretilha, chapéu, onde a coruja dorme, pedalada, dentre tantas outras figuras de linguagem da bola.

Jovem, Gullar, torcedor do Sampaio Correa, jogou ao lado de Canhoteiro, poeta da bola. Ao chegar ao Rio adotou o Vasco como clube de coração. E que o vascaíno Gullar me conceda a licença poética para falar de futebol e poesia pelos passos do botafoguense Garrincha.

Poesia não se limita às palavras e ao infinito da folha em branco. Nos gramados, Garrincha, maior poeta da bola, fazia poemas com pernas tortas. Com seus dribles, desafiando a letra escrita, Garrincha não utilizava sulfites, escrevia nas retinas de todos os torcedores.

Poesia trata das coisas simples, cotidianas, do homem do comum. Como já disse Gullar sobre a matéria da poesia: “A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz”.

 



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