Os causos e superações de quem quase desistiu de tudo antes mesmo de começar



É difícil e pode ser até constrangedor assumir publicamente os próprios erros. Costumamos dizer que “errar é humano”, mas quando somos nós diante dos julgamentos e olhares de reprovação, a tendência é esconder a verdade. Tem gente que não pensa assim. Imagine jogar para o alto todas as grandes chances da sua vida e precisar ir ao fundo do poço para criar força e tentar de novo. E depois admitir tudo isso.

Foi o que aconteceu com Mauricio Plenckauskas Cordeiro, jogador de futebol de 24 anos e atualmente vinculado ao Kiryat Shmona, de Israel. Antes, ele passou por Nacional, Grêmio Barueri, Palmeiras, Grêmio Prudente, Avaí, Mogi Mirim, Oeste, Mirassol, Red Bull, Penapolense, Boa Esporte e pelo modesto Ashdod, já em Israel.

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Ele esteve nas mãos dos empresários mais badalados do Brasil, foi cotado para convocações da Seleção Brasileira sub-20, campeão estadual no Avaí com só 19 anos, observado com carinho por uma infinidade de treinadores famosos do futebol nacional. E só encontrou a felicidade jogando em Israel. Porque foi ali que viu o sonho cada vez mais distante…

– Eu só me profissionalizei no futebol por causa do talento mesmo, porque lá atrás não tive força de vontade. Sabe aquele cara que as coisas vão acontecendo? Eu não treinava físico, os preparadores me odiavam, mas eu vi que tinha que mudar, porque o futebol mudou. Aí apareceu uma chance e fui para Israel. Prometi dar a vida, ser o melhor. Aí cheguei aqui para fazer um teste e fui bem, deu tudo certo, me deram um contrato. Não foi maravilhoso, mas foi meu começo. E hoje estou brigando para jogar uma Liga Europa na próxima temporada. Um ano atrás eu estava em casa de perna pro ar, hoje posso jogar uma Europa League. Isso dá orgulho demais – diz Mauricio, ao blog.

Com 13 clubes (entre passagens curtas e longas, definitivas ou não) em 24 anos de vida, Mauricio Plenck carrega histórias. Das confusões, brigas, sofrimentos e até das vezes em que foi humilhado na busca por seu sonho no futebol. Aqui, reproduzimos algumas que podem até servir de exemplo. Ou não, depende.

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História pra contar

Do Barueri ao Palmeiras ao Prudente
Mauricio começou sua trajetória no Nacional, tradicional clube formador de São Paulo. Permaneceu por lá três anos e até jogou uma Copa São Paulo de Juniores aos 16. Sem acordo para ficar, acertou com o Grêmio Barueri, mas naqueles tempos o time sub-20 contava com nomes badalados, como Willian José, William Henrique, Rhayner… Em outras palavras, não havia espaço para o menino do Naça. Mauricio, então, “desceu” para o sub-17 e ali se destacou. Tanto é que foi convidado para um período de treinamentos no Palmeiras e agradou. O problema é que isso tudo ocorreu na época em que o Grêmio Barueri estava indo para a cidade de Presidente Prudente, com nova diretoria, nova sede e objetivos também diferentes.

– O Prudente pediu muito dinheiro ao Palmeiras e não teve conversa. Mas aí quando voltei já foi direto para o profissional, com 17 anos. Joguei Copa Paulista, depois Copa São Paulo, Campeonato Paulista, tudo precoce. Passou mais um tempo, a nova diretoria não conseguia se acertar e eu pedi a rescisão.

No Avaí, na alegria e na tristeza
Observado pelo técnico Hemerson Maria durante a Copa São Paulo de 2011, Mauricio foi integrado logo depois de rescindir com o Grêmio Prudente ao elenco sub-20 do Avaí. Estava bem no Catarinense júnior quando foi puxado pelo técnico Alexandre Gallo para o time profissional. E aí é que os altos e baixos começaram a escrever sozinhos essa história.

