Dicotomia da bola: futebol bem jogado x futebol resultado matemático



Uma dicotomia que paira as discussões da bola se estabelece entre o futebol bem jogado versus o futebol que gera resultado Duas situações carregadas de contornos, versões e distorções a cada rodada. Mas qual o ponto de partida, a conexão lógica para afirmar um ou outro modo “correto” de se praticar o futebol?

Ainda que o futebol seja apaixonante pelo seu percentual de antilógica, onde o time que jogou menos pode ganhar uma partida por meio de bola parada, é também possível estabelecer bases para tentar compreender os argumentos de ambas as teses. Tarefa que pode ser considerada enfadonha, principalmente no mundo do futebol, em que Verdades e Mentiras se constroem e desconstroem a cada disputa, em movimento que se desdobra, muitas vezes, em contradições e incoerências.

Antes do pontapé inicial, importante frisar que não há – e nem haverá – uma Verdade Absoluta sobre o tema, pois, real e, ao mesmo tempo, dialeticamente abstrato que é, dentro da antilógica do futebol, por mais argumentos que existam, a questão envolve a visão particular de mundo do torcedor, do comentarista, do técnico, do jogador e todos os atores nesse grande peça chamada futebol.

Os que defendem o bom futebol, o que não necessariamente significa jogadas de efeito, mas plasticamente bonito de se ver no todo, sustentam um jogo com construções de jogadas, trocas de passes, conexões entre as linhas, bom posicionamento, variações táticas e, evidente, conversão em gols. Afinal, duvido que alguma equipe, independente do sistema de jogo, entre em campo com objetivo de perder.

Há um argumento dos que defendem o bom futebol que é bastante lógico: uma equipe com bons fundamentos, onde se pode sintetizar em construção de jogadas, em sentido amplo como itens citados no parágrafo acima, sustentam que essa conjunção de fatores levará ao gol, à vitória, ou, ao resultado positivo. Nesse sentido, jogar bem ainda significativamente a probabilidade de se ganhar partida. Jogar bem, significa também, praticar um futebol melhor que o adversário.

Há dois exemplos clássicos na história, ambos cantados e verso e prosa pela crônica esportiva e pelos torcedores, que tem como base o futebol bem jogado, porém com finais diferentes, ressaltando a antilógica da bola e também as preferências individuais do que pode dizer de um bom jogo:

A primeira é a Seleção de 70, com inúmeros craques, agregando todos os elementos de um jogo jogado e com o resultado. Nada menos que um título mundial.

A segunda, a Seleção de 82, também com inúmeros craques, um futebol ofensivo, plástico, encantador, considerado até por Guardiola como base de suas concepções, chegando ao ponto absurdo de ser um time que foi desclassificado, mas que ficou e ficará eternamente na história da bola. Porém, um time que, sob a argumentação do resultado, fracassou.

Essas duas Seleções expõem contradições profundas no mundo da bola, pois é comum os que defendem o futebol de resultado, que pode ser reduzido ao pensamento de que não importa como, mas o importante é vencer matematicamente, defenderem e encantarem-se com as Seleções de 70 e de 82.

Para quem possui concepções diferentes entre futebol bem jogado e futebol que gera resultado matemático, há uma ruptura na argumentação quando se diz gostar das duas Seleções. Seria como dizer: “sou ateu, graças a Deus”.

Aos que defendem o futebol de resultado, poderíamos dizer que estão mais para a Seleção de 94 que as de 70 e 82. Evidente que ninguém afirmaria isso, mas, se analisarmos, no fundo, estão dizendo isso, não é?

Mesmo que não haja tratados sobre o tema, tudo é praticamente fundamentado no ar da palavra, construído e desconstruído com base na última partida que se viu, pode-se compreender que o futebol de resultado é aquele que não se consideram os meios para se obter a vitória, mas aquele que sai de campo vitorioso, que ergue a taça. Considerando a história do futebol brasileiro, considero esse pensamento um SOFISMA da bola.

Não é discussão simples, porém, necessária, sobretudo em tempos de “futebol moderno”, inserida em um país como o Brasil, que tem um histórico formado com seleções como 58, 62, 70, 82 e nos clubes como o Internacional de Falcão, Palmeiras da Academia, Santos de Pelé, Flamengo de Zico, São Paulo de Telê, Palmeiras Parmalat, dentre tantos outros. Todos esses exaltados, mesmo pelos resultadistas.

Em muitos momentos, toda filosofia da bola restringe-se à filosofia da bolacha:

Ganha-se com bom futebol porque isso gera resultados ou gera-se resultados porque se pratica um bom futebol? Na mesma ordem: Ganha-se porque futebol pragmático gera resultado ou gera-se resultado porque futebol pragmático é o que ergue a taça?

Conforme colocado no início deste texto, essa discussão é ampla e complexa, porque envolve a visão de mundo das pessoas que estão no futebol. No caso de um clube, uma pergunta que raras – ou nunca – se faz quando vai se contratar um técnico é: qual o estilo de jogo que se deseja estabelecer para um time, um clube?

