Dos extremos à lição de força: os meninos da Lusa decidiram honrar a missão de Lucas



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Depois de três partidas sem vitórias no Campeonato Paulista sub-17, a Portuguesa precisava vencer o Água Santa de qualquer jeito para passar de fase. Sob pressão, os meninos foram ao Estádio Distrital do Inamar, em Diadema, e conseguiram um inesperado resultado positivo: 2 a 0, vaga nas quartas de final e festa. Muitos ali eram desacreditados, dispensados de clubes maiores, colocados à prova. Aquela classificação era o sonho que eles sempre sonharam.

Lucas era um desses sonhadores. Havia chegado à Portuguesa no início de 2016 para fazer avaliações, foi aprovado em maio e assinou contrato de formação até dezembro do ano que vem. Ganhou espaço e mostrou liderança ao longo do Paulistão sub-17, seu primeiro torneio pelo novo clube. Contra o Água Santa, foi titular e destaque.

O sonho de Lucas terminou de forma trágica na última quinta-feira. Jogadores e funcionários do clube haviam se reunido em um churrasco de confraternização no dia anterior, para comemorar a vaga nas quartas de final do Paulistão. Do extremo de felicidade ao extremo de tristeza: o zagueiro teve uma congestão, segundo peritos do Instituto Médico Legal (IML), e foi achado morto na piscina do Canindé.

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– Não foi nem uma festa, foi um almoço, um churrasco de confraternização, que tinha coisas normais, vinagrete, arroz, carne, linguiça e pra beber refrigerante e suco, que é o que os meninos tomaram. Era um almoço para estarmos próximos, nos alegrarmos. Piscina não estava na programação, mas eles pediram para se refrescar, estava muito quente. Teve um momento em que fui na piscina dar tchau, era 15h30, conversei e eles disseram que estava tudo bem, tinha diretores do parque aquático lá dentro e eu fui embora, tinha compromisso – diz Carlos Miranda, que é técnico da Portuguesa sub-17 e só no dia seguinte, a quinta-feira, ficou sabendo do triste acontecimento.

– Umas 5 ou 6 da manhã eu liguei o celular em casa e fiquei sabendo que o Lucas não tinha aparecido. Aí fui correndo para o clube buscar informação. Comecei a procurar com um segurança e a menina do administrativo e acabamos indo ao parque aquático. Infelizmente eu vi o menino lá. Nós três de fato tivemos a triste missão de ver que não dava para fazer mais nada – lembra.

No momento em que a morte de Lucas foi descoberta, os outros jogadores do sub-17 da Portuguesa já estavam se arrumando para treinar. Já tinham tomado café e estavam organizando materiais de treino. Talvez até sem querer, viram o desespero da comissão técnica e ficaram sabendo que o companheiro estava morto. “Eles entraram em desespero”, lembra Carlos Miranda. O técnico não permitiu que os meninos fossem até a beira da piscina e propôs uma oração para que todos se acalmassem. Não havia mais nada a fazer.

Lucas foi velado e enterrado na sexta-feira, em São Paulo. Sua sonhada estreia no Canindé aconteceria no sábado e foi adiada pela Federação Paulista. Na Portuguesa, houve quem dissesse que o melhor a fazer seria o resguardo e a desistência do Campeonato Paulista por motivo de luto. O próprio treinador admite que “não tinha forças” para comandar treinos naquele momento. Lucas era querido por todos, afinal. E foram exatamente “todos” que tomaram a decisão.

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– Os meninos me pediram para dar treino no sábado. Eles disseram que precisavam jogar bola, que não podiam ficar pensando na situação, que seria pior ficar ocioso. Eles disseram que precisavam fazer o que o Lucas gostava de fazer. Foi ali que eles me deram uma lição de força. Eu estava repleto de preocupações, com a família do Lucas, os meninos, o clube, foi tudo muito difícil. Mas ali eu vi que eles precisavam de contato com a bola, de treinamento, até para aliviar um pouco a situação – diz Carlos Miranda, antes de completar:

– Naquele sábado de manhã eu conversei com eles sobre a brevidade da vida. A Bíblia ensina que há um tempo para nascer e um tempo para partir. Falei sobre a importância de dizer ao outro que você o ama, que você é grato aos seus pais e que é preciso levar a vida com amor. A lição do Lucas foi fazer tudo o que fazia com intensidade. Ali fiz uma oração e fomos para o trabalho, algo bem tranquilo, para eles se soltarem. E a cada dia a gente vem com uma informação nova, uma motivação nova. Estamos tratando em doses homeopáticas de palavras de ânimo, esperança e fé. É isso que vai nos ajudar a reconstruir e ir adiante.

