Eliminação do Brasil gera o debate: qual futebol se pratica nos torneios e na seleção?



A nova eliminação do Brasil pós 7 a 1 centrou o debate em se Tite deve ou não permanecer à frente da seleção. Discussão válida, pertinente, porém, há de ser muito mais ampla. Uma das principais questões a serem avaliadas neste momento é: qual futebol se pratica no torneios brasileiros e na seleção?

Faz-se necessário estabelecer os conceitos possíveis, no sentido de compreender por que o Brasil caminha para 20 anos sem título mundial.

Mas a discussão não se restringe à conquista de um título mundial, sendo sim, um ponto de partida para se pensar acerca de questões além de um nome para o comando, ou seja, qual futebol se deseja para a seleção?

Tite, desde os tempos de Corinthians, alicerçou seu esquema tático em 4-1-4-1. Esquema multi-vencedor no Timão, o qual transportou como conceito-base para construir a seleção brasileira.

Ainda que Tite conseguira formar um 4-1-4-1 muito consistente, principalmente na defesa, as partidas contra o México, de Osório, e a Bélgica, de Martinez, deixaram evidente que era necessária uma maior variação tática frente aos desafios propostos pelos adversários.

Muitas seleções, ao longo da Copa do Mundo, alternaram seus esquemas táticos entre um confronto e outro, ajustavam-se durante os jogos e até mesmo tinham mais de um esquema na partida (um quando a equipe estava com a bola, e outro, sem).

Variações táticas que encontram muita resistência para implantação nos clubes brasileiros. Ainda que nas devidas proporções, basta relembrar os casos de Osório e Rogério Ceni, ambos no São Paulo.

A tentativa de implantar um futebol mais dinâmico, muitas vezes, é relegado à invencionices dos comandantes, à coisa de “Professor Pardal”, por torcedores e até mesmo a imprensa.

ODE AO RETROCESSO

Depois da tragédia dos 7 a 1 e a CBF promover o retorno desastroso de Dunga ao comando da seleção, o sentimento que ficava era de que o Brasil precisava ganhar, a qualquer custo, reerguendo o futebol brasileiro, o tal orgulho, qualquer coisa para tentar apagar a goleada germânica de nossas memórias.

Com Dunga, traumas e ânsias, empobreceu-se (ou quase nada se fez) o debate sobre qual futebol era praticado no Brasil. O objetivo era ganhar.

Na esteira desses acontecimentos/sentimentos, Dunga voltou – absurdamente – mais para “colocar ordem na casa” do que propriamente por suas qualidades técnicas e táticas. Eis mais um capítulo de uma história surreal que se sucede há décadas no futebol brasileiro e na seleção.

O também gaúcho Tite, diferente de Dunga, chegara pela tal meritocracia. Mas praticamente não se discutiu se o futebol desenvolvido por Tite era o que realmente correspondia ao estilo do Brasil.

A pergunta que fica, depois do vareio tático de Alemanha e Bélgica (1º tempo), qual o nosso estilo?

TREINAR CLUBE X TREINAR SELEÇÃO

No Brasil confunde-se o trabalho desenvolvido nos clubes em relação ao trabalho a ser desenvolvido em seleções.

Em conversas com um amigo francês, apaixonado por futebol, ele levantou uma questão relevante: o futebol implementado nos clubes deve ser o mesmo a ser conduzido à seleção? Para ele, não.

Ele se posiciona sob o seguinte ponto de vista: nos clubes, o técnico chega com tempo para implantar o seu modo de jogo, a exemplo do 4-1-4-1, e, a partir desse conceito, vai buscando jogadores para aperfeiçoar seu esquema. Em grande parte, é o técnico implantando seu jeito de jogar aos atletas.

Mas ele ressalta que, em seleções, o processo, em grande parte, é inverso. O treinador de seleção (chamado de selecionador na Europa) tem de encontrar o(s) melhor(es) esquemas táticos a partir dos jogadores que ele tem na safra. A partir dos selecionáveis é que se deve construir uma maneira de jogar, aproveitando o máximo de cada atleta.

A grande maioria dos jogadores brasileiros atuam em grandes clubes da Europa e muitos não conseguem desenvolver todo seu potencial na seleção porque jogam em esquemas muito diferentes. Cabe ao técnico da seleção tem a compreensão perfeita de como atuam esses atletas em seus clubes.

PARÂMETROS SUL-AMERICANOS

Os confrontos da seleção na Copa do Mundo demonstraram que as eliminatórias não podem ser tomadas como parâmetros em relação ao futebol que se pratica no restante do mundo, leia-se Europa. Tanto em termos de esquemas táticos, quanto em termos do nível dos jogadores europeus. Não se resume à uma evidência geográfica.

