Abstinência futebolística



Torcida na fan fest do Vale do Anhangabaú durante partida entre Brasil e Costa Rica pela Copa da Rússia, São Paulo SP, 22/06/2018, Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press

Janeiro é um mês terrível para quem sofre do vício futebolístico. Sem poder visualizar os grandes times nacionais em campo, o viciado recorre a torpores como contratações, mercado da bola, quem vem e quem vai no seu clube, esquemas táticos imaginários e delira com projeções sobre a equipe.

O torpe é tamanho que se começa a analisar até orçamentos para investimentos. Os mais assolados pela abstinência chegam a fazer planilhas e tabelas imaginárias. Há os que se apegam em mensagens de jogadores nas redes sociais, com margem a inúmeras interpretações, que se tornam objeto de estudos, conjecturas, conspirações.

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Como tratamento, os especialistas recomendam doses de Copinha São Paulo. Mas o efeito é superficial. Tal qual como a categoria, o sub está abaixo da dose necessária ao viciado em futebol, remetendo-o às insanidades das planilhas, dos orçamentos e de outros paliativos. Mas a boca continua seca.

Outros recomendam os campeonatos inglês e espanhol, os quais, se por um lado, aliviam a dor; num segundo momento, potencializam-na, porque há o efeito colateral da comparação com o futebol que se pratica em território brasileiro. É um círculo vicioso.

Já os jogos de confraternização e beneficentes, esses são destinados aos casos de tratamento de choque, em que o viciado precisa assistir qualquer futebol frente a ter que tomar perfume ou montar campeonatos de botão com os amigos. Há também os que agarram-se no youtube ou desencaixotam os dvds das conquistas antigas do seu clube de coração. Tudo é válido para conter o avanço da abstinência.

Para o brasileiro que sofre do vício do futebol nacional, não há remédio que amenize a abstinência enquanto os times não entrarem em campo. Os regionais, com seus tratamentos locais, a base de raízes, apenas amenizam as dores do enfermo.

Torneios internacionais, para alguns, aliviam a pressão, mas não se compara a abstinência com as disputas dos campeonatos oficiais.

O surto só começa a passar, e o adulto voltar a ter os sentimentos de criança, quando se iniciam os primeiros toques da Libertadores, as primeiras rodadas do Brasileirão, a Sul-Americana e a Copa do Brasil.

O mundo ao redor pode estar em ruínas, pode haver uma sensação de náusea, um vazio existencial, como Sartre em busca de um sentido, no entanto, quando a bola rola, os viciados em futebol anestesiam-se, em um sentimento que não necessita de uma linha a mais de explicação, porque apenas se sente.



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