ENTREVISTA | Andreas Kisser, do Sepultura: “O São Paulo tem de ressurgir dos escombros”



Kisser: "O São Paulo precisa deixar o ego de lado e todos se unirem pelo melhor ao clube, ainda mais neste momento complicado"

Você pode até não gostar de Metal, mas, com certeza, em algum momento da sua vida, já ouviu falar do Sepultura, a banda brasileira com maior repercussão internacional. 

No Brasil, o Sepultura quebrou paradigmas ao alcançar os ouvidos de pessoas quem nunca se interessaram pelo gênero, a ponto de serem citados por Renato Russo, então líder da Legião Urbana, durante a gravação do Acústico da banda de Brasília. Grande demais, ganhou o mundo. Revolucionou as bases do mundo metal, introduzindo elementos que o gênero não assimilava como um maior peso e participação da percussão, fundiu os acordes das guitarras com traços de brasilidade, com elementos de outros culturas, ampliando os ângulos musicais. 

Há 32 anos na estrada e com novo álbum a ser lançado em janeiro de 2017, de geração em geração, segue firme influenciando corações e mentes no Brasil e mundo afora. 

E foi numa tabelinha entre futebol e metal que Andreas Kisser, guitarrista, líder do Sepultura e fanático Tricolor falou com o blog  “Crônicas do Morumbi” sobre a atual situação do São Paulo. 

Making com a prévia do novo álbum do Sepultura que sairá em janeiro de 2017

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Em 2013, o Sepultura lançou o álbum “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart”, nome retirado de um diálogo do filme “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang, que projetava uma sociedade futurista, mostrando a relação das camadas sociais, entre exploradores e explorados, de seres humanos contra o tecnicismo, contra a robotização da vida. Tabelando com o conceito do filme (a frase) e o mundo da bola: o futebol moderno, mais mecânico, de força em relação ao passado, e com grandes disparidades econômicas, também reflete uma mecanização da sociedade? Como você analisa o futebol no Brasil e no mundo?

the_mediatorKisser – A conexão que você fez com o “Mediator” tem tudo a ver, pois, de forma profética na divisão do Jardim do Éden, na forma “meio-zumbi” que a galera vai para o trabalho, fazendo as coisas não por amor, por vocação, mas com a obrigação de pagar conta, fato que transforma o ser humano em escravo de um sistema, sentindo e agindo como robôs, simplesmente processando informações, sem contestar, sem questionar, nem perguntar o porquê das coisas.

No futebol, salvo raríssimas exceções como Rogério Ceni, que ficou 25 anos no Tricolor, o “amor pela camisa” praticamente acabou. O Denis pode vir a ser um cara assim. Um cara que esperou sete anos, até Ceni se aposentar, e que tá enfrentando uma bucha gigantesca, uma pressão inacreditável e está fazendo um excelente trabalho. Penso que a confiança que o clube passou para o Denis é uma das poucas coisas positivas que aconteceram nos últimos tempos.

Inserido nesse contexto moderno, o futebol, infelizmente ficou meio chato. Agora, no sentido contrário do prazer, joga-se apenas e somente pelos três pontos. Eu que acompanho futebol já vimos muitos zero a zero fantásticos, em disputando de times que partiam para cima, com grandes formações, buscando o jogar bola.

Apesar dessa robotização, como eu curto e sou fanático, ainda acredito na arte do futebol, sendo essa é a razão pela qual não me afastei totalmente.

O São Paulo não está bem no Brasileirão, em meio a um ano com turbulência política, afastamento de presidente, saídas de jogadores, troca de treinadores. Como você analisa o “Chaos AD” que atravessa o Tricolor?

chaosKisser – Nunca imaginei ver o São Paulo nessa situação complicada, pois o clube sempre foi um exemplo de organização, democracia, onde era possível coexistirem, de forma respeitosa, oposição e situação, nunca deixavando que as diferenças interferissem no trabalho que seria melhor para a instituição num todo.

A postura diferenciada do São Paulo fez com que o clube alcançasse posições fantásticas como o tricampeonato mundial, hexa brasileiro, tricampeonato da Libertadores, a criação do CFA de Cotia, o CT da Barra Funda, entre tantas inovações. Vimos grandes jogadores saírem do São Paulo para o mundo e agora tá tudo muito difícil, uma coisa inimaginável para qualquer são-paulino.

