Bourgeois: “Os clubes brasileiros se tornaram agremiações políticas, que também jogam futebol”



Alex Bourgeois é um francês que se reencontrou com o mundo da bola no país do futebol. Bom, isso, se o Brasil ainda for o país do futebol. Mas fato é que, aos 14, deixou Paris para jogar nas categorias de base do Bordeaux, onde ficou até os 19 anos, sendo um na equipe profissional. Sem grandes perspectivas para se consolidar como jogador, largou tudo para estudar matemática na politécnica de Zurique, na Suíça.

Depois de formado rodou o mundo atuando no mercado financeiro, até se fixar, e, 1998, no Brasil, onde conseguiu conectar duas grandes paixões: a matemática e o futebol, administrando a Teisa (Fundo que investia no Santos FC). Após experiência positiva no Santos, trabalhou para Abílio Diniz e foi CEO do São Paulo por um curto espaço de tempo, onde disse ter “encontrado muita resistência para desenvolver seu projeto”.

Muito criticado, sob alegação de que a matemática não se encaixaria ao futebol, Bourgeois, obstinado e ousado, não desistiu de colocar em prática seus conceitos, que visam a profissionalização do futebol, assim como já acontece na Europa. Em agosto assumiu o comando do Figueirense e, com menos de 60 dias, vem recuperando o clube, fazendo com que o furacão sobre bons ventos.

Na entrevista a seguir, Bourgeois fala sobre a relação do mercado financeiro com o da bola; o seu conceito de “moneyball”, que compreende o futebol com bases em cálculos e projeções derivativas oriundas do mercado financeiro; sobre nos novos modelos de gestão dos clubes europeus, dentre outros temas. Confira.

Você é matemático com formação na Suíça e estabeleceu carreira no mercado financeiro em grandes instituições. Quando surgiu essa transição para o mercado da bola?

Bourgeois – Em 2010, estava procurando um novo caminho na minha vida profissional, a veia do futebol batia forte em mim, pois é uma paixão de adolescente. Estudamos o mercado profundamente e concluímos que existia uma grande oportunidade. A indústria de futebol no Brasil é inexistente e altamente amadora. O Brasil é um dos maiores mercados de publicidade do mundo, mas menos de 1% vai para o futebol, a falta de governança e a troca constante de diretoria dos times é uma das principais causas. Foram 7 anos de muito trabalho e muito aprendizado até chegar ao Figueirense.

A partir dos seus conhecimentos matemáticos, em conceitos dos derivativos, você desenvolveu o “moneyball”, em que faz análises sobre as projeções dos elencos, conseguindo projetar a classificação da equipe no campeonato. Fale sobre essa teoria.

Bourgeois – A ideia principal era de quantificar a frase famosa: “o time deu liga”. O que isso queria dizer? Tinha como medir isso? Existem características de jogadores similares com salários muito diferentes? Tem como otimizar um time através de observações estatísticas?

Dessa forma, você consegue montar o elenco mais barato possível com a maior probabilidade de terminar no G4, é um problema de pesquisa operacional. Essa seria a ideia, algo parecido com o que se faz no baseball nos Estados Unidos. Vários times europeus já usam modelos semelhantes como Manchester City e Arsenal. Acredito que o avanço da tecnologia também será parte integrante do futebol. Nós, no Figueira, estaremos em vantagem nesse processo.

Até que ponto pode-se compreender o futebol de forma matemática, já que uma das leis que rege o esporte é o imponderável? Você aplica o moneyball no Figueira?

Bourgeois – Ainda não aplicamos no Figueira, mas estamos desenvolvendo um grande estudo para começar a usar a partir de 2018. O imponderável não é nada mais que um evento de baixa probabilidade, que pode ser quantificado.

A questão não é o imponderável, mas o que você pode quantificar e tirar proveito para ajudar na tomada de decisão. Por exemplo, existe uma estatística em que prova que a posse de bola volta para o adversário quando saímos no tiro de meta com chute do goleiro. Mesmo assim o que mais se vê é goleiro saindo com chute no tiro de meta!

É uma tendência, principalmente na Europa, a aquisição de clubes tradicionais por milionários ou grupos financeiros. Como analisa essa transformação no mundo do futebol?

Bourgeois – A gestão profissional é muito importante para competir em igualdade de condições no mundo globalizado. Hoje somente Real e Barça são associações entre os gigantes do futebol, e mesmo assim, o Real é altamente profissional. Esses grupos que compraram os times europeus implantaram uma gestão profissional corporativa nesses times e o resultado está aí. Se no Brasil não nos mexermos para reduzir essa lacuna, vamos empobrecer e muito o futebol brasileiro.

O único caminho que conheço para competir com o futebol europeu é uma profissionalização corporativa, é isso que estamos fazendo no Figueira. Mas preciso lembrar que isso só foi possível, graças a votação por 82 a 7 do Conselho Deliberativo do Figueirense e ao desapego do seu Presidente Wilfredo Brillinger, que enxergaram que esse caminho era necessário. O Figueira é hoje a gestão com o melhor time profissional fora de campo do Brasil.

Muitos denominam milionários que compram clubes como novos “mecenas”, não há uma contradição nesse conceito, que vem do Renascimento, em que os poderosos custeavam grandes artistas, sendo que os investimentos nos clubes também visam o lucro?

