Plandemia: a epidemia planejada?



Plandemia: a epidemia planejada?

 

Nas duas últimas décadas, surgiram diferentes infecções fatais por b-coronavírus: a síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV) e a síndrome respiratória no Oriente Médio (MERS) (1). Recentemente, casos de uma nova doença (COVID-19 causada pelo SARS-CoV-2) surgiram em Wuhan, na China, causando uma pandemia mundial. O SARS-CoV-2 é o sétimo coronavírus conhecido por infectar humanos e temos claras evidências científicas de que este vírus não é oriundo de uma manipulação acidental ou proposital (2, 3).

 

Figura 1. Modelo 3D do SARS-CoV-2 baseado em dados científicos atuais.

 

Dentro da nova proposta do Cameron’s Drink, analisarei sob minha perspectiva o vídeo “Plandemia”, da Dr. Judy Mikovits. Não é meu objetivo aqui falar do passado e do que aconteceu com a Dr. Mikovits com seu famoso (no mau sentido) artigo “Detection of an infectious retrovirus, XMRV, in blood cells of patients with chronic fatiue syndrome” na renomada revista Science (4), que não foi reproduzível e parcialmente retratado (5, 6). Desejo analisar o vídeo e suas afirmações sobre a pandemia da COVID-19. Seu impacto foi tão grande que provocou que YouTube, Facebook e outras plataformas sociais o banissem.

 

O vídeo começa falando que a Dr. Judy Mikovits foi considerada uma das mais talentosas cientistas de sua geração. Entre 1986 e 2012, publicou 34 artigos (1.3 artigo/ano). Não creio que isto a caracterize como um dos mais talentosos cientistas de uma geração. O número de trabalhos publicados não é, certamente, o melhor indicador da qualidade de um cientista, mas usando este parâmetro diria que ela está bem baixo na lista. Conheço os bastidores da ciência praticada pelos cientistas top 10 em diversas áreas no planeta. E, seguramente, estes não estão acima do bem e do mal. O modelo da necessidade científica de reprodução dos dados pode, às vezes, atrasar a implantação de resultados, mas seguramente aumenta a segurança e protege as pessoas.

 

Fico pensando como as mesmas pessoas que renegam o método científico se utilizam de suas conquistas. Tenho visto isto na pele. Várias pessoas que me diziam que eu era um parasita da sociedade e que pouco trabalhava hoje me mandam quatro a seis mensagens por semana pedindo que eu dê minha posição sobre um achado ou um procedimento. Há um crescimento da cultura da ignorância no mundo e no Brasil (tratei disto anteriormente neste blog). Nesta cultura da ignorância, colocar o método científico como algo malicioso tem terreno fértil.

 

Figura 2. Capa original do Discurso do Método de René Descartes

 

Começamos então a saga da Dr. Mikovits. Não quero negar que pode ter havido, de fato, um duelo David x Goliath. Mas é importante explicar que quando se trabalha em laboratórios comerciais, há uma série de contratos de confidencialidade tratando da proteção de dados. Não sabemos todas as percepções dos fatos, mas gostaria de ressaltar que trabalhar em uma indústria farmacêutica torna o pesquisador, muitas vezes, parte de uma engrenagem. Isto significa que, naquele local, os fatos acontecem sob sigilo e não podem ser revelados. Se anotações ou arquivos sumiram, isto pode ser considerado furto (não sei aqui o termo legal adequado) e, portanto, passível de punição. Ademais, segredos de justiça são aplicados, suponho eu, em quase todo o mundo como uma medida de proteção processual.

 

Passando por Galileo, muitas vezes os cientistas se levantaram contra o status quo. De novo, duelos David x Goliath, em lutas pela verdade científica, são uma constante na Ciência. Se minha memória não falha, o método científico sempre ganhou. No vídeo se vê, então, a mudança de narrativa, uma passagem sutil do que aconteceu no passado e as atitudes atuais do Dr. Anthony Fauci. O Dr. Fauci é Médico e Diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas nos USA, desde 1984. Este sim, um dos mais renomados cientistas do planeta. A meu ver, aqui começa uma versão muito perigosa dos fatos e, sobretudo, delicada. Não sou capaz de julgar o comportamento anterior do Dr. Fauci, mas os autores usam isto para desacreditar e para construir a ideia de “crise planejada e deliberada” em relação a COVID-19. Difícil cotejar a trajetória científica e, portanto, posta a prova por inúmeras vezes do Dr. Fauci e da Dr. Mikovits.

