Audax oxigena o futebol brasileiro



Chegar à final do Campeonato Paulista, depois de golear o São Paulo – com direito a olé – e vencer o Corinthians, de Tite, em pleno Itaquerão lotado, não dá para dizer que o time do Audax é resultado do acaso. Quem viu e quem vê o Audax jogar não pode alegar que suas vitórias surgem por intervenção do “Sobrenatural de Almeida”, uma vez que, de fato, são projeções nos gramados das intervenções do técnico, do sistema de jogo, construído há três anos por Fernando Diniz, da dedicação dos jogadores, confiança da diretoria e a competência da comissão técnica.

É digna de aplausos a coragem de Fernando Diniz em implantar um sistema que valoriza o toque de bola e as variações de posicionamentos. É o jogar bola: com toque, passe, triangulações, assim como um dia o Brasil ensinou ao mundo.

Guardiola, cantado em verso e prosa em todo o mundo, já deixou claro em entrevistas que o estilo tiki-taka, do Barcelona, surgiu alicerçado nos conceitos que o seu pai falava do futebol apresentado pelo Brasil, em que primava o toque de bola para a construção das jogadas. O tiki-taka é uma fusão entre o domínio de bola e as qualidades nos passes do Brasil com as variações táticas e de posicionamentos do “Carrossel Holandês”, que anos depois tornar-se-ia a filosofia, desde as categorias de base, do poderoso Catalão.

Mais ousado ainda é Diniz insistir na implantação do sistema de jogo em um time pequeno, sem tradições e com poucos recursos para grandes contratações. Isso, sem dúvida, amplia o feito, e muito. Afinal, uma coisa é buscar materializar o conceito de futebol total com atletas do porte de Iniesta, Xavi, Messi e cia ilimitada. Outra é implantar esse conceito e acrescentar alguns próprios, no Audax, com o respeito devido e conquistado.

O time de Osasco oxigena o futebol brasileiro, ainda mais se se considerarmos esses tempos – salvo raras exceções – de futebol “moderno” e pragmático, com muita correria, mas pouca inteligência, de muita força e baixa técnica.

De acordo com os ponteiros do tempo da bola, em que o presente é praticamente passado, mais do que ousadia do Audax é um ato revolucionário manter, confiar e apostar em um técnico durante três anos; permitindo a implantação de um sistema não tão inovador, mas, ao menos diferente do que se repetia e reproduzia por aqui.

Considerando a mentalidade retrógrada, que permeia – de forma velada – as mentes dos torcedores e até mesmo setores da crônica esportiva, em que rechaça ridiculariza possíveis “inovações”, Diniz e o Audax quebraram parte o nosso anacronismo da bola.

É prematuro afirmar que Diniz, dirigindo um grande clube, poderia obter os mesmo resultados vitoriosos no Audax. No entanto, além do sistema de jogo, mostrou também que só um trabalho a longo prazo é capaz de gerar eventuais frutos. Exemplo clássico e antigo, que já aconteceu na história, quando Tite, no Corinthians, depois da derrota vexatória para o Tolima e a desclassificação da então sonhada Libertadores alvinegra, Andres Sanches bancou o técnico, confiou, investiu em seu trabalho, contratou jogadores e o resultado foi que o clube conquistou as américas e o mundo.

O Audax, além de presentear com a possibilidade do jogo bonito, de toque de bola, envolvente e com pegada na marcação, coloca também em discussão um assunto fundamental para os clubes, mas pouco difundido pelo imediatismo que corrói o futebol brasileiro, que é planejamento em longo prazo, formação, conceitos, construção de um time em sentido amplo.



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