Bourgeois – Não são mecenas no sentido do Renascimento, pois esses investidores visam o retorno financeiro, assim como nós visamos no Figueira. Somos profissionais acostumados a lidar com grandes empresas e estamos levando todos esses conceitos para o futebol. A indústria que mais se assimila ao futebol é a indústria de entretenimento. Nós somos, de certa forma, muito parecido com a Disney: temos parque temático o estádio, produção de filmes, que é nossa mídia como TV, rádio e redes sociais e merchandising que são as camisas e produtos que vendemos. Somente visando o lucro seremos eficientes, e somente com eficiência venceremos nossos desafios.

O futebol, no Brasil, ainda é tratado como uma capitania hereditária?

Bourgeois – Os clubes de futebol no Brasil se tornaram agremiações políticas, que também jogam futebol. O modelo associativo tocado por amadores é totalmente ultrapassado no mundo globalizado. Os conselheiros políticos, que se apropriam dos times de futebol, não têm interesses na instituição, mas interesses pessoais.

No dia 11 de agosto você adquiriu/assumiu o Figueirense, tradicional clube de Santa Catarina. Muitos torcedores consideram a aquisição de clubes como se vendesse a sua história, perdesse sua identidade. Como analisa essa situação? Está enfrentando resistência pelos mais tradicionalistas por um grupo financeiro assumir o futebol?

Bourgeois – A torcida está nos abraçando. Ninguém aguenta mais no Brasil a pouca vergonha do amadorismo e da falta de profissionalização. A história do Figueirense é intocável, ela está escrita e foi conquistada desde 1921. Não tem como vendê-la!

Já a história que estamos construindo depende de grandes profissionais, que tenham o preparo adequado para enfrentar o mundo globalizado. Acredito que nosso trabalho, pioneiro no Brasil, será um divisor de águas para os clubes no futuro.

O fato de assumir o Figueirense nos deu a oportunidade de ter liberdade para implantar nossa metodologia de trabalho. Como somos investidores, visamos o retorno financeiro que só virá com o sucesso do clube no longo prazo, sucesso me refiro a títulos nacionais e internacionais. Nossa filosofia vem sendo implantada nos últimos 56 dias. A instituição vem se moldando e se adaptando a nossa cultura e modo de trabalho e isso é muito positivo e muito animador.

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Qual os próximos passos para o Figueirense?

Bourgeois – Nosso projeto vem sendo montado com organograma corporativo, com contratação de pessoas altamente capacitadas e a formatação de um grupo com espírito e cultura de time grande. Como Presidente do Figueirense S/A, não sou mais aquela figura presidencialista, que manda em tudo, isso é um atraso e uma vaidade que não pode existir no século 21. Temos uma equipe um grupo, um time, e junto tomamos as decisões no dia a dia. Cada um é responsável por sua área e pelo resultado. Tudo que acontece fora de campo acaba influenciando dentro de campo. Nossa aspiração é chegar na série A e lutar por títulos grandes como campeão da série A, Libertadores, Sul-americana, Copa do Brasil e outros.

Em menos de dois meses, você pegou um time que estava afundado na zona de rebaixamento, caminhando para a 3ª divisão, salários atrasados e falta de confiança. Com tão pouco tempo e em reta final do campeonato, quais foram as medidas para recuperar o time, que acaba de sair do z-4?

Bourgeois – Chegamos há 56 dias. Com muito trabalho estamos fora do Z4. Mas pés no chão, ainda faltam 11 rodadas. Confiamos no nosso trabalho. Da mesma forma que não estávamos assustados no Z4 não estamos eufóricos agora.

Serenidade, trabalho, método, tempo e profissionalismo é nossa língua. Com isso temos certeza do resultado final. Mas quero deixar claro que o que nós estamos criando ainda está no começo. As coisas ainda estão numa fase muito inicial.

É um projeto de longuíssimo prazo. O que o clube está fazendo é preparar o terreno para as próximas gerações. As pessoas acham que o fato de o clube agora ter dinheiro trará resultados imediatos, sucesso imediato, mas parece que elas se esquecem de que as coisas não funcionam assim.

O dinheiro pode nos ajudar a ganhar tempo, mas jamais será algo imediato. Para construir algo grandioso, para fazermos parte da elite do futebol brasileiro precisamos de tempo. E sem contar que há outros 20 clubes, que tentam fazer a mesma coisa e investem dinheiro como nós.

Você luta há tempos para tentar implantar uma visão profissional da gestão do futebol. Teve uma passagem rápida pelo São Paulo. Quais as dificuldades enfrentadas para mudar o sistema no futebol brasileiros e quais os entraves encontrados no SPFC para desenvolver um trabalho?

Bourgeois – O São Paulo não tem o monopólio desse modelo amador. Todo clube associativo tem o mesmo problema, que é o comando político do futebol. Os conselheiros tomam conta de orçamentos de centenas de milhões de reais. Com todo respeito, isso não tem como dar certo. Um faturamento de R$ 300 milhões é muito sério para deixar na mão de conselheiros, que participam meio período do dia-a-dia do clube. Por isso, aqui no Figueira, temos especialistas em cada área, inclusive no futebol, mas, sinceramente, acho muito difícil isso mudar nos clubes brasileiros, as forças políticas são fortíssimas para o status quo.



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