 

Figura 3. Galileo perante o Santo Ofício no Vaticano. Joseph Nicolas Robert Fleury (1847)

Neste momento, se fala no vídeo de um artigo que estava in press (ou seja, aceito, mas ainda não publicado) e os problemas editoriais entre a Dr. Mikovits, o grupo do Dr. Luc Montagnier e Dr. Robert Gallo (ambos, apesar de suas disputas, ganharam o prêmio Nobel). As contendas entre pesquisadores e suas patentes realmente acontecem e, é claro, há condutas inapropriadas como as descritas. A confirmação de dados é sempre um dos pilares da Ciência. Mais uma vez, percebo a confusão de narrativa ao colocar os processos como maléficos. Sim, é verdade que muitas vezes o processo, em si, retarda a aplicação da ciência, mas, asseguro que, na maioria das vezes, o método nos protege. Inserir a narrativa de que milhões de vidas foram perdidas na África por conta do atraso causado pelo status quo parece ter sido um certo exagero (ou maledicência) para mexer com as emoções de quem assiste.

 

A disputa de patentes é uma realidade, assim como os erros de terapia. Mas, creio que o vídeo presta um desserviço ao discutir estes assuntos de forma superficial e trazendo insegurança a quem o assiste. Desde que o mundo é mundo, há mecenas das arte e da ciência. Não aceito a ideia de que multibilionários, como Bill Gates (citado no vídeo) são necessariamente maus ou interesseiros da mesma forma como não aceito que todos os cientistas ou religiosos são franciscanos e honestos. Tenho visto de perto como o poder estabelecido promove campanhas de forma a denegrir seus desafetos. Conheço o poder do status quo e a força multibilionária das indústrias farmacêutica e de alimentos, mas tenho cuidado em usar esta explicação para as agruras da humanidade. Decerto há humanos e corporações muito poderosas, mas o modelo no qual a Ciência tem se baseado minimiza este poder.

 

O vídeo mostra dezenas de possibilidades reais misturadas com fatos questionáveis. Há corrupção em qualquer lugar onde haja humanos com n que seja diferente de zero (ou seja se houver um humano apenas). A Ciência e o método científico têm protegido muito mais do que prejudicado a humanidade.

 

Sobre o vírus ser ensinado, há muitos trabalhos no uso de vírus para utilização em terapias, melhoramento ou doping gênico. Vírus são máquinas de inserir material gênico em células. Usamos vírus para isto há décadas (leia esta excelente revisão em português, (7)). É claro que ensinar baixa letalidade ao Ebola aproveitando sua infectividade é um projeto científico óbvio. Colocar esta frase, totalmente verdadeira, como uma afirmação solta é obviamente para criar pânico. Há dezenas de microorganismos que foram ensinados a produzir insulina ou hormônio de crescimento (GH). Proporcionando que produzíssemos proteínas com ação terapêutica. Quem negaria a seu filho o uso de insulina idêntica a humana pela suína ou bovina (com um ou três aminoácidos diferentes da humana) e, portanto, maior imunogenicidade e alergogenicidade (capacidade em gerar imunidade ou alergia). A produção de insulina humana em larga escala para uso terapêutico somente foi possível graças a técnicas de biologia molecular. Notem que há 40 anos atrás as formas de insulina para uso terapêutico eram purificadas de suínos ou bovinos e a purificação de GH somente era possível a partir de cadáveres por causa da especificidade do GH (que é dependente de espécie, (8)).

Figura 4. Vídeo de um Bacteriófago infectando uma bactéria.

 

Creio que a Vida é pródiga e os diferentes vírus são das maiores demonstrações disto. Minha lição desta crise é: nada de novo no sistema biológico. Os vírus estão fazendo o que mais gostam de fazer (e nós também): perpetuar seu conteúdo gênico. O SARS-CoV-2 tem altíssima “inteligência biológica”: alta infectividade e baixa letalidade. Há fortes evidências de que o SARS-CoV-2 não foi manipulado. Aí reside a diferença entre a posição de um cientista e um alarmista.

 

Notem que, na minha opinião, os humanos sempre valorizaram sua presença no planeta e não aceitam o fato de que a vida apenas fez o que sempre faz: evoluir. “Desejo” este compartilhado por nós, salamandras, ornitorrincos, samambaias e o SARS-CoV-2. Acredito que querer colocar uma inteligência por trás de eventos randômicos apenas dificulta nossa reação. No momento, temos que lidar com um vírus.

 

A questão ainda não respondida é: o vírus se imiscuiu no mundo por um vazamento de algum laboratório ou biobanco que o armazenava ou por conta do contato do homem com a natureza. Cuidemos disto sob o ponto de vista biológico e epidemiológico, deixemos a análise econômica e jurídica aos que para isto estudaram e deixemos a investigação da origem do vírus para os historiadores.

