A década perdida do São Paulo



No período de 2005 a 2008, o São Paulo venceu um Paulistão (último no torneio, há longínquos 12 anos), uma Libertadores, um Mundial e três Brasileirões. Não é coisa pouca. No entanto, passados praticamente 10 anos, é visível e estatístico – quase palpável – a decadência do São Paulo no cenário do futebol brasileiro.

A partir de 2008, exceção ao meio caneco da Sul-Americana, conquistado em 2012, no próximo mês, o Tricolor completará 10 anos de descompasso, escândalos, tenebrosas transações, ausência de planejamento para a formação do elenco, ampliação da dívida, recursos mal investidos, utilização da custosa base para cobrir rombos, ardis usando ídolos, resultados vexatórios nos gramados, entre outros elementos, que colapsaram o que um dia fora um clube modelo no Brasil.

Texto de Amir Sommogi, do blog Marketing & Economia da Bola, apontou que o São Paulo foi o terceiro time que mais investiu em 2017, constituindo o enorme montante de R$ 265 milhões.

Se no investimento o São Paulo foi o terceiro, nos gramados, o time caiu em todos os torneios mata-mata e, no Brasileirão, lutou até as últimas rodadas para não cair para a segunda divisão.

Em uma conta simples, cada ponto do Tricolor, que terminou na vexatória 13ª posição, custou R$ 5,3 milhões, enquanto a Chapecoense, que perdeu todo mundo em uma tragédia, terminou o Brasileiro na 8ª posição, classificada para a Libertadores e com o custo de R$ 920 mil por ponto conquistado.

Mesmo com investimentos na ordem de R$ 265 milhões, o São Paulo se deparou com situações absurdas em seu planejamento, como a de, já com a temporada em andamento, constatar que não possuía um reserva para a lateral esquerda e, com isso, sair às pressas para contratar Edimar, terceiro e esquecido reserva do Cruzeiro.

A temporada 2017 foi um retumbante fracasso, uma vergonha. A culpa é somente do presidente Leco e de Vinicius Pinotti? Evidente que não.  A decadência, ideia longínqua nos corações e mentes dos iludidos é consequência de um processo de dilapidação dentro e fora de campo, que começou a se materializar para as arquibancadas, a partir de 2013, quando o São Paulo, não fosse o trabalho de Muricy, teria acordado na segundona nacional.

As lições de 2013 não foram suficientes para o clube acordar de seu delírio de grandeza, ao se nomear Soberano, soberba criada durante o ciclo 2005-2008 e que acabou por criar uma realidade imaginária nos torcedores que, mesmo perdendo, enchiam o peito de um orgulho que já não existia.

Enquanto os torcedores embarcavam na ideia de que realmente eram os Soberanos, diretorias seguiram sucateando o clube.

Sem resultados em campo, as diretorias do São Paulo especializaram-se em vender esperança, ilusões. Em vez de realmente planejar e tornar transparente as ações tornou-se comum a construção de cortinas de fumaça construídas com ídolos para escamotear tudo o que havia de errado.

O São Paulo, da última década, é como uma casa que está desabando, mas que ainda resta uma parede com um trilho, sustentando uma cortina de seda. De um time que brigava por títulos nacionais e amedrontava as agremiações na América, sucumbiu ao Defensa y Justicia, em pleno Morumbi.

Se se pode apontar algo positivo está na torcida que, juntamente com Hernanes, empurrou o time contra a degola em 2017, mudando sua característica de que só vai na boa, para lotar o estádio diante do rebaixamento, que bateu na trave.

De fatos mais recentes, depois de o ídolo Rogério Ceni ser moído nas engrenagens políticas de um clube perdido, eis que a diretoria engendra a nova esperança na virada do ano, de nome Raí, outro ídolo que poderá ser mastigado pelas engrenagens do poder. Não se discute o amor de Raí pelo São Paulo, porém, a grande questão que paira no ar é: Será capaz de subverter o sistema e conseguir formar um elenco decente para 2018?

A canção, “O Mundo é um Moinho”, do genial Cartola, parece sintetizar a última década decadente do São Paulo. O problema é que no Tricolor ninguém ouviu Cartola, com o perdão ao mestre pela contradição de seu nome no contexto do futebol.

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés



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