Fernando Casal de Rey: “Contratei Cerezo para o SPFC comendo pastel com Telê Santana”



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Fernando Casal de Rey é, sobretudo, um apaixonado pelo São Paulo. Entre 1990 e 1994, integrou a equipe do presidente José Eduardo Pimenta, quando o Tricolor Paulista conquistou impressionantes 23 títulos em quatro anos, sendo duas Libertadores, dois Mundiais e uma Supercopa, torneio duríssimo, que reunia os clubes campeões das Américas. De Rey sucedeu José Eduardo Pimenta, tornando-se presidente do São Paulo de 1994 a 1998, período que concentrou os esforços para modernizar o estádio do Morumbi.

Os diretores Fernando Casal de Rey e Khalef João Francisco

Os diretores Fernando Casal de Rey e Khalef João Francisco

Sua relação com o clube começou bem antes, nos anos 70, quando, ao retornar de uma partida, os diretores Manoel Poço e Hermann Koestes, pediram para que ele desse uma carona a ninguém menos que Gerson, o Canhotinha de Ouro, que tem trauma de viajar de avião, e Pablo Forlán. A partir desta experiência, passou a ter mais contato com os jogadores e a compreender melhor a relação entre o atleta e o ser humano.

Mas foi na década de 80 que De Rey teve a sua primeira experiência com cargo na estrutura do São Paulo. Convidado por Jaime Franco tornou-se diretor adjunto, ciclo em que o Tricolor conquistou os dois campeonatos paulistas (80/81) e um vice-campeonato brasileiro (81).

Nos anos 90, o Tricolor passava por um momento muito conturbado financeiramente, dentro de campo e na formação de um elenco competitivo. A grande virada aconteceu quando José Eduardo Pimenta assumiu a presidência e, com o apoio de grandes diretores, como De Rey, assumiu o clube e com uma gestão responsável e, ao mesmo tempo, ousada, conseguiram recolocar o São Paulo no caminho das vitórias até conquistar o mundo.

Nesta entrevista, resultado de quase uma hora de conversa, que bem poderia ter sido um dia todo, Fernando Casal de Rey falou sobre como foi assumir um clube em colapso, os primeiros passos para equilibrar as finanças do clube, a formação da equipe vencedora e sua relação com Telê Santana.

Confira, a seguir, a primeira parte de três capítulos, de entrevista repleta de histórias extraordinárias dos bastidores, narradas por quem vivenciou a época de ouro na história do São Paulo, quando o clube do Morumbi venceu 23 títulos em quatro anos.

Em 1990, José Eduardo Pimenta assumiu a presidência do São Paulo, e você foi um dos diretores que se depararam com um clube à beira da falência, mas que conseguiram reverter a situação e levar o clube a conquistar 23 títulos em um período de quatro anos, dentre eles, duas Libertadores e dois Mundiais. Qual a receita?

De Rey – Formávamos uma equipe muito coesa na diretoria, composta por tricolores como Hermann Koester, Márcio Aranha, José Dias, Kalef João Francisco, Ademir Scarpin e Jorge Magalhães.

Conjuntamente, fizemos um levantamento de todos os problemas do São Paulo. Nesse processo constatamos que havia um grande problema na correção salarial dos jogadores, pois, à época, a inflação chegava a 80% ao mês, enquanto o clube só corrigia 10% do salário, criando assim, uma defasagem muito grande.

Com essa diferença, salários completamente defasados, os jogadores estavam saindo do São Paulo para jogar em clubes menores em busca de ganhar mais. Então, diante desse descompasso, indexamos os salários à ORTN (Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional) e estancamos o problema.

Para ter uma noção do impacto negativo dessa defasagem salarial, o zagueiro Antônio Carlos estava prestes a abandonar o futebol para voltar a Goiás e trabalhar na lavoura com o pai. Outro caso é o do Cafu, ainda garoto, mas devido ao contrato firmado, sem a devida correção frente à corrosão da inflação, chegou a ganhar o equivalente a 60 dólares por mês.