Ainda envolvo em complexidades é possível decantar pontos de convergência sobre a visão que o brasileiro nutre sobre o futebol. Por mais que os resultadistas existam, em sua maioria emaranhados em suas contradições, unindo elementos que não se unem no plano teórico e no plano histórico da bola, observa-se que há uma prevalência sobre a busca do futebol bem jogado. O que penso ser o mais lógico e sensato, considerando a história do brasileiro no futebol. Mas porque ainda há tanta reatividade em buscar o futebol bem jogado em relação ao de resultado?

Quando o assunto se amplia ao futebol praticado no Brasil, inúmeros são os exemplos da crônicas e da massa de torcedores de que estamos ficando para trás em relação ao futebol praticado no mundo. Tanto que, atualmente, reificamos o futebol praticando no campeonato inglês, onde muitas partidas se pratica o bom futebol, que se traduz em velocidade, troca de passes, gols, plasticidade, tática e movimentação. Curvamo-nos ao futebol bem jogado, mas, ao mesmo tempo, há quem defenda o resultado, como se dois corpos tentando ocupar o mesmo espaço….

Ganhar ou perder fazem, obviamente, parte de qualquer jogo, de qualquer disputa, mas a preferência sobre o estilo de jogo, a busca por um futebol bem jogado, é algo que pode ser determinado pelas pessoas que estão nos comandos dos clubes e seleções. O futebol, repito, é alucinante, porque se mistura à vida, em que parte dominamos nossas ações e, em parte, estamos arremessados ao aleatório do destino, no entanto, tanto no futebol quanto na vida, há sim uma parcela que é decorrente de nossas escolhas. Algo que transita nos conceitos no conceito de Virtu e Fortuna, descrito em “O Príncipe”, de Maquiavel.

Um dos argumentos me coloca o futebol bem jogado acima do futebol de resultado é baseado na história da bola. Os times mais lembrados e citados, tanto nas conversas de bares e nas mesas redondas, são os que encantaram e não necessariamente ganharam tudo. Lembramos e referenciamos mais a Seleção de 82 que a de 94, guardamos na memória mais os grandes times que jogavam bola do que aqueles que venceram praticando um futebol insípido.

Ganhar é bom, mas ganhar jogando bem é, para a grande maioria dos torcedores, cronistas, amantes do futebol o sonho se materializando em campo. Aos torcedores do São Paulo, que viram a era Telê, morrerão à espera, como um Godot, repetir-se o futebol praticando entre 92 e 93.

No entanto, quando a emoção entra em campo, potencializada por longos jejuns de títulos, por mais louco e contraditório que se possa ser, os mesmos que defendem o bom futebol transferem seus pensamentos em letras digitais nos placares. A escassez de títulos, a necessidade de vencer também estão no cerne das discussões sobre a reinvenção do futebol brasileiro.

Salvo raras concepções como Jorge Jesus, Renato Gaúcho, Sampaoli quando no Santos, Tiago Nunes no Athletico-PR, vive uma crise perceptível, diante dos olhos, por se acomodar em um futebol mal jogado, burocrático, pragmático.

A mudança, de forma ampla, macro, não passa somente pela concepção de jogo dos técnicos, mas também de diretores de futebol dos clubes, que precisam definir o estilo que pretendem para seus clubes; da crônica esportiva, que vai do futebol jogado à defesa do reativo em segundos; e dos torcedores, que confundem, movidos pela emoção exacerbada, filosofia de jogo com o resultado final.

“Futebol Moderno”, muitas vezes se confunde com as estruturas dos estádios e grandes investimentos, no entanto, penso que o futebol vive uma crise de conceitos, de saber qual futebol se quer praticar.

Depois dos 7 a 1, parece que vencer tornou-se mais importante que criar as bases para se chegar às vitórias e, consequentemente, os títulos. Talvez seja essa grande angústia a mãe do clube dos resultadistas, que está matando o futebol brasileiro, enquanto em outras ligas seguem aprimorando o futebol que defendíamos e praticávamos.

Renato Gaúcho foi campeão das Américas praticando um bom futebol, perdeu no Mundial. Jorge Jesus conquistou as Américas, mas perdeu no Mundial. Ambos encantadores em seu tempo. Sampaoli não venceu, mas muito se ouviu dizer que convenceu. E também foi bom de se ver. Independente de resultado, que depende de muitos fatores, brasileiro, e o futebol em si exige, a busca pelo futebol bem jogado.

Tentando colocar os pensamentos em prateleiras, dividindo-os em partes menores na lógica cartesiana, em relação de causa e efeito, não consigo enxergar um princípio elementar de que o mal futebol possa gerar, em sua maioria, bons resultados, mesmo que o futebol, em momentos nos pregue peças com sua antilógica. Mas a probabilidade de vitória jogando bem é visivelmente superior.

O resultado do resultadismo, tanto nos gramados quanto nas discussões, atualmente, converte-se em futebol, em sua maioria, mal praticado, e pouco questionado, estabelecendo premissas quase imperceptíveis para o nosso descompasso, nosso descaminho.



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