ENTREVISTA | Sérgio Baresi: “Somente copiar os sistemas da Europa inibe nossos talentos natos”



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Baresi emergiu para o futebol no São Paulo, na década de 90, no time júnior, que venceu a Copinha, batendo o Corinthians na final. Time que contava também com Rogério Ceni e depois veio a ser a base do “Expressinho Tricolor”. 

Versátil, atuou nos gramados como zagueiro e como volante. Depois de jogar por diversos clubes brasileiros, no Chile, na Coreia e na Bélgica, viu-se obrigado a encurtar a carreira de jogador devido à uma contusão. 

Cabeça-pensante, migrou para a formação de treinador. Começou sua carreira de técnico antes do desastre dos 7 a 1 na final da Copa do Mundo, desenvolveu o ótimo trabalho nas bases e chegou a comandar a equipe principal do São Paulo.

Baresi, em permanente atualização, ainda representa uma nova gerações de treinadores, que tenta subverter positivamente os velhos dogmas arraigados nas pranchetas do futebol brasileiros.

Nesta entrevista concedida ao “blog Crônicas do Morumbi”, Baresi fala sobre a nova ordem mundial do futebol, que agora não depende dos talentos individuais, sobre a dificuldade de se aceitarem novas ideias no mundo da bola, aponta caminhos para a formação e geração de novos treinadores e coloca uma questão muito importante para a discussão: ao mesmo tempo que é fundamental o estudo sobre os conceitos “modernos” do futebol, os técnicos brasileiros não podem deixar com que os esquemas táticos da Europa inibam o desenvolvimento de nossos talentos natos”. 

Confira.

Pela estrutura tática, o Barcelona de Guardiola determinou o conceito de futebol moderno. Para você, que é um estudioso do futebol, o que difere o “futebol moderno” do praticado nos anos 80 e 90?

Baresi – Pra te responder está pergunta temos que voltar um pouco no tempo. Penso que os holandeses determinaram o conceito técnico/tático e comportamental do futebol  moderno.

Nos últimos 30 anos o que vimos foram as variáveis do sistema de jogo/plataforma (1.4.4.2 – 1.4.3.3 e variáveis 1.4.1.4.1).

As variações do futebol moderno são, de certa forma, notas de rodapé da Holanda de 74, de Rinus Michels

As variações do futebol moderno são, de certa forma, notas de rodapé da Holanda de 74, de Rinus Michels

O futebol praticado pelo Barcelona, aprendido por Guardiola e executado na melhor safra do futebol espanhol, fez com que a tendência do futebol bonito/ objetivo, fosse estudado e planejado cada vez mais por muitas equipes pelo mundo influenciando o futebol mundial.

Rinus Michels, o grande cérebro seguido pelo maestro indomável Cruyff; por Van Gaal, a exigência em excelência em todos os movimentos; e Frank Rijkaard, a classe combinada com um poder de visão fenomenal.

Vale lembrar que no mundial de 74 a Holanda encantou o mundo eliminando inclusive o Brasil.

Nos anos 80 e 90 tínhamos equipes organizadas taticamente e tecnicamente voltados para o aspecto individual, fazendo a diferença. (Jogadores brasileiros se destacando individualmente por todas as partes do mundo).

Hoje temos jogadores que podem decidir uma partida, porém, a estrutura de jogo é pautada no coletivo. Ou seja, não adianta ter um jogador tecnicamente superior se a plataforma não ser voltada para o coletivo.

Exemplo: com Dunga e Felipão, a seleção tinha uma dependência enorme de Neymar, e esta dependência vem diminuindo cada vez mais no sistema de jogo implantado por Tite, sem tirar o poder decisivo de Neymar.

Você realizou um grande trabalho na base do São Paulo. A partir de sua experiência, por que o futebol brasileiro não revela mais tantos craques, principalmente camisas 10 e centroavantes?

Baresi – Realmente estamos passando por esta carência. Os clubes estão passando por uma transformação no futebol de base em suas metodologias. E, quando estas adaptações e transformações avançarem voltaremos a produzir bons 09 e 10. Analisemos alguns detalhes fundamentais.

a) Os olhos voltados para o perfil/características são fundamentais para que a seleção destes atletas sejam feitas na capitação destes clubes. Vale lembrar que está capitação na maioria das vezes é realizada no sub13 onde o jogador está se encontrando em campo, se conhecendo, se descobrindo, etc.

b) Sistema de jogo copiando a Europa, isso muitas vezes inibe a criação/talento que vem de berço (futebol de rua).

c) Muitos dos nossos profissionais acabam cortando este potencial que é “nato”. Corta o drible, corta o improviso, corta a versatilidade do jogador, corta isso, corta aquilo.