– Eu era muito bagunceiro, acabava saindo em dias errados e me prejudicando. Depois de duas semanas assim ele (Gallo) me voltou para o sub-20, aí ficava quietinho uns tempos e voltava ao profissional, depois me perdia de novo e ficava subindo e descendo, fazia merda de novo e descia, ‘ajuizava’ e subia – lembra, com bom humor.

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A verdadeira sequência como profissional só surgiu no ano seguinte, quando Hemerson Maria assumiu o time profissional em crise e mudou todo o time, promovendo vários meninos que trabalhavam com ele no sub-20. Inclusive Mauricio Plenck. Com o treinador da base no comando, o Avaí superou as expectativas e chegou na fase eliminatória do Campeonato Catarinense. Nas semifinais, empate em 1 a 1 com a Chapecoense na Ressacada e necessidade de vitória na Arena Condá. Hemerson Maria apostou em Mauricio titular e viu a equipe vencer a Chape e avançar à decisão. Com Mauricio titular, repito. Mas lembra da história dos altos e baixos?

– No primeiro jogo da final eu fui para a reserva e fiquei bravo, porque tinha ido bem na semifinal. Aí jogamos em casa na final, vitória por 3 a 0, jogo decidido e eu não entrei. Ele mexeu só duas vezes e uma foi para colocar um zagueiro (Cássio) no lugar do Nunes. Aí eu ali no banco, moleque, com garra, vontade, não aceitava não jogar.

Mauricio se reapresentou e iniciou a preparação para o segundo jogo da final do Catarinense. Até que…

– Rolou um coletivo no meio da semana e teve um lance em que eu tomei uma bola nas costas e o Hemerson brigou comigo. Ele me usava um pouquinho, porque não podia dar bronca no Cleber Santana, no Robinho, no Nunes… Naquela época eu ainda estava com problemas familiares, fora a reserva, aí extrapolei. Ele era meio que um pai pra mim, a gente brigava muito e eu falava tudo para ele. Só que naquele momento xinguei, era menino, não tinha papas na língua – relembra Mauricio.

A promessa do Campeonato Catarinense de 2012 foi afastada da equipe e nem sequer no banco de reservas ficou para a partida que deu o título ao Avaí. Foi também nessa época, do afastamento, que uma convocação para a Seleção Brasileira sub-20 foi barrada após troca de informações entre clube e CBF. Ele admite que ouviu boatos relativos a isso na época, mas não procurou saber se era verdade porque “não quer essa mágoa” para ele.

Mauricio é o terceiro campeão agachado, da direita para a esquerda (Foto: Divulgação)

Mauricio é o terceiro campeão agachado, da direita para a esquerda (Foto: Divulgação)

Roda mundo, roda gigante
Do Avaí, Mauricio passou a se aventurar no interior de São Paulo. Ele queria ser jogador profissional de uma vez, ainda mais depois de ficar sabendo que seria pai… Lembra das questões familiares? Pois é. Os representantes do atacante conseguiram encaixá-lo no Oeste de Itápolis, mas a experiência não foi muito positiva. “Meu empresário estava investindo no clube, então eu fui meio que como uma troca. Fiz a pré-temporada inteira e descobri antes de começar o campeonato que decidiram não me inscrever”. Apesar da decepção, ele seguiu. Até…

– A gente treinava no campo do Sesi, não tinha nem rede no gol. Você não tinha vontade de chutar a gol, porque tinha que andar 200m pra buscar a bola. Senti muito esse negócio de estrutura. O que eu to fazendo aqui? Tudo bem. Até que um dia voltei do treino e minhas coisas estavam bagunçadas, meu celular e outros pertences não estavam mais lá e fui reclamar com o presidente. Ele foi arrogante comigo, mas tudo bem. Aí no dia seguinte teve jogo e fui assistir. Estávamos ganhando e no intervalo encontrei o presidente, que falou que aquilo sim era time de homem, que só jogava quem ralava a bunda no chão. Começou a brigar comigo do nada e deu uma confusão, mas ele estava cheio de seguranças e ficou por isso mesmo. Mas saí fora do clube.

