Sobre os Suplementos e a Maldição Brasileira da Superficialidade. - Cameron’s Drink

Sobre os Suplementos e a Maldição Brasileira da Superficialidade.



Saudações.

Ouvi, de uma pessoa muito interessante intelectualmente, uma frase que sintetizou o que penso há anos: “Meu pai é hipertenso há anos e já fez duas angioplastias com colocação de stent, isso não o habilita a clinicar como cardiologista ou cirurgião cardíaco”. Essa frase resume o que chamo de: a maldição brasileira da superficialidade (minha experiência internacional me mostra que essa conduta é mundial, mas tenho a impressão de que se sobressai em nossa cultura). O fato de você haver voado um milhão de milhas como passageiro, não o certifica a ser piloto; assim como o fato de haver sido atleta ou ter o corpo sarado não o certifica a prescrever exercício, nutrição ou conduzir grupo de pesquisa em exercício. O conhecimento empírico, é sim, importante, mas é apenas o início da observação e do longo e árduo caminho da descoberta.
Vivemos, diariamente, a ditadura da superficialidade. Sou professor universitário há três décadas e me ressinto disso. A internet e as redes sociais nos expõem a uma grande quantidade de informações e as massas ignorantes (todos somos essencialmente ignorantes em quase tudo) achando que podem opinar sobre quase qualquer assunto. De uma forma geral, nossa cultura dá limitada importância a construção e se preocupa mais com os resultados. Como resultado disso, somos habituados a interagir com profissionais com conhecimentos superficiais. Um elogio para a mediocridade.
Gosto de comparar as reações metabólicas que acontecem nos organismos a um mapa de uma grande cidade. Imagine o seguinte cenário: uma pessoa saindo do ponto A ao ponto B pode usar várias rotas e vários meios de transporte. A velocidade dos transportes escolhidos, o trajeto e o número de baldeações que fizer, acarretará na eficiência e eficácia. É impossível acreditar que sabendo o ponto de partida e chegada determinar a trajetória, paradas e transporte escolhido. Assim tratar a complexidade das reações que acontecem num sistema biológico com superficialidade é no mínimo ingênuo (podendo ser criminoso).
Temos diversos exemplos bem descritos atualmente: alguns prescrevendo reposição hormonal, nutrição, meditação, salto quântico e energia negativa (seja lá o que isso for…); outros que fazem procedimentos em casa, medicina integrativa ou ortomolecular e sabe-se lá o que mais. O ponto central é que estes influenciadores digitais (aprendi a nomina há uma semana) tem quase um milhão de seguidores cada.
Percebo que há nestes influenciadores digitais, numa análise superficial, dois grandes grupos: os ingênuos, que acham que tem o conhecimento suficiente para sugerir, prescrever ou indicar procedimentos em saúde e os dolosos, aqueles que se aproveitam da ignorância alheia (reafirmo que somos ignorantes em quase tudo) e de seu poder de comunicação.
Me recordo de minha primeira experiência científica no mundo do esporte. O treinador/técnico do time, jocosamente me perguntou: “Dr., mas isso ai faz o cara fazer gol? O Negão (referindo-se a Pelé, numa época em que não era incorreto falar assim) nunca fez isso e fazia gol”. Vinte anos depois continuo escutando o mesmo tipo de pergunta de uma forma ou de outra. Muitos atletas, técnicos e dirigentes esportivos escutam os aconselhamentos profissionais com a mesma forma de que vão comprar um eletrodoméstico: fazendo pesquisa na internet, comparando preços e “likes”, assim quanto mais seguidores o profissional tiver, melhor é a qualidade de seu trabalho. Acreditam que é normal pagar centenas de milhares de dólares anuais por um atleta ou um técnico, mas acham que a ciência séria é cara.
Há muitos que agem como se a política no esporte seja mais importante do que a técnica ou a preservação do atleta ou praticante de atividade física. Pode-se ver claramente o resultado disso: Hoje há um verdadeiro tráfico de fármacos nos ambientes esportivos. Há ainda a venda desenfreada de “suplementos” nutricionais (prescritos por profissionais de saúde ou não). A própria definição de “suplementos” é difícil, mas acho que para simplificar nosso texto, podemos aqui defini-los como uma substância dietética, na maioria das vezes concentrada, utilizada com o objetivo de ampliar a ingestão diária de um determinado macro ou micro nutriente (esta definição é extremamente falha e serve apenas para o entendimento deste texto).
Os resultados científicos são claros de um modo geral, cerca de uma dezena de suplementos esportivos são realmente efetivos (não acredite em mim, verifique na excelente classificação e serviço público da Comissão de Esportes da Austrália, https://www.ausport.gov.au/ais/nutrition/supplements/background) ou se preferir uma revisão mais detalhada acesse o consenso do Comitê Olímpico Internacional recentemente publicado no British Journal of Sports Medicine (http://dx.doi.org/10.1136/bjsports-2018-099027).
É importante perguntar: quem realmente necessita de “suplementos”. Poderia responder que trabalhamos por duas décadas com diferentes atletas de nível olímpico em distintos países, estes atletas juntos ganharam dezenas talvez centenas de medalhas em competições mundiais; sul-americanas; pan-americanas, asiáticas e olímpicas sem uso de “suplementos”. A questão reside em perguntar: precisa o praticante de atividade física recreacional ou amadora de suplementos? Acho que o leitor pode formar sua própria a resposta a partir da leitura do texto.

(esta discussão foi inicialmente postada do Jornal O Dia (A Maldição Brasileira da Superficialidade, https://odia.ig.com.br/opiniao/2018/08/5570225-os-likes-e-os-riscos-a-saude.html) e acredito que seja importante para o entendimento do próximo post.



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