Carência de títulos e fetichismo da mercadoria criaram o torcedor-material-esportivo



Foi-se a época no mundo da bola em que o único personagem da semana era o craque, o clássico, o golaço, a taça, o título, o drible desconcertante. Na pós-modernidade, em que a velocidade suplanta a razão, tudo tem de ser manufaturado para virar óleo a ser colocado na máquina do esporte.

Um desses efeitos, no futebol, é o surgimento do torcedor-marca-esportiva, aquele que, mesmo o time sem conquistar títulos, carente de ídolos e equilibrando-se nas tabelas, ele bate no peito e comemora a chegada de um novo fornecedor de material esportivo, a ponto de estampar nas redes sociais o brasão sagrado do seu clube ao lado da logomarca da empresa.

É evidente que o futebol, nesses tempos de clubes brasileiros com folhas salariais de R$ 10 milhões mensais, faz-se ainda mais necessário um bom material e design atrativo para vender em consequentemente, produzir receita aos combalidos cofres dos clubes.

Também é fato que as camisas de clubes, até mesmo os patrocinadores estampados, marcam épocas, representam ciclos, porém, essas sempre serão eternizadas nas memórias torcedoras, quando associadas a conquistas, a títulos, aos craques.

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A questão não é ter um belo e rentável material esportivo, mas o torcedor colocar uma marca esportiva no mesmo patamar do seu clube.

Marcas vem e vão, o time do coração, esse não. Esse permanece, na alegria e na tristeza.

Esse sentimento difuso de amar uma marca de material esportivo, bem poderia ser explicado pelo filósofo da boçalidade que um dia, direto do camarote do esvaziamento dos sentidos, criou o conceito do “agrega valor”.

A pergunta é: quais valores são esses?

Um bom e belo material esportivo não tornará o perna-de-pau num craque, não mudará as características dos jogadores, como se numa configuração de videogame, não trará títulos, não produzirá ídolos, porque o futebol é construído com base no talento e não com a roupa que se entra em campo.

O fetichismo da mercadoria avança sobre os corações e mentes dos torcedores, transformando o que antes era terciário em essencial, fazendo-os cultuar o vazio quando o assunto principal é o futebol.



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