Casal de Rey: “A principal característica de Telê era a simplicidade na compreensão do futebol”



Telê e Fernando Casal de Rey

Na segunda parte da entrevista com Fernando Casal de Rey, o ex-presidente do São Paulo revelou histórias sobre a metodologia de trabalho de Telê Santana, com quem estabeleceu uma relação de amizade por cinco anos; e detalhes de jogadas treinadas pelo Mestre para a final dos Mundiais Interclubes, em 1992 e 1993, quando o Tricolor venceu o poderosos Barcelona e Milan.

Também falou sobre o processo de transição dos meninos da base para o profissional, em 1994, período em que montaram o “Expressinho Tricolor”, vencedor da Copa Conmebol, que fez 6 a 1 na final sobre o Peñarol; entre outras narrativas, por quem vivenciou de perto, e intensamente, o São Paulo Futebol Clube.

Confira:

Qual era o diferencial do Telê?

De Rey – Era um perfeccionista. Trabalhava com muita repetição. Apitava um coletivo, que estava mais para um treino de posicionamento, toque de bola e a saída de jogo. Toda vez que entendia haver algo errado, parava e ajustava. Isso acontecia inúmeras vezes por treinamento, sempre explicando, de forma simples, como deveria ser feito. Esse método, ao longo do tempo, formataram o modo da equipe jogar, a ponto que os jogadores já sabiam o que era a ser feito.

Em seus treinos, Telê buscava simular a situação real de jogo. No início os atletas não gostavam muito de realizarem treinos em dois períodos, no entanto, com o desenvolvimento do trabalho, a evolução coletiva e individual, acompanhada de resultados práticos, passaram a entender que tudo transmitido pelo Mestre havia um sentido e assimilaram a ideia.

Duas jogadas ilustram, nas decisões dos Mundiais de 92 e 93, o resultado desses treinamentos.

O primeiro caso, em 1992, contra o Barcelona, no gol do Raí, quando Muller deu um corte na entrada da grande área e cruzou próximo à linha do gol. Não foi mero acaso, mas resultado de muito treinamento. Havia uma orientação do Telê para que o Muller desse o corte seco e imediatamente cruzasse, pois dizia que haveria alguém entrando na pequena área para colocar a bola para dentro. E foi o que aconteceu.

Contra o Milan, em 1993, a determinação de Telê para a partida final do Mundial Interclubes foi para explorar as laterais. O Mestre sempre mostrava que o Milan marcava em bloco.

Quando a bola estava do lado esquerdo, eles deslocavam os jogadores do meio-campo para fechar o setor. Telê compreendia que, devido à forte marcação dos italianos, dificilmente aconteceria a construção de uma jogada.

Então, todos os dias, ao final dos treinos, ele pegava o André Luiz e o Cafu e ficava treinando, com os dois laterais, inversões de jogadas da esquerda para a direita, que era uma maneira de quebrar esse sistema de marcação em bloco do Milan, uma vez que não haveria tempo para descolocar todo um setor de uma ponta a outra do gramado.

Basta ver o primeiro gol do São Paulo contra o Milan. A jogada se iniciou com André Luiz, na esquerda, invertendo totalmente o jogo na ponta-direita para Cafu que, de primeira, fez o cruzamento à área, para a entrada de Palhinha empurrar para o gol. Evidente que não é exatamente a coreografia ensaiada, mas é muito próximo do que foi treinado.

Qual a relação que você faz com os métodos de Telê para os do futebol atual, denominado moderno?

De Rey – A principal característica de Telê estava na simplicidade de compreender o futebol e, consequentemente, instruir seus jogadores. Ele passava as instruções com clareza e depois repetia incessantemente.

Telê baseava-se muito na repetição. Ele pegava os dois laterais, Cafu e o Leonardo, e ficava após o treino, incessantemente, fazendo-os cruzar para a entrada dos meio-campistas, que deveriam entrar na área e finalizar. Havia até uma brincadeira, pois o Telê dizia que enquanto os meias não fizessem gols não terminaria esse treino.

O futebol moderno é obcecado pela construção coletiva, o que é uma evolução, por outro lado, não nivela para baixo, uma vez que esconde os talentos individuais?

De Rey – Pode ser. Atualmente, joga-se tudo em bloco, quase um amontoado. Telê compreendia que existiam jogadores mais limitados, porém, com funções importantes coletivamente, mas sempre preservava o talento individual. Um exemplo: nas saídas de bola do São Paulo, em vez de fazer a transição da defesa para o meio, Telê explorava muito as laterais, o fazer a bola rolar, construindo-se de forma articulada as jogadas.