 

Sou apenas um Bioquímico de Proteínas. Não sou virologista ou microbiologista. Outro ponto que me assusta é quando a “talentosa” Dr. Mikovits fala que seriam necessários 800 anos para o aparecimento do SARS-CoV-2. Já se perguntou por que tomamos vacina para gripe anualmente? É por conta de mutações virais. E que acontecem em um ano ou menos. Por que bactérias se tornam resistentes a antibióticos? É por conta de mutações. Que ocorrem em poucas gerações (de bactérias). Até agora me pergunto de onde saiu a conta dos 800 anos.

 

Depois o vídeo segue “convidando” o público a discutir se morremos “com” ou “de” uma infecção. Procurar retórica justamente num momento em que devemos explicar é como tentar apagar o carvão do churrasco abanando. O papel dos cientistas é o de se aliar entre si e todos os segmentos da sociedade, para ajudar neste problema. Não acredito em qualquer pessoa que queira plantar uma verdade, como absoluta, num momento onde estamos tateando por soluções.

 

A abordagem conspiratória sobre a questão das certidões de óbitos é, para mim, no mínimo fantasiosa. Se o pouso na lua foi falsificado, pergunto então por qual motivo os russos nunca revelaram a “fraude”? E por qual razão nenhum dos participantes da “fraude” na NASA veio a público até hoje? “Fear is a good way to control people” (me lembrou o clássico “Bowling in Columbine” – M. Moore).

 

É óbvio que pacientes com COVID-19 têm alto custo. E o sistema de saúde paga por isto. Notem que se há qualquer interesse em que haja super-notificações, se esqueceram de falar de outra potência financeira, a dos planos de saúde, que também tem perícias. Ou seja, sugerir que os pacientes estão indo para ventilação por ser mais caro é ignorar que isto é pago nos Estados Unidos e no Brasil pelos planos de saúde ou SUS (também tem perícia). Pensemos no caso do Brasil nos planos de saúde, que sempre foram acusados de minimizar os cuidados para aumentar o lucro. Agora resolveram aumentar seus custos? Ademais, se o paciente morrer, como dito no vídeo, os planos de saúde deixam de vender. Mas achemos que há uma conspiração global para isto. Estão centenas, milhares de médicos e profissionais de saúde mancomunados com isto? Me parece a situação do pouso na Lua ao contrário.

 

Vacinas são feitas de antígenos atenuados. Dizer que uma vacina não testada foi administrada na Itália beira para mim o impossível. Adicionar que cachorros são portadores de coronavírus é criar uma relação de causa e efeito perniciosa. Suponha que a vacina do mal foi administrada em 2019, em idosos italianos com o comprometimento imune típico dos idosos, por que o a doença se instalou no norte da Itália em fevereiro de 2020? Se o vírus tem uma incubação de 7-10 dias? Se o vírus que estava na vacina foi o causador, por que esperou, no mínimo, dois meses? Para disfarçar? É mais fácil acreditar numa conspiração de um vírus (e note que todos os vírus que conheço são honestos em suas intenções) ou num engano de julgamento de um executivo que achou que o vírus não seria problema?

 

Como já disse algumas vezes para alguns, o vídeo me parece um romance de espionagem, onde o autor mistura fatos com ficção para que no fim não saibamos, na trama, a realidade que se desenrola.

 

A narrativa mistura fatos cientificamente comprovados com opiniões e vivências (sem o necessário filtro do método científico). O método científico nos protege e me treinou para evitar a imaginação.

 

Costumo usar a lenda dos centauros na Arcádia como exemplo. Um pastor de ovelhas, tendo as esplendorosas noites como cenário, deixava sua imaginação livre e, de suas aventuras sexuais com os quadrúpedes, nasceram obviamente as quimeras que conhecemos (centauros, minotauros e sátiros). Pois na imaginação do pastor, era possível supor a fertilização entre espécies diferentes.

 

Figura 4. Quimeras mitológicas gregas.

 

E nesta mesma linha de raciocínio (ou imaginação), nossa colega imunologista ou cientista fez uma quimera de várias espécies e conhecimentos. Não tenho capacidade ou intenção de julgar se foi de forma maliciosa ou não, mas acredito que prestou um desserviço aos humanos.

