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Crônicas do Morumbi

Como nossos Pais



Futebol e vida tabelam em um espaço de tempo à parte em relação aos calendários, onde o esquema tático é o da rotina diária: acordar cedo, ir ao trabalho e lutar pela sobrevivência. Aos pais e filhos, existe também uma linha sucessória dos dias, muito além da folhinha pendurada na parede, que se forma através das partidas de futebol.

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Neste Dias dos Pais, escrevendo essas linhas, recordo meu pai, ainda vivo, Tricolor apaixonado, do alto dos seus 80 anos, e dos inúmeros momentos em que, morando no interior, escutávamos os jogos do São Paulo pelo rádio e sofríamos juntos pelo gol perdido ou com a bola que passou há um metro da meta, mas que Fiori Gigliotti narrava como se tirando tinta do poste.

Como não recordar a final do Brasileirão, em 1986, meu pai pulando de alegria, quando Careca marcou um gol improvável, no Brinco de Ouro, contra o Guarani, levando o São Paulo para a decisão dos pênaltis e vencendo o Campeonato Nacional? Eu só tinha 10 anos, e eu, ali, ao lado do meu ídolo, nascia um outro ídolo, Careca, que depois, 30 anos após, tiver o prazer de poder conversar e falar tudo isso para ele. Tudo se mistura.

Como não lembrar da primeira camisa do São Paulo que ele me deu? Uma cinza, de goleiro, nos tempos do grande e saudoso Waldir Peres. Uma camisa de um time do coração não é como um brinquedo que, com o passar dos anos, a gente deixa de lado. Uma camisa do time de coração é como se transferisse um título de uma herança imaterial.

Como não lembrar do dia em que fomos juntos ao Morumbi, para assistir o São Paulo versus Palmeiras, pela semifinal da Libertadores? Quando atravessamos o espaço que dá acesso à arquibancada, ele se deparou com aquela força da massa, estádio lotado, e encheu os olhos de lágrimas, tamanha a emoção por estar presente para ver o seu time do coração.

Como não lembrar dos Mundiais Interclubes de 92 e 93, quando o Tricolor bateu Barcelona e Milan? Ele, nascido em 1938, que participou da inauguração de metade do anel da arquibancada do Morumbi, Tricolor muito antes do São Paulo conquistar o primeiro Brasileiro em 77, ver o seu time de coração conquistar o mundo. Ele não cabia dentro de si. E comemoramos juntos.

A gente sempre conversa sobre a vida, seus desafios, os dilemas, os projetos, as dificuldades, porém, não há uma conversa que não recaia sobre o São Paulo e sua escassez de títulos. Não há como separar vida e futebol, é tudo um só campeonato permanente. Futebol tem essa capacidade: une pais e filhos, em um só sentimento.

Nessa catarse que é o futebol, confundindo o tempo dos calendários, fintando a cronologia, mesmo caminhando para 81 anos, quando assunto é futebol é paixão, olhar e encantamento de menino.

A vida não tem VAR e engana-se quem pensa que futebol se forma no tempo dos 90 minutos… Futebol e a nossa relações com nossos pais, todos entram em campo nessa partida da vida.



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Autor

Ricardo Flaitt

Ricardo é jornalista e escritor. O futebol tabelou com sua vida quando chegaram as primeiras imagens do pai torcendo e sofrendo por um clube. O que era incompreensível nos primeiros anos, com o passar do tempo, compreendeu que o futebol era muito mais complexo que um simples correr atrás bola. Mas, quando assistiu ao primeiro vídeo de Garrincha, então, reavaliou todos os seus conceitos sobre o futebol, e a vida. Deparou-se com o imprevisível. Segue na busca de um ponto de partida, no sentido de compreender o futebol a partir do preceito de Nelson Rodrigues de que “em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”.

flaitt.ricardo@gmail.com

@ricardo_flaitt