Observando a habilidade e capacidade criativa de Leonardo, Telê utilizava-o como um segundo camisa 10, mesmo o jogador atuando na ala esquerda, com total liberdade para avançar, entrar em diagonal, constituindo um jogador a mais no meio-campo, quando o time estava com a posse de bola. A cobertura era feita pelos volantes que, mediante o avanço de Leonardo, deslocavam-se para o setor.

Desta forma, Telê transformou Leonardo em um segundo camisa 10 no time, que surgia a partir da lateral-esquerda, evitando a marcação adversária e sempre chegando como elemento surpresa.

Há um exacerbamento da ciência no futebol atual?

De Rey – Verdade é que o São Paulo foi um dos pioneiros nessa questão. Na década de 90, Moracy Santana e Turíbio já implantavam novos conceitos para mensurar o condicionamento físico dos jogadores.

O mercado da bola cada vez mais voraz e com números estratosféricos, uma das questões mais almejadas é a promoção de jogadores da base, conceito que o São Paulo já desenvolvia na década de 90. Como era realizada essa transição?

De Rey – Sem dúvida. O maior exemplo foi o “Expressinho”, em 1994, que era formado por uma mescla de jogadores do profissional, que não estavam jogando regularmente, com os melhores atletas dos juniores.

Sob esse conceito, preparávamos os meninos da base para atingirem o profissional, de modo que os jovens não sentiam um “choque” nesse processo de transição. Esse estágio é muito importante para que os jovens jogadores se ajustem à pressão de atuar no time profissional, onde o nível de exigência e as cobranças são muito maiores.

Essa metodologia deu muito certo, tanto que o São Paulo, com o “Expressinho” sob o comando de Muricy Ramalho, sagrou-se campeão da Copa Conmebol 1994, passando por times como Grêmio (comandado por Scolari), Sporting Cristal (Peru), Corinthians, vencendo o Peñarol por 6 a 1 na final e revelando, dentre outros, jogadores do porte de Rogério Ceni, Caio Ribeiro e Denílson.

Nos últimos anos, a disputa para comandar o São Paulo acirrou-se muito. Como analisa o contexto político?

De Rey – Em nossa época, o foco maior era na instituição, na formação do elenco, nos resultados em campo. Evidente que existiam divergências, no entanto, todos que estavam na diretoria compreendiam que havia algo maior, que era a instituição, o São Paulo Futebol Clube.

Um dos grandes problemas da tensão política que o clube vive atualmente começou no momento em que Juvenal Juvêncio assumiu a presidência, pois ele sufocou a oposição, ao ponto de conselheiros serem vaiados em reunião, pelo simples fato de questionarem algumas medidas adotadas pela direção. Fato que nunca tinha visto em minha longa trajetória no São Paulo.

O cerceamento da oposição, sem dúvida, enfraqueceu o clube. É muito importante que haja um contraponto, desde que seja alicerçado em argumentos, de forma propositiva e com respeito.

A supressão da oposição chegou a um ponto em que mal se conseguia montar uma chapa, pois sabia que a derrota seria iminente. No entanto, para o bem do São Paulo, gradualmente, esse contexto está se alterando. Tanto que na última eleição a chapa opositora perdeu por uma pequena margem de votos.

O desequilíbrio de forças entre situação e oposição, ampliada nos tempos do Juvenal, enfraqueceu a instituição. Frente única gera acomodação e, consequentemente, repetição. Então há a necessidade de novas filosofias, novas ideias e isso só acontece com a alternância do poder. Tanto penso assim que defendo o surgimento de novas lideranças, gente nova para as futuras gestões do São Paulo.

Ainda que defenda o novo, não é interessante a junção do conhecimento dos antigos conselheiros e diretores, com a força da nova geração?

De Rey – Defendo. Porém, fui pouco ouvido, especialmente na confecção do novo Estatuto, no que diz respeito ao voto que, democraticamente, deve ser secreto, além de outras propostas, que sequer foram discutidas.

É óbvio que os antigos dirigentes não querem remontar o passado, trazer os anos 90 para os dias atuais, mas penso que a união entre as experiências do passado com uma nova visão poderiam realizar grandes projetos no São Paulo.

Em contrapartida, existem questões que são atemporais, como a simplicidade, o diálogo aberto e franco com os jogadores e a reciprocidade entre os diretores.



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