 

O repórter então faz uma pergunta sobre remédios naturais. E o vídeo desanda mais ainda. E claro, tinha que de alguma forma incluir a Monsanto. Não estou defendendo esta ou aquela companhia, mas sim discutindo que nem tudo o que é natural é saudável (peçonha de cobra ou salada de comigo-ninguém-pode, por exemplo, são naturais). O repórter também cita a Bayer. Conheci de perto e convivi por pelo menos uma década com o antigo Vice-Presidente mundial da Bayer. Considero-o uma das pessoas mais sérias e honestas com quais tive o prazer de compartilhar minha trajetória pessoal e científica.

 

Quando um profissional não identificado entra dizendo que não precisa máscaras, me senti vivendo no mundo pré-Semmelweis (grande médico que, em meados do século XIX, ou seja, quase duzentos anos atrás, enfrentou a comunidade em prol de melhores condições higiênicas ao observar, em necropsias, a ligação entre a febre puerperal e mãos contaminadas). A situação se complica quando a Dr. Mikovits diz frases como: “Usando máscara você ativa seu próprio vírus”, “micróbios de cura na água salgada”. Tenho estudado a importância do microbioma há pelo menos uma década e realmente acredito ter havido uma mitificação (de novo não sei se ingênua ou maliciosa) aqui.

 

 

Figura 4. Ignaz Semmelweis e a antissepsia.

 

O fim do vídeo é bastante passional. Fala-se de “verdade”. Eu entendo que há, em cada observação, n + 1 interpretações, onde n é o número de observadores e 1 é o fato. Concordo que lutar contra o status quo científico é muito árduo, mas faz parte do processo de inovação. Voltemos a Galileo, Semmelweis ou, mais recentemente, Barry Marshall (Nobel de Medicina, que ingeriu uma carga enorme de bactérias e desenvolveu úlcera gástrica, curando-se com antibióticos). Não concordo que haja uma conspiração planetária se aproveitando da COVID-19. Há sim, a sensação terrível de que pouquíssimo sabemos sobre o nosso planeta. E por mais duro que eu possa parecer, não há recursos terapêuticos em consenso, ainda, para combatermos a infecção. E não sabemos quanto tempo demorará.

 

Figura ?? Barry Marshall e a ingestão de H. Pilori.

 

Gostaria de ressaltar que a maioria absoluta dos remédios, vacinas e equipamentos que você usa diariamente é advinda da pesquisa científica. E no caso do Brasil, originam-se de Instituições públicas de ensino e pesquisa. Apoie, portanto, a Ciência verdadeira, os cientistas e todas as pessoas que dedicam suas vidas a obtenção do conhecimento. Lembre-se de que você nunca saberá quando precisará de um novo remédio ou uma nova vacina. Cuide-se e de sua família.

 

E para finalizar uma frase do mestre Carl Sagan: “Mas eu posso estar errado”.

 

 

 

(Há partes neste comentário, aproveitadas de outros comentários prévios, que explicam meus pensamentos em geral. Podem parecer corte e cola, e são, pois refletem meus pensamentos viscerais)

 

Agradecimentos: Gostaria de agradecer aos meus colegas que leram e me ajudaram a tornar este comentário mais palatável e agradável ao leitor.

 

Referências Bibliográficas:

  1. C. Huang et al., Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, China. Lancet 395, 497-506 (2020).
  2. K. G. Andersen, A. Rambaut, W. I. Lipkin, E. C. Holmes, R. F. Garry, The proximal origin of SARS-CoV-2. Nature Medicine, (2020).
  3. M. Adnan Shereen, S. Khan, A. Kazmi, N. Bashir, R. Siddique, COVID-19 infection: origin, transmission, and characteristics of human coronaviruses. Journal of Advanced Research, (2020).
  4. V. C. Lombardi et al., Detection of an infectious retrovirus, XMRV, in blood cells of patients with chronic fatigue syndrome. Science 326, 585-589 (2009).
  5. R. H. Silverman et al., Partial retraction. Detection of an infectious retrovirus, XMRV, in blood cells of patients with chronic fatigue syndrome. Science 334, 176 (2011).
  6. G. Simmons et al., Failure to confirm XMRV/MLVs in the blood of patients with chronic fatigue syndrome: a multi-laboratory study. Science 334, 814-817 (2011).
  7. B. d. A. Oliveira, E. d. S. França, V. G. Souza, A. C. R. Vallinoto, A. N. M. R. d. Silva, Vetores virais para uso em terapia gênica. Revista Pan-Amazônica de Saúde 9, 57-66 (2018).
  8. V. S. Ayyar, History of growth hormone therapy. Indian J Endocrinol Metab 15 Suppl 3, S162-165 (2011).

 



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