Talvez estas questões têm contribuindo durante o tempo para a diminuição destes camisas 9 e principalmente o 10.

Lembro-me da frase de Cruyff “Qualidade sem resultado é inútil. E resultado sem qualidade é entediante”.

Os 7 a 1 da Alemanha também colocaram interrogações sobre o nível técnico dos treinadores brasileiros. O Brasil está realmente defasado em relação à Europa? 

Baresi – Não diria defasado, mas, atrasado. Principalmente no aspecto organizacional de metodologias. Os 7×1 foram sofrido demais e nos deu uma sacudida. No exterior, muitos clubes/treinadores têm uma metodologia de trabalho implantada e sobre tudo arraigada e identificada com o clube nos aspectos técnicos/táticos e comportamentais.

Estive por três meses acompanhando o trabalho no Milan e Roma, e também agora no segundo semestre aqui nos USA acompanhando treinamentos/ jogos. Pude ver de perto como os treinadores buscam o conhecimento se qualificando profissionalmente, por meio de cursos específicos, via suas federações, que incentivam seus funcionários/técnicos a buscarem conhecimento e aprendizado. Cursos licença A e B são exigidos para os treinadores atuarem nos seus clubes e apoiada pelos seus dirigentes que incentivam está capacitação profissional.

Aqui, no Brasil, estamos começando. Recentemente, pude fazer o curso licença da CBF e muitos outros companheiros também. Porém, alguns amigos não conseguiram devido ao valor, outros não foram liberados por seus clubes devido a disputa de competições etc.

Outros não conseguiram devido estar trabalhando e as datas não permitirem. Eu recomendo porque o curso é muito qualitativo e os profissionais que ministram o curso todos muito competentes.

Importante frisar que as mudanças já começam no processo de transição dos técnicos aqui no Brasil. Ou seja, os novos naturalmente substituíram os mais experientes, processo natural da vida e a importância de estar preparado será fundamental.

Tenho certeza que em breve a CBF vai equacionar e promover o acesso a todos para esta corrente de capacitação profissional do treinador de futebol.

Questionados e em má fase, muitos técnicos recorrem a um intercâmbio na Europa em busca de uma reciclagem. Até que ponto essa experiência realmente agrega ou tornou-se modismo, um verniz para tentar um novo contrato no Brasil?

Baresi – Bem, quando falamos em viajar para a Europa e estudar, penso que deva ser  muito maior que o fato de se empregar em algum clube brasileiro em seu retorno.

Vejo que o propósito de estudar na Europa seja a realização dos cursos da UEFA, seja licença A, B ou C. Uma das diferenças que encontrei lá fora é que todos os treinadores possuem estes certificados em seus currículos. O estudo faz parte do processo de formação do treinador de  futebol.

Não acredito que qualquer treinador brasileiro vá a Europa em um período curto e consiga observar, assimilar e aprender todos os conteúdos em pouca tempo de estadia. 

Parece que a solução do Brasil pós-7 a 1 está em compreender as táticas praticadas na Europa, mas os técnicos brasileiros não tem nada a ensinar também? 

Baresi – Entender de tática europeia é apenas mais um requisito de um bom treinador que ambiciona alcançar algo maior. Saber analisar/compreender performances técnica/tática de sua equipe e saber entender a atmosfera e bastidores que envolvem o futebol também é um diferencial.

Eu acredito muito no potencial do técnico brasileiro em muitos aspectos. Temos muitas coisas que os livros não ensinam e acredito que a nova geração de treinadores brasileiros conseguirá conciliar a experiência acumulada durante muitos anos na prática com os estudos científicos com a exigência do futebol moderno.

Diniz merece uma chance pelo que conseguiu criar com o modesto Audax

Diniz quebrou paradigmas com o formação do modesto Audax, no entanto, não encontra espaço em uma time grande. Falta ousadia para que os dirigentes busquem algo novo?

Fernando Diniz pegou um time pequeno, o Audax, e conduziu-o ao vice-campeonato paulista, dando vareios em grandes clubes e praticando um bonito futebol. Mesmo realizando um grande trabalho, não recebeu oportunidades em um grande clube. Como explicar a situação de ganhar, inovar, mas não ter chances?

Porque aqui ainda não se aceita o novo. “O difícil não é implementar novas ideias na cabeça das pessoas, mas sim, retirar as antigas” (Lipp). Fernando Diniz deu um show a parte, ousou e inovou, certamente ele terá sua chance em uma grande equipe no Brasil .

Você pretende a voltar ao futebol brasileiro para comandar um clube?

Fiquei praticamente três anos fora do país, trabalhando e estudando, agora penso em retornar ao Brasil, estou pronto para assumir uma equipe profissional me preparei durante anos certamente está oportunidade irá aparecer.

 



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