Além das partidas nas eliminatórias, o Brasil enfrentou algumas seleções, mas, se refletirmos, toda a discussão não englobava a variação tática, mas como o time se comportaria frente a uma defesa adversária formada por uma linha de 4 ou de 5 defensores. A Bélgica de Martinez mudou do meio para a frente, e o que aconteceu?

Nos amistosos e na Copa, trocavam-se os jogadores, mas o esquema, praticamente era o mesmo. Talvez a exceção se dê na partida contra o México, quando Tite recuou Paulinho para o fechar o meio-campo, quando ali já se mostrara uma área livre.

Ainda que muitos comentem que se Casemiro estivesse em campo contra a Bélgica a história seria outra. Porém, contra o México, Paulinho precisou ser recuado para não sobrecarregar o mesmo Casemiro. A bucha ficou para Fernandinho que, sozinho entre as linhas de 4, e com Witsel, Fellaini e De Bruyne seria incapaz de se multiplicar para marcar dois ou três. Casemiro multiplicar-se-ia ou também sofreria uma carga excessiva?

SELEÇÃO X DNA BRASILEIRO

Com as derrocadas brasileiras nas últimas participações nas Copas, sempre se discute qual o futebol desenvolvido em nossas terras e qual estabelece mais proximidade com o nosso DNA da bola.

Se o nosso DNA é do drible, da finta, do futebol malemolente, com certeza, o esquema tático de Tite está longe de ter a leveza sonhada. Basta relembrar a forma como era o futebol do Corinthians da era Tite. Era um futebol pragmático, de resultados (magros), em que 1 a 0 era goleada, no entanto, vencedor.

Em contraponto, atualmente, o futebol que mais se aproxima do DNA brasileiro parece ser o praticado, no ano passado, pelo Grêmio, comandado por Renato Gaúcho que, apesar de alimentar a fama de fanfarrão, é cercado por profissionais de alto nível (ciência da bola) e, dentro de campo, consegue fazer o time jogar para frente, como é o tal DNA brasileiro, mas sem perder a capacidade defensiva, com recomposições e compactuação.

Quem está mais próximo do DNA brasileiro: Tite ou Renato Gaúcho? Essa comparação pode se ampliar para outras comparações.

Importante ressaltar que não se trata de fazer campanha para Renato Gaúcho em detrimento de Tite. Longe disso. O debate se  constrói a partir da questão: qual o futebol que se pratica no Brasil e na seleção? Acrescida de outra: qual futebol é o adequado para a seleção? Conceito deveria ser debatido ad nauseam e estabelecido, pois, caso contrário, é ficar trocando de técnicos, partido do nada e chegando a lugar algum.

As eliminações do Brasil estão muito além do resultado final estampado no placar. Ampliando, além de questionar qual futebol praticado no Brasil e na seleção, também expõe que não há uma formação consistente de treinadores.

Além de Tite ou Renato Gaúcho, quem mais?

Até que ponto o futebol brasileiro não é refém de um tempo em que tínhamos uma constelação de craques, que sempre encontravam as soluções em campo e o técnico não tinha o mesmo peso de jogadores fenomenais?

Fato é que estão escassas as gerações em que se apresentam três, quatro ou cinco notáveis. Talvez a última seleção com tantos notáveis fora a de 2006,mas a preparação digamos amadora, colocou tudo a perder. Em contrapartida, seleções pelo mundo afora concentram excelentes jogadores, todos sob esquemas táticos variáveis.

Com poucos craques fora de série, nossas individualidades são anuladas pelos esquemas táticos, pela organização, pela disciplina, pela concentração. No Brasil, ainda convive-se com jogadores levando famílias, cabeleireiros e parças para uma disputa do tamanho do Mundo.

Muito mais que correr para renovar com Tite e a comissão técnica, é momento, mais uma vez depois do fundo do poço dos 7 a 1, que o Brasil precisa pensar qual futebol há de ser conceituado e praticado nos torneios nacionais e na seleção.

O exercício do futebol, assim como da filosofia, não necessariamente consiste em conceder as respostas, mas em fazer as perguntas essenciais, em um movimento dialético, de tese, antítese e síntese, de modo a gerar conhecimentos. É momento para ampliar o debate sobre o futebol brasileiro e não ficar preso às manchetes de renovação ou não do comandante da seleção.

Um primeiro – e importante – passo seria o de reconhecer que não estamos praticando o melhor futebol há tempos e que já não existem tantos craques foras-de-série como antigamente para suprir nossas carências táticas e preparações questionáveis.

Mesmo com a Copa do Mundo esfregando isso em nossas caras, ainda parece que estamos cantando “90 milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração”…



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