Seu Ivan, apelidado de Pescoço, é avô de Lucas e guiou os primeiros passos do menino no futebol. Do Serra Morena, time de várzea do bairro do Pari, à escolinha do Badeco, ídolo da Lusa, e enfim ao Canindé, onde ele já estava começando a se destacar. Foi justamente ele quem orientou os meninos a seguir o trabalho.

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– Foi um pedido dele para que continuássemos a luta, porque era o sonho do Lucas. Foi a missão que ele cumpriu e que precisamos continuar.

Os meninos do sub-17 da Portuguesa entrarão em campo nesta quarta-feira, às 11h, no Canindé, para enfrentar o Diadema na ida das quartas de final do Campeonato Paulista da categoria. O time entrará com uma camisa em homenagem a Lucas e até seu Ivan deve entrar em campo junto com o grupo – o pedido feito pela Lusa à Federação Paulista de Futebol ainda está pendente.

Aquele que crê, ainda que morto viverá, diz a Bíblia. Nos sonhos de cada jovem da Portuguesa, Lucas continua vivo.

BATE-BOLA com CARLOS MIRANDA
Técnico da Portuguesa sub-17

Relacionamento com Lucas
Falar do Lucas me dá alegria, me sinto feliz em poder falar dele. Eu assumi o sub-17 em maio e o Lucas estava em avaliação, não tinha situação definida dentro do grupo. Deus me deu olhos para ver a qualidade e capacidade, ficamos um período trabalhando ele e colocamos no time. Era um menino muito pacato, tranquilo, falava pouco, não chamava atenção, era muito na dele, tinha o mundo dele. Era super educado, humilde, ajudador. Como atleta foi se tornando fundamental dentro do meu time, dentro do grupo, um menino que ganhou respeito de todos. Quando teve oportunidade aproveitou bem, proque se preparou, assumiu a posição de titular e vinha com um desempenho muito interessante. Ele já começava a traçar um plano futuro para ele. Era um menino que vinha em sequência de crescimento, evolução fantástica, de assimilação do que era necessário para a função dele, desenvolvendo com muita qualidade e já começando a despontar a liderança dele. Juntamente com a equipe ele fez um jogo fantástico contra o Água Santa, digno de muitos elogios.

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Reconstrução após a fatalidade
Realmente nós estamos buscando uma reconstrução emocional, física também, psicológica, a começar por mim. Eu tenho esses meninos como sendo meus filhos e foi uma perda irreparável. Vivemos os extremos da noite para o dia. Estávamos em alegria, confiança por conseguir um resultado dificílimo e uma clasificação que nos fortaleceu muito, honrando a camisa da Portuguesa. Aí no outro dia fomos para a tristeza profunda, luto, uma dor muito grande. Agora trabalhamos uma reconstrução. Estou com o grupo faz só cinco meses e nesse tempo escrevemos uma história bonita de relacionamento, trabalho, foco e objetivo. São meninos desacreditados, que muitos questionavam a qualidade, mas que foram trabalhando no dia a dia e mostraram o seu valor. É essa reconstrução, de enxergar a vida com amor, com alegria, sabendo que às vezes ela prega peças e que quem determina é Deus o tempo de cada um, que estamos vivendo. Agradecemos por ter tido o Lucas na nossa vida e precisamos dar continuidade, trazendo ele no coração.

Trabalho no futebol e como pastor evangélico
Eu sou cria da Portuguesa, comecei em 1983, passei por todas as categorias de base e permaneci no clube durante 13 anos até sair, em 1996. Passei pela Ferroviária, Inter de Limeira, Paysandu, Bahia, Avaí, Figueirense, Santo André, mais alguns clubes. Em 2001 encerrei minha carreira aos 31 anos e fiquei dez anos fora do futebol. Nesse período estudei teologia, me tornei pastor evangélico e depois voltei ao futebol com escolinha e então no União Mogi por dois anos e AD Guarulhos um tempo antes de surgir o convite da Portuguesa. Aceitei o convite e comecei a trabalhar em maio. Uso aquilo que as escrituras nos ensinam para aplicar na minha vida e melhor direcionar os meninos que comando.

Lições de fé
O atleta de futebol sofre uma cobrança exagerada. Por estarem em alto rendimento, mesmo com 16 anos, há uma exigência. Eu falo com eles sobre estrutura espiritual. Porque tem momentos em que as coisas não dão certo, o que não signfiica que não tem trabalho ou talento. Precisamos ter a fé de que você pode, através da ajuda de Deus, não entrar em desespero e superar os momentos ruins. A fé leva a acreditar em mudança de vida. E isso é uma sustentação para o nosso viver e que nos dá força pra levantar e buscar solução, não se entregar ao problema.



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