Por outro lado, o São Paulo é de certa forma um “clube jovem” e está atravessando uma crise de idade. Comparado aos nossos rivais paulistas é um time mais novo. Os nossos rivais já passaram por situações semelhantes, ficaram mais de 20 anos sem ganhar títulos, com dinastias no comando dos clubes e muitas das soluções foram inspiradas no São Paulo.

Agora é o São Paulo que atravessa por uma turbulência, mas, o clube vai contornar essa situação, então será o momento para repensar várias atitudes que acontecem dentro e fora da instituição. É necessário encontrar o ponto de equilíbrio para promover a profissionalização e, ao mesmo tempo, não fazer com que se perca de vez o “amor à camisa”.

O importante agora é não cair para a segunda divisão e começar 2017 com mais atitude.

Relacionando um álbum com a situação do Tricolor, o título “Arise” refere-se à surgir, reerguer-se, então, quais os caminhos para o SPFC se levantar?

ariseKisser – Difícil falar de um caminho para o São Paulo se reerguer. O mais importante neste momento é união.

Um ponto positivo foi o retorno de Marco Aurélio Cunha, que é um cara que tem essa capacidade de unir o grupo e conta com o respeito da situação e da oposição.

Mesmo tendo concorrido nas últimas eleições do SPFC pela oposição, foi chamado num momento de desespero e foi muito legal a atitude dele em aceitar esse desafio, pois estava à frente de um excelente trabalho na seleção brasileira feminina de futebol e voltou para realmente ajudar.

E é justamente o que o São Paulo está precisando: união de todos, deixando o ego de lado, deixar as posições políticas principalmente e trabalhar em conjunto para que o São Paulo não caia para segunda, afastando o pensamento de que o clube precisa cair para a segunda divisão para iniciar uma reestruturação, assim como outros times tiveram que passar por essa situação.

Na música “Kairos”, homônima ao álbum lançado em 2011, a letra fala “Eu nunca perdi de vista o meu destino / Muitos tentaram bloquear os meus caminhos, / Mas a persistência me manteve em curso / Agora atravessamos a linha do tempo”. O São Paulo, que sempre foi um clube de vanguarda, perdeu-se no tempo, perderam-se as “Roots”?

kairosKisser – “Kairos” não verdade tem essa pegada de manter a cabeça erguida e sempre olhando em frente, que é uma marca do Sepultura, com uma história de 32 anos enfrentando as estradas, em que respeitamos muito no nosso passado, mas não estamos presos naquele tempo. A gente vive o presente e Kairos representa isto, o presente, sem passado nem futuro, mas o momento.

No São Paulo, esse movimento de olhar para o passado, a volta do Aidar, buscando de certa forma os “anos dourados” da década de 80 no clube, atrapalhou muito, uma vez que os tempos são outros. Olhamos muito para trás, tentando recuperar coisas que já foram feitas e que estão na glória da história do Tricolor, mas não dá para ficar preso àquele tempo.

O Sepultura compreende todo o seu passado, mas faz o presente. Estamos com disco novo pronto para lançar em janeiro de 2017, o que determina o futuro. Já temos turnê agendada para praticamente todo o ano que vem.

O São Paulo precisa ver mais isso, o Kairos, o presente, o momento, o agora. Respeitar a história da nossa camisa, mas fazer as coisas acontecerem no agora, onde está acontecendo tudo e são realizadas as mudanças. Nem passado, nem futuro, o presente que é o mais importante.

O São Paulo Futebol Clube pediu, oficialmente, para você fazer uma versão mais metal do hino, que é tocada toda vez que a equipe entra no estádio. Qual a sensação?

Kisser – É uma coisa surreal escutar a minha versão do hino. Sinceramente, prefiro nem pensar muito, senão fico “meio doido”, pois me vem à mente quando, desde moleque, assistia aos jogos no Morumbi e, depois de tudo, hoje poder ouvir as guitarras lá no estádio, com a galera cantando junto, é fantástico. Realmente é um dos presentes inesperados que a vida proporcionou.

Se o São Paulo Futebol Clube fosse um álbum do Sepultura, que nome receberia?

beneathKisser – Na situação atual seria “Beneath the Remains”, algo como “saindo debaixo dos escombros”, diante de tudo o que aconteceu, esses enganos, erros, que praticamente destruíram uma estrutura que foi feita com muito suor, muito tempo, então é hora de sair dos escombros e “Arise” para reestruturar essa “Sepulnation”.

 

 

 

(**Agradecimentos a Carlos Port, do Opinião Tricolor, Roney Altieri e Aurelio Mendes)



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