Um ‘catadão’ virou o Atlético de Madrid do interior. O capitão que há dois anos fazia caipirinha e lanches vai explicar o motivo



Gutierrez começou no futebol como qualquer outro menino, no futsal e nos campeonatinhos da região onde morava. O talento precoce foi descoberto aos 14 anos, pelo Paulista de Jundiaí. Os caminhos da bola o levaram ao Novo Hamburgo-RS e até mesmo ao Grêmio, clube em que assinou seu primeiro contrato profissional, ainda como juvenil. O problema é que as coisas não caminharam muito bem por lá. Disseram que ele “tinha uma técnica boa, mas faltava um pouco de pegada”. Foi dispensado. E aí?

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– Começou 2014 e eu acertei com a Inter de Limeira para jogar a A3 do Campeonato Paulista, mas fiquei só uns quatro dias lá e desanimei. Eu estava namorando, meio com saudade de casa e não quis ficar lá. Aí voltei para casa e pensei muito em parar de jogar bola, se eu queria continuar. Aí o tempo foi passando, eu não queria sair de perto dos meus pais e decidi parar de jogar bola – revela o garoto.

Na época das dúvidas, Gutierrez começou a fazer uns bicos em uma pousada da cidade de Olímpia, onde nasceu. A mãe, Jucelaine, trabalhava por lá e arrumou um emprego para o filho. Uma das coisas que motivou a parar de vez com o futebol foi a proposta de efetivação na pousada. De zagueiro do Paulista, do Novo Hamburgo, do Grêmio e da Inter de Limeira, Gutierrez virou auxiliar de chapeiro na lanchonete da pousada Brilho do Sol. Os caminhos da bola, né?

– Lá tinha um bar da piscina, como chamavam. Nesse bar eu fazia de tudo. Fazia lanche, as porções, fazia batida, caipirinha, suco, limpava tudo, estocava as coisas, fazia pedidos de mercadoria, fazia de tudo. Eu cheguei como auxiliar de chapeiro e saí como coordenador da lanchonete – diz Gutierrez, que ficou um ano como funcionário registrado da pousada. Futebol era coisa do passado. Era?

– Meu pai ficou muito chateado quando eu disse que queria parar. Ele sempre jogava na cara quando eu falava que estava cansado ou reclamava do serviço: “Tá vendo? Quis parar de jogar bola…”. Já meu procurador sempre deu moral, mandava mensagem dizendo que era um desperdício eu ter parado, dizendo que o melhor zagueiro 96 do país estava em Olímpia fazendo lanche, sempre brincando. Mas ele sempre falava que tinha esperança que eu voltaria.

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Gutierrez voltou. Entre escola e trabalho, ficava fora de casa das 7h às 22h. Só tinha uma folga por semana e tempo nenhum para jogar bola, nem de brincadeira. Cansou. Como tinha algum currículo, arrumou um teste na Ponte Preta e foi aprovado para a própria surpresa. Ficou um ano no sub-20 da Macaca e neste ano, por indicação do técnico Élio Sizenando, fechou com o Capivariano para a disputa do Campeonato Paulista sub-20.

Sim, o Capivariano. Já falei dele aqui no blog. O time que fez a melhor campanha da história da primeira fase em um Paulistão sub-20 e está na final contra o São Paulo. Uma zebra em meio aos gigantes e que tem como capitão o zagueiro Gutierrez, que há dois anos fazia caipirinha e preparava lanche em Olímpia.

O Capivariano sub-20

Gutierrez é um entre tantos exemplos do processo de captação que formou o elenco do Capivariano em 2016. Ele veio de time grande, já tinha experiência em competições importantes e qualidade reconhecida, ainda que ainda não tivesse despontado. Como ele há vários no elenco atual. E está dando certo.

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– Nosso elenco foi formado meio na correria, um mês antes de começar o campeonato. Bastante menino veio de time grande, mas todos desacreditados, que tinham sido dispensados, que não seriam aproveitados. Outros, como eu, em término de contrato. A gente diz brincando que é tipo um catadão. Mas tem muito menino rodado, que já jogou campeonato nacional e tem bagagem – diz o capitão.

O catadão virou a maior surpresa do futebol de base paulista em 2016. Ou melhor, o catadão virou o Atlético de Madrid do interior. Calma. O Gutierrez explica melhor.

– O Élio, nosso treinador, passou bastante vídeo do Atlético de Madrid, que é um time que defende muito bem e tem a transição ofensiva muito rápida. Por isso que nós tentamos nos defender bem e quando temos a bola sempre damos amplitude para frente e fazemos a transição rápida, o que surpreende o adversário. Com dois ou três toques já estamos no campo do adversário. Não somos um time tão ofensivo, mas nós surpreendemos. Sabemos a hora certa de pressionar os caras na defesa deles e a hora de deixar eles jogando no nosso campo. E também estudamos muito o adversário, a comissão passa muitas informações e sempre sabemos muito bem quem vamos enfrentar, características dos times, dos jogadores, jogadas ensaiadas, tudo.

Surpresa? Talvez não.



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