Aguirre: liderança, baixas, racha e queda



A demissão de Aguirre, restando cinco rodadas para o encerramento do Brasileirão 2018, expõe situações recorrentes no São Paulo dos últimos anos, com jogadores colocando-se acima da instituição, o imediatismo (para não dizer desespero) das arquibancadas para que o clube retome seus momentos de glória, má formação do elenco e mudanças abruptas nos comandos técnicos.

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Imerso nessa ciranda de desenganos, prestes a completar 10 anos com apenas um título, o da Sul-Americana 2012, o São Paulo gira em torno de si, está estagnado em um círculo vicioso, como cachorro tentando morder o próprio rabo.

A demissão de Aguirre encontra justificativa diante do futebol apresentado pela equipe, no entanto, quando separadas as situações que culminaram na queda, em método cartesiano, constata-se problemas muito maiores, os quais jogadores nos levam a inferir que, devido a individualismo, egos e vaidades, o São Paulo pode ter lançado mão do título, perdendo, mais uma vez, para si.

A equipe, que terminou o primeiro turno na liderança do torneio, com impressionantes 71% de aproveitamento, agora se equilibra para assegurar uma vaga na Libertadores. A pergunta que se estabelece: é pouco?

Em março, Aguirre chegou com a missão óbvia de recolocar o São Paulo nos caminhos das vitórias e, consequentemente, dos títulos.

A nada fácil missão de Aguirre consistia em formar um elenco forte e amplo, considerando que os cofres tricolores não possuíam dinheiro de sobra para grandes contratações, herdaria – com baixas – um time que lutou em 2017 para não cair e um estigma real, em que nos últimos anos, muitos jogadores que pisaram no gramado do Morumbi apresentavam os mesmos semblantes diante de vitórias ou derrotas.

Depois de um 2017, em que o São Paulo contratava e vendia jogadores com os campeonatos em andamento, fazendo com que os técnicos tivessem que se reinventar a cada rodada, eis a promessa da diretoria em estacar a sangria.

Nesse processo, saíram Pratto, Hernanes, Luiz Araújo, David Neres, Thiago Mendes, entre outros. Para 2018, chegaram Diego Souza, Everton, Nenê, Jean, Rojas, Trellez. Carneiro também chegou.

É evidente o rebaixamento técnico dos que chegaram em relação aos que saíram. Mesmo assim, Aguirre, sem contestar, tentou formar o melhor com que tinha em mãos.

Um dos problemas graves foi sanado. O time, nas mãos de Aguirre, não era mais um elenco de indiferentes. Limitado ou não, fato é que a equipe se dedicava os 90 minutos da partida, fator determinante para explicar a chegada à liderança no primeiro turno. Se não dava na bola, impunha-se na raça.

Qualquer torcedor do São Paulo sabia que a liderança representava muito além do que se podia imaginar no início da temporada. Mas, na ânsia e na sede por títulos, a liderança, a partir do segundo turno, foi escorrendo das mãos como água. E desaguou na queda de Aguirre.

Militão fora vendido ao Porto; a defesa, ponto forte da equipe, desequilibrou-se; o ataque deixou de marcar; o curto elenco começou a sentir o peso de um campeonato constituído por 38 duríssimas rodadas; jogadores veteranos começaram a se arrastar em campo; e, para fechar, as contusões de Everton e, posteriormente, Rojas, desmontaram o São Paulo possível estabelecido por Aguirre.

O que fora, no primeiro turno, um time extremamente aguerrido, compacto e sempre lutando por uma bola, sem jogadores suficientes para manter o padrão reativo, mas eficiente, o São Paulo de Aguirre começou a cair de produção.

Sem as peças necessárias, Aguirre foi obrigado a se reinventar. Se por um lado faltou fôlego de plantel, também é verdade que faltou fôlego de ideias. Na maioria das vezes, a decisão tomada não foi melhor, como demonstrou na prática o mal futebol, que começou a definhar.

Na busca por reencontrar o São Paulo do primeiro turno, Aguirre desmontou a equipe, alterou, colocou jogadores na reserva, fez e viu-se obrigado a fazer improvisações. Nessas mudanças, além da queda de rendimento, a ascensão da insatisfação.

A insatisfação com as mudanças nas formações titulares fez desmontar os motores propulsores do time: a raça, a união, a coesão do vestiário, que se somava ao trabalho proposto pelo técnico.

Imerso nesse roteiro neste filme do futebol, em que tudo é para ontem e o passado recente não goza de considerações, avaliações e projeções, Aguirre, restando apenas cinco rodadas para o término do Brasileiro, foi da liderança à queda.

Demissão que acontecera pelas decisões do presidente Leco e Raí. Lugano estava na Argentina e Ricardo Rocha era contrário. Que esta medida também não crie fissuras na comissão técnica.

Agora o São Paulo aposta em Jardine,  multi-vencedor da base, para encerrar a participação no Brasileirão, com a missão de evitar um final de temporada ainda mais melancólico, mesmo que o Tricolor se classifique para a Libertadores.

Enquanto diretores, comissão técnica, conselheiros e torcedores não compreenderem que uma equipe de futebol é construída ano após ano, de forma cumulativa, com a soma de trabalhos desenvolvidos, o São Paulo seguirá girando em círculos, tentando morder o próprio rabo.

Sobre o futuro? Já que Aguirre é página virada no Morumbi, resta à diretoria e à comissão técnica contarem com discernimento. Se forem seguir com Jardine, para a temporada 2019, que ele seja respaldado, o elenco seja reforçado e  ampliado, e que nenhum atleta se sinta mais que uma instituição que já conquistou, dentre muitos títulos, três vezes as Américas e três vezes o Mundo.

Além da questão Aguirre, o corpo diretivo do São Paulo precisa começar a pensar no São Paulo 2019. Quais jogadores ficarão, traçar metas para novas contratações, de modo a reforçar e ampliar o elenco, quais jogadores da base serão aproveitados. A saída de Aguirre é o pontapé inicial para essas novas discussões.

E, por outro lado, se Jardine representar apenas um técnico-tampão até que se encontre um novo novo, o mínimo, será então, analisar friamente as opções do mercado, não incorrer ao erro da nova moda “técnico cascudo” para, sobretudo, comparar o perfil do treinador, seu futebol praticado em relação ao que se deseja estabelecer no São Paulo 2019. Caso contrário, será crônica de mais uma tragédia anunciada.



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