Antifutebol: arbitragem pune jogador do São Paulo que comemorou o gol



O São Paulo foi a Itu, controlou a partida e ainda sobrou com um gol, de Liziero, aos 26 minutos do segundo tempo, que determinou a classificação à semifinal do Paulista. Mas é justamente a partir do gol tricolor que se inicia este texto, que está mais para um relato realista-fantástico de uma partida realizada em Macondo ou um trecho de Beckett, em seu Teatro do Absurdo. Na comemoração, pelo simples fato de Antony subir no alambrado para comemorar junto à torcida, o ponteiro foi – pasmem – punido com um cartão amarelo.

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Pô, justamente com Antony, esse moleque-ponteiro-das-antigas, que resgata o que há de melhor da tradição do futebol brasileiro, com dribles, ousadia, até firula.

Já não pode bandeira, proibiram os espetinhos e os pernis na porta do estádio e de uns tempos para cá estão proibindo também as comemorações. Fosse um gesto ofensivo, vá lá, mas qual o mal há em subir no alambrado para comemorar com a torcida?

Fico imaginando um pai assistindo à uma partida do seu time do coração, ao lado do filho pequeno, torcendo junto, ali, naqueles 90 minutos mágicos, à espera do lance mais emocionante do futebol, o gol.

Então, quando a epifania do gol acontece, o jogador parte em direção à arquibancada, bem próximo onde pai e filho estão, e o menino pode ver o craque ali, bem diante de si, estreitando o sonho e a realidade.

Mas, logo em seguida, o mesmo menino assiste ao árbitro, antes de recolocar a bola em jogo, sacar o cartão amarelo, esticar os braços rispidamente e amarelar o jogador por ter comemorado.

O que será que passa na mente dessa criança?

Imagino o menino virando para o pai e perguntando: – Pai, ele tomou amarelo por qual motivo? Arremessando-nos àquelas situações em que os filhos começam a crescer e fazem aquelas perguntas em que a gente não sabe como explicar: – como nascemos?

Por mais que se incorporem inúmeros penduricalhos modernos, a bola continua redonda, o campo e as traves retangulares, são 22 pessoas correndo atrás de uma esfera, tentando fazer atravessá-la pela meta e o maior sentido do futebol é o gol.

Como se não bastassem as restrições da vida, como as contas, os boletos, as prestações, o desemprego, a carestia; agora os caras querem sobretaxar também as comemorações dos gols, amarelando nossos sonhos, punindo aqueles que nos proporcionam pequenos lapsos de alegria.

Em uma entrevista para o El País, o gigante Eduardo Galeano, explicou o gol: “Nessa ‘triste viagem do prazer ao dever’ feita pelo futebol, o gol era um pesadelo, sinal dos tempos modernos. “O gol é o orgasmo do futebol e, assim como o orgasmo, é cada vez menos frequente na vida moderna. ”

Isso, metaforicamente, é o gol para quem ama o futebol. Só se espera que, nesses tempos de menino veste azul e menina veste rosa, não recaia o amarelo nem o vermelho da censura pelo simples fato de transcrever a visão de Galeano sobre o gol.

Há que reprimir a violência, o analfabetismo, a desvalorização dos professores, o achatamento salarial, o racismo, a homofobia… jamais o gol numa partida de futebol.



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