Entrevista: Afonsinho, sobre a Seleção: “Perdemos nossa identidade, viramos um macaco de imitação”



Hoje, às 16h45, o Brasil, em Praga, enfrentará a República Tcheca. Muito além dos memes e dos trocadilhos possíveis, que já estão em larga produção, considerando os nomes do adversário e da cidade, o que o torcedor brasileiro está preocupado mesmo é com o futebol apresentado pela Canarinho nas últimas apresentações. Depois dos 7 a 1, o Brasil entrou em crise de identidade: parece renegar a filosofia dos “dibres”, que nos fez pentacampeões; não consegue competir no mesmo nível tático dos europeus e, pior, diante do inexplicável, passou a inventar novos verbetes para um futebol que se apequena e explica-se por meio dos dicionários das retinas de um povo que entende – e ama – um esporte chamado futebol.

Diante desse espelho que olha e não compreendemos com clareza o que vemos, resgatei uma entrevista que fiz com o craque Afonsinho, fruto de um encontro improvável, no Salão Verde do Congresso Nacional quando, com a simplicidade dos gênios, atendeu-me prontamente e falou sobre o futebol da Seleção.

Isso foi em junho de 2016, mas a questão circular, que se verticaliza, é: o que mudou de lá para cá? Confira e tire suas conclusões.

***

O futebol brasileiro se move em uma circularidade decadente. Em colapso, o sistema formado clubes, Seleção, empresários, patrocinadores, cotas, instituições, jogadores e público, tenta encontrar alternativas para não ser engolido pela roda da história, e do Capital, que transformam os homens e seus talentos em mais valia para as benesses de uma minoria. 

Sob o contexto da busca da identidade do futebol brasileiro encontrei o craque Afonsinho (Afonso Celso Garcia Reis), o meia-direita que encantou os torcedores do Santos e do Botafogo-RJ. Inteligente, polêmico, médico e, sobretudo, craque de bola.

 Nessa entrevista, concedida pela grandeza dos foras de série, dono de uma simplicidade que assusta nesses tempos de molecada estrelinha e de laboratório, Afonsinho fala sobre a atual situação do futebol brasileiro, o conceito de craque, os reflexos da administração do esporte, entre outros.

Craque com a bola e as palavras, Afonsinho já foi cantado em verso e prosa, como na música “Meio Campo”, de Gilberto Gil. Música de 1973, que parece ter sido escrita para os dias atuais do futebol brasileiro…

 MEIO CAMPO 

Prezado amigo Afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé nem nada
Se muito for, eu sou um Tostão
Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão

Nesses tempos nebulosos, é sempre bom ouvir Afonsinho. Confira:

Você foi o primeiro jogador a conquistar o passe livre no Brasil, em 1971, como vê a situação?

Afonsinho – Sem dúvida foi um grande avanço para os atletas. Muita gente pensa que o fim do passe promoveu um desequilíbrio no mercado da bola, no entanto, os clubes ainda mantêm um sistema de gerenciamento feudal, o que acarreta em uma série de outros problemas. O problema do futebol não está no passe. Observe que não muda nunca o núcleo de poder e esse sistema atual do futebol interessa a quem? É evidente que uma parte envolvida no futebol está ganhando muito, mas em prejuízo de outros.

A Seleção Brasileira é o reflexo da falência da estrutura do futebol?

Afonsinho – É, é isso aí. Não há como esconder que chegamos ao fundo do poço. Tivemos a Copa do Mundo em nossa casa, que acabou da forma que acabou; os campeonatos não têm público; os investimentos estão desaparecendo e agora é recorrente os aficionados pelo futebol dizerem que não conseguem assistir mais que 15 minutos de uma partida dos nossos torneios. Vivemos uma situação de caos…

Qual a diferença do futebol na sua época para os tempos atuais?

Afonsinho – Ah… mudou muito, principalmente quanto ao espetáculo. Antes você preparava um time para um jogo, dependendo quase que exclusivamente da arrecadação do público, depois as fontes de financiamento foram aumentando, principalmente com a televisão e as marcas. Assim, o esporte futebol se tornou um dos maiores negócios do mundo e é por isso que está acontecendo essa crise da FIFA. A razão é essa. Os americanos não têm como ficar fora de um negócio desse tamanho e não há como, em contrapartida, funcionar todo um imenso sistema mundial de uma maneira feudal.

Antigamente a Seleção Brasileira possuía 6, 7 até 8 craques e o restante era formado por bons jogadores. Hoje temos um craque, Neymar, o que nem está na disputa, e os demais jogadores podem até ser considerados comuns. Como vê essa situação?

Afonsinho – É a consequência da estrutura do futebol, que há muito tempo está se deteriorando. E não foi só na Copa do Mundo que ficou evidenciado o nosso descompasso. O Santos, na final do Mundial Interclubes, já perdeu feio para o Barcelona. Quanto ao público, só para citar um, não dá para conceber uma partida do Flamengo, maior torcida do Brasil, com público de 600 pessoas. Vivemos um desequilíbrio total.

O conceito de craque se perdeu?

Afonsinho – Sim. Vemos que na Seleção, o único extraordinário é o Neymar, que serve de biombo para esconder problemas maiores. É uma violência colocar um peso enorme sobre um garoto. É muita carga sobre ele. Mas, a situação é tão delicada que, se tirarmos o Neymar, o que nos sobra?

Muito se discute sobre a evolução tática, porém, antigamente, o Brasil nunca dependeu tanto da tática para superar as outras Seleções. Guardiola, que montou o supertime do Barcelona, disse que absorveu muito do estilo antigo do Brasil, então, até que ponto é válido esse desejo de assimilar as táticas europeias?

Afonsinho – É isso que aconteceu. Nós perdemos a nossa identidade. Viramos um macaco de imitação, tomamos um caminho errado, o qual precisa ser retomado. Historicamente nós somos a melhor escola que o mundo já viu. Contraditoriamente, hoje vivemos o pior momento da história. Temos de estar atento a isso para retomarmos a nossa identidade.

A Alemanha estabelece um esquema em que todos atacam e defendem em bloco. Você pensa que esse é um dos caminhos para a “modernidade” ou temos que buscar novamente a nossa tradição, com meias habilidosos, ainda que sob uma nova dinâmica?

Afonsinho – Evidente que as coisas mudam com o tempo, mas nós tomamos um caminho equivocado. Fomos imitar os outros e demos com os “burros n’água”. Diante disso, fica a pergunta: – Ninguém é responsável por isso?

Como você avalia a reunião com os técnicos, que aconteceu na CBF?

Afonsinho – Inseridos em um sistema feudal, acabam sendo também a prova viva do erro, do equívoco.

Se pudesse resumir o futebol brasileiro em uma frase?

Afonsinho – Futebol brasileiro precisa encontrar o seu caminho, olhar-se no espelho e não ver outra imagem que não seja a do nosso povo, porque o futebol é uma forma de expressão.



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