Foram meses para atualizar todos os contratos e, desta forma, segurarmos os jogadores no São Paulo. Um trabalho duro, essencial para a formação de um elenco. Com os salários ajustados e em um ambiente de estabilidade, os jogadores começaram a corresponder melhor em campo.

O equilíbrio das finanças do clube gerou resultados positivos como a renovação de Ricardo Rocha e também sair ao mercado, de forma pontual, em busca de novos atletas. Com essa política conseguimos trazer grandes jogadores como Zetti, Leonardo, Palhinha, Juninho Paulistas, dentre outros.

Por outro lado, o desafio era também recuperar alguns jogadores que já estavam no elenco, caso de Raí, que se tornou craque nas mãos de Telê.

Há que se ressaltar que o futebol, naquele tempo, não movimentava todo o montante de dinheiro dos dias atuais. Só havia a arrecadação com o que vinha da arquibancada, com a venda dos ingressos. Não existiam as verbas dos contratos de televisão. Ou seja, precisávamos formar um time mais competitivo, para que os resultados levassem o torcedor ao estádio e, consequentemente, ampliássemos nossa arrecadação. O que era um desafio enorme.

Como foi equilibrar pouca arrecadação para investimentos versus a necessidade de formação de um elenco competitivo?

De Rey – Com poucos recursos e o clube se reestruturando, não poderíamos errar nas contratações. Um caso bem sucedido de contratações que contemplavam a relação custo x benefício aconteceu com o Zetti.

O São Paulo não possuía um reserva para o Gilmar Rinaldi, que era muito bom goleiro. Ficamos sabendo sobre o Zetti, que tinha quebrado a perna em uma partida contra o Flamengo, em 1988, no Maracanã, devido ao longo processo de recuperação, perdera a posição para Velloso e negociava sua saída do Palmeiras.

Diante disso, fizemos um acordo com Zetti, para que concluísse seu tratamento no São Paulo e, posteriormente, integrasse o elenco tricolor. Quando voltou ao campo, já como reserva de Gilmar e destacando nos treinamentos, quando Gilmar deu brecha, devido a uma contusão, o Zetti entrou e foi tão bem, que não tinha mais como tirá-lo do time. A partir daí todo são-paulino sabe da história deste que foi um dos maiores goleiros da história do clube.

Também repatriamos Muller, em 1991, depois de passar três temporadas jogando pelo Torino, da Itália. Muller, além de contribuir dentro de campo, pelo craque que é, também ajudou na renovação com o zagueiro Ricardo Rocha, que estava sem contrato, em Recife, não muito disposto a voltar.

Com um trabalho descentralizado, sempre realizado em equipe, além de montarmos a equipe inicial, em 1990, ao longo do tempo seguimos reforçando o elenco. Nesse movimento, dentre outros atletas, trouxemos Juninho Paulista, que estava no Ituano; Palhinha e Ronaldo Luiz, indicações de Telê, que teve a participação direta do diretor Kalef para efetivar as contratações.

Qual jogador importante indicado por você?

De Rey – O Leonardo chegou ao São Paulo graças à observação minha, do diretor Marcio Aranha e anuência de Telê Santana. Quero ressaltar que Leonardo foi um dos maiores atletas que vestiu a camisa tricolor, em todos os sentidos: como jogador e como cidadão. Um atleta muito inteligente, que ajudava a diretoria a administrar.

Quando a diretoria precisava compreender alguma coisa que estava acontecendo com o time, Leonardo tinha uma visão muito lúcida, que compreendia desde a defesa dos jogadores até a cobrança da diretoria. Naquela época ele já demonstrava ser o que se tornou hoje, um grande gestor do futebol.

E a chegada do Telê ao Morumbi?

De Rey – Antes, quero registrar empenho e o comprometimento de Pablo Forlán, que assumiu o comando técnico do São Paulo na fase inicial do nosso trabalho, momento em que não tínhamos recursos, estávamos ajustando o clube e não tínhamos condições de investir na formação da equipe. Forlán foi muito importante nesse período de transição até a chegada de Telê Santana, que chegou em uma segunda etapa, quando o São Paulo já estava melhor estruturado.

