Gabigol deu certo enquanto a maioria desconfiava e virou realidade



Ele é marrento. Ele não joga para o time, só joga por ele. Ele é firuleiro. Que mala! Ele não é tão bom assim… Ele é muito moleque. Ele é só uma promessa. Ele é imaturo. Ele não pode vestir a camisa 10.

Não adianta mais negar. Tentaram porque tentaram, os críticos, “castrar essa energia de felicidade”, nas palavras do genial Eduardo Galeano. Me arrisco a dizer que foi por causa do apelido: o moleque nem tinha saído das fraldas, como é que chamavam de Gabigol? A marca veio desde as categorias de base, e olha que lutaram contra ela. Era Gabriel, só. Gabriel Barbosa, se muito. Gabigol? Nem pensar… Mas por que tanta amargura?

O menino de São Bernardo estreou Gabriel, em 2013, com 16 anos. No dia da despedida de Neymar, de um jeito que não podia ser mais simbólico e significativo. E também fonte de pressão, claro. Até porque não era o Neymar, nunca será. Era o Gabriel. Mas no próprio ano de 2013 já virou Gabigol.

Na época em que as manchetes ainda usavam o apelido de Gabigol entre aspas, o menino jogava videogame em casa. Tarde livre, porque ele fazia parte do elenco profissional do Santos, mas não jogava nunca. O plano era largar o comando do Cristiano Ronaldo no joguinho só para ir à Vila Belmiro ver o time do coração jogar. Por coincidência, o time do coração era o primeiro time da carreira dele de jogador. Essas coisas da vida…

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Só que o Victor Andrade (lembra?) usou um descongestionante nasal vetado pela legislação antidoping sem avisar o Santos. Quando avisou era tarde: cortado! Chamem o menino lá, o tal do Gabriel! Chamaram. Ele resolveu o jogo. E sem apertar xis, quadrado, bolinha ou triângulo. Com gol.

O menino que o Santos tirou da favela em São Bernardo do Campo e alojou num bom apartamento junto com a família quando ele tinha menos de dez anos começou cedo sua história. Terminou neste domingo, com 157 partidas como profissional e 57 gols marcados. O Santos ainda contou as assistências, que são 25, e jamais apagará o título conquistado, do Paulistão de 2016.

Gabriel chorou a perda de títulos para o Ituano, sem poder ajudar o quanto queria, e para o Palmeiras, sem poder ajudar o quanto sonhava. Gabriel lutou contra as últimas posições da tabela do Brasileirão, lutou pelas primeiras posições também. Foi criticado e enaltecido. Chegou à Seleção Brasileira, de base e profissional. Foi medalha de ouro. Fez o gol 12 mil da história do Santos, e até queriam que ele usasse a camisa 12 (sabia?). Foi 7 por causa do Cristiano Ronaldo e depois o número 10. Chorou, lamentou, mas se levantou e comemorou também. A vida é assim.

O moleque marrento e mimado da base do Santos virou um dos melhores atacantes do futebol brasileiro. Nem venham com o rótulo de promessa, por favor… A Inter de Milão, um dos gigantes do futebol mundial que tenta se reinventar, não pagaria R$ 100 milhões numa promessa, né?

Gabigol é realidade, chamem do que quiserem. E nós, críticos, continuamos cegos às coisas novas e diferentes do mundo – também no futebol, claro. “Como diz meu amigo Ángel Ruocco, isso é o melhor que tem (no futebol): sua obstinada capacidade de surpresa. Por mais que os tecnocratas o programem até o mínimo detalhe, por muito que os poderosos o manipulem, o futebol continua sendo a arte do imprevisto. Onde menos se espera salta o impossível, o anão dá uma lição ao gigante”, diria Galeano, “em Montevidéu, no verão de 1995”.

Ele é marrento. Ele não joga para o time, só joga por ele. Ele é firuleiro. Que mala, blá, blá, blá. Se for tudo isso, e eu não sou próximo dele para dizer, não fez diferença nenhuma. Gabriel é, sem dúvida, uma das maiores revelações da história das categorias de base do Santos. Sem dúvida, também, teve que ouvir muitas opiniões amarguradas de críticos, torcedores e até treinadores que querem pensar além, muito além do campo. A “obstinada capacidade de surpresa” fez seu papel.



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