Baresi: “Tecnicamente, não há mais como comparar o nosso futebol com o das grandes ligas”



Baresi emergiu para o futebol no São Paulo, na década de 90, no time júnior que venceu a Copinha, batendo o Corinthians na final. Time que contava também com Rogério Ceni e depois veio a ser a base do “Expressinho Tricolor”.

Versátil, atuou nos gramados como zagueiro e volante. Depois de jogar por diversos clubes brasileiros, no Chile, na Coreia e na Bélgica, viu-se obrigado a encurtar a carreira de jogador devido à uma contusão.

Cabeça-pensante, migrou para a formação de treinador. Começou sua carreira de técnico antes do desastre dos 7 a 1 na final da Copa do Mundo, desenvolveu o ótimo trabalho nas bases e chegou a comandar a equipe principal do São Paulo.

Baresi, em permanente atualização, ainda representa uma nova geração de treinadores, que tenta subverter positivamente os velhos dogmas arraigados nas pranchetas do futebol brasileiros.

Recentemente passou pela China e Estados Unidos, em projetos de formação de atletas.

Nesta entrevista concedida ao “blog Crônicas do Morumbi”, Baresi fala a realidade do futebol brasileiro, que vende precocemente seus craques e o “embate” entre o antigo e os novos conceitos da bola.

Confira.

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Como você analisa o futebol praticado no Brasil em relação às grandes Ligas Europeias?

Baresi – Dois motivos essenciais em minha opinião:

Primeiro motivo, porque Brasil, América do Sul e África são produtores de jogadores, porém, sendo países com a economia limitada, nossos principais jogadores jovens acabam saindo cedo, não possibilitando a formação de uma equipe, e muito menos a sua por completa formação, acabam vendidos precocemente para suprir as necessidades financeiras dos nossos clubes, proporcionando a baixa técnica do nosso futebol.

Nossos principais jogadores (primeiro escalão) estão nas principais ligas europeias, em clubes como Real Madri, Barcelona, Manchester United, Paris Saint Germain, Juventus dentre outras, com verdadeiras constelações proporcionando um elevado nível técnico.

O segundo escalão de jogadores estão em mercados alternativos (Ásia e Emirados Árabes). O terceiro escalão são os jogadores remanescentes no Brasil, os que não foram vendidos, ou aqueles que foram vendidos e não deram certo e retornaram ou aqueles que deram certos (jogadores mais experientes, com salários altíssimos) e os nossos clubes fazem a repatriação, bancados pelas vendas dos jogadores jovens.

Então, desta forma, entramos em ciclo vicioso, vendendo nossos jovens jogadores para pagar os nossos velhos jogadores, essa tem sido a tônica do futebol brasileiro, nível técnico baixo e com muitas dificuldades de formatar grandes equipes porque vendemos precocemente nossos principais jogadores, diminuindo assim ainda mais o nosso nível técnico, praticado aqui no Brasil .

O segundo motivo é que perdemos a referência/padrão em nossa formação e em nossas equipes profissionais. Repare que, nas décadas de 80, 90 e 2000, tínhamos muitas referências atuando em nossos clubes e em nossa seleção eram várias opções para de camisas 10, 9, bem como laterais, zagueiros e meio campistas.

Por exemplo, cresci vendo meus ídolos atuando, minhas referências eram excelentes tecnicamente. Vi Oscar, Mozer, Edinho, Aldair, Ricardo Rocha, Válber, Antônio Carlos etc. Mandamos os nossos melhores produtos (jogadores) para exportação, recheando as principais ligas europeias, por isso não temos como comparar tecnicamente o futebol praticado aqui com as grandes ligas europeias.

O futebol passa por um momento de transição em que novas metodologias de treinamento se sobrepõem aos modelos considerados antigos. A questão que se verticaliza é: É possível fazer uma fusão entre o conhecimento adquirido, dos considerados antigos, com os da nova geração, mais acadêmica?

Baresi – Com certeza. Esta fusão seria o ideal, congregar o novo com o antigo. O novo já nasce velho, por exemplo, o Pep Guardiola, que é o grande expoente no futebol mundial e um discípulo do Cruyjff, que era um discípulo do Rinus Michels, o futebol espanhol possui uma influência muito grande do futebol holandês, então, muitos conceitos que vemos hoje já eram praticados no passado, o que mudou foram os nomes/nomenclaturas. Não descarto o “antigo” e acredito na fusão entre o conhecimento adquirido dentro de campo durante a vida de atleta e a capacitação profissional continua com as novas metodologias conquistadas através do estudo cientifico.

Telê Santana não praticava “as novas” metodologias da bola, no entanto, foi capaz de montar equipes que jogavam em sincronia quase que perfeita. Jogador do São Paulo, você foi treinado por Telê. O que diferenciava o Mestre na formação das equipes?

Baresi – Sem dúvida alguma a sua forma de pensar o futebol, o jogo e o treino. Ele tinha uma facilidade muito grande de encaixar as peças, fazer a engrenagem funcionar, a colocação dos ingredientes que fizeram do São Paulo uma equipe altamente vencedora, comprometimento, ousadia, alegria, ver os detalhes era a sua marca dentro e fora do campo. Ele construiu um esquadrão muito competitivo e com uma enorme vontade de vencer! Não é à toa que Guardiola, ainda no Barcelona, citou este esquadrão em uma de suas entrevistas, enfatizando a magia do futebol brasileiro.

Em 2010, você conquistou o título da Copa São Paulo com o Tricolor, depois chegou a assumir interinamente a equipe principal do Tricolor e, posteriormente, assumiu o Paulista, de Jundiaí. Pretende retornar a um clube brasileiro?

Baresi – Sim, pretendo retornar este ano ao futebol brasileiro, já estou no Brasil para isso, desenvolvi projetos internacionais na China e Estados Unidos ligados a formação completa dos atletas, bem como cursos e estágios na Europa. Agora busco uma oportunidade no mercado para desenvolver meu trabalho dando continuidade em minha carreira como técnico de futebol.



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