Você estabeleceu uma relação muito forte com Telê. Até que ponto essa relação ajudou na formação do time do São Paulo?

De Rey – Além de ser um técnico espetacular, Telê nos ajudou muito nesse processo de formação do elenco. Contarei dois casos de jogadores que chegaram sob este contexto.

Ao final do treino, quando todos já tinham deixado o CT, eu e o Telê ficávamos conversando sobre futebol, assistindo vídeos do Barcelona, do Milan, entre outras partidas de clubes da América do Sul. Telê era um aficionado e falava o tempo todo sobre futebol.

Em uma desses bate-papos, já no início da noite, entre conversas, uma cerveja e pastéis, que o Telê gostava demais, perguntei a ele se estava contente com o time. O Mestre respondeu que faltava alguma coisa, um atleta que proporcionasse maior dinâmica entre os setores, que fizesse rodar mais o time, alguém como o Toninho Cerezo.

Diante disso, perguntei: – como está o Toninho Cerezo? Telê relatou que Cerezo estava com um problema no joelho, tinha parado de jogar na Sampdoria e que o clube italiano havia prometido colocá-lo como treinador da base, no entanto, o dispensou.

Então, falei: – Por que a gente não liga agora para o Cerezo? E assim fizemos.

cerezo5Ao telefone, o Mestre com o craque: – Estou aqui com o Dr. Fernando, e ele está com uma ideia, de que talvez você possa voltar a jogar futebol pelo São Paulo. Cerezo respondeu: – Eu estou fora do futebol, meu tempo já foi, estou com problemas no joelho…

Em contrapartida, falei ao Cerezo que não pensávamos desta maneira. Então, propus para ele vir se tratar no São Paulo, já que não queria operar, e independente de qualquer coisa, poderia fazer o tratamento, depois integrar os treinos e, por fim, se transcorresse tudo bem, sentaríamos para conversar.

Cerezo respondeu: – Se vocês insistem, tudo bem, mas para mim você e o Telê estão loucos. E, a outra parte da história, conhecida por todos, foi o Cerezo em campo, campeão do Mundo com o São Paulo, sendo eleito o melhor jogador da final do mundial.

O outro jogador foi o zagueiro Válber, que também veio para o São Paulo em uma dessas conversas noturnas, quando eu ficava com o Telê Santana até nove, dez horas da noite, no Centro de Treinamento.

Abrindo um parênteses, vale lembrar o Mestre, mesmo com a diretoria oferecendo moradia, ele preferia morar no CT. Ele dizia: – Aqui é uma maravilha, não preciso pegar trânsito, a cozinheira faz tudo o que eu peço, tá tudo aqui, então não tem porque sair daqui. A simplicidade de Telê, para mim, era uma de suas maiores qualidades.

Voltando à contratação do Válber, o São Paulo praticamente só tinha o Adilson, pois o Antônio Carlos tinha saído para o Albacete, da Espanha. Nessas conversas, o Telê virou para mim e disse que no Botafogo do Rio tinha um jogador muito bom, mas que era temperamental.

Perguntei: – Mas joga bem? Telê respondeu que sim. E para o Mestre, que era muito exigente, falar que alguém era ótimo, você poderia apostar que era.

Sinceramente, neste caso, não conhecia o Válber, mas, considerando a indicação com o Telê, fui atrás. Liguei para o presidente do Botafogo, Emil Pinheiro, dizendo que o São Paulo gostaria de contratar o Válber por empréstimo. Emil respondeu que não o emprestaria, mas o venderia.

Argumentei que o São Paulo, que ainda estava se estruturando, gostaria de contar com o jogador por empréstimo, pois haveria uma excursão para a Europa e, transcorrendo tudo certo, nós o contrataríamos.

Emil novamente disse que por empréstimo Válber não sairia do Botafogo, porém, parcelaria o pagamento para facilitar a transferência. E assim o contratamos. E Válber foi outro que se tornou gigante na história do São Paulo.

***

Fim da primeira parte. A entrevista será publica em três capítulos.  



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