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Depois de lá, Mauricio foi para o Mogi Mirim, onde não teve muitas chances, e para o Mirassol, clube em que enfim conseguiu jogar, sendo até um dos artilheiros da Copa Paulista de 2013, com sete gols marcados em 15 partidas. Porém, um problema de saúde de seu filho recém-nascido, que ficou três semanas internado, atrapalhou a mente e os planos do atacante no interior paulista. Ausente em alguns treinos, foi perdendo espaço no clube do interior e acabou não renovando o contrato. Passou discretamente pelo Red Bull e logo foi para o Penapolense.

– Confiei num empresário que estava montando um time legal no Penapolense e fui. Aluguei uma casa na cidade para eu, minha mulher e meu filho e paguei quatro meses adiantado. Enxuguei tudo o que eu tinha no banco. É claro que fiquei sem receber. Foi uma palhaçada de diretor, empresário, um jogando para o outro. Fui emprestado ao Boa Esporte e não joguei e depois voltei pra Penápolis. Continuei sem receber salário e precisando pagar as contas…

Na época, Mauricio abriu um negócio junto com o irmão e de uma loja eletrônica vinha o sustento no momento em que o futebol só causava desilusão. “Não dava nada de dinheiro, só para pagar as contas. Acho que meu irmão via a situação ruim que eu estava e me dava o lucro dele também. Mas foi assim que me sustentei até acionar a Justiça e eles me pagarem uma parte. Mas ali já estava desiludido, queria parar”, relembra.

Pediu pra parar, parou
Sem clube e nem perspectivas, Mauricio voltou a São Paulo e começou a trabalhar com o pai numa loja. Podia acordar tarde, não tinha obrigação de treinos e recebia um salário. Baixo, mas recebia. As coisas começaram a ficar confortáveis de novo, mas o jogador viu que era passageiro. A escola do filho, as contas que se acumulavam. E o sonho, ficou mesmo para trás?

Longe de casa… há mais de uma semana
Um empresário de um ex-companheiro de Barueri convenceu Mauricio a aceitar uma oferta do Kiryat Shmona, de Israel. Era novembro de 2015, quase um ano depois do atacante desistir da carreira. Ele repensou justamente por conta da oferta salarial em valores superiores ao que recebia na loja do pai. O pensamento era principalmente em sustentar o filho, oferecer uma condição melhor. E dali a aventura começou. Quando chegou, foi emprestado ao modesto Ashdod, da Segunda Divisão do país. Segundo Mauricio, é “o time de um empresário que é muito gente boa e tem muito dinheiro”. Com sete gols em dez jogos, ele caiu nas graças da torcida logo no início da passagem pelo clube, que subiu para a elite de Israel. Por isso, na temporada seguinte, Mauricio começou a ser aproveitado pelo clube que o trouxe do Brasil.

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– Cheguei com caxumba, acredita? Aqui eles nem sabiam o que era isso direito, mas estava tendo surto no Brasil e eu acabei pegando. O time foi para a pré-temporada na Eslováquia e eu fiquei de repouso aqui, sozinho.

Quando o time voltou, Mauricio foi integrado aos treinamentos e começou a jogar. Hoje, o Kyriat Shmona é quarto colocado da liga local e briga por uma vaga na próxima edição da Liga Europa. O atacante brasileiro tem seis gols na temporada, sendo quatro no campeonato nacional, em que reveza participações como titular e reserva. O futebol vai bem. E o comportamento?

– Hoje é do treino para casa, da casa para o treino, Netflix e pronto. Gosto de sair, ir num barzinho, mas não vou pra bagunçar, mas escutar música, conversar, sair do meio do futebol, ter um tempo para o Mauricio. Foi difícil a adaptação, mas hoje me sinto bem, já fiz amizades na cidade, tenho amigos, amigas, converso, todo dia estou com alguém, peguei amizade com o pessoal do time. Estou gostando demais e sei que posso crescer aqui dentro.

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Errar é humano.



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