Há 12 anos, um trio genial atrasava restauração do domínio americano - Café Belgrado

Há 12 anos, um trio genial atrasava restauração do domínio americano



Semifinal do Mundial do Japão de 2006. Já está distante no tempo e parece longe o suficiente para virar reminiscência. Meus cabelos brancos já se anunciam, informando de um jeito que não tem como desviar o olhar diante do espelho. Era pouco mais que um menino quando vi Diamantidis, Papaloukas e Spanoulis dividirem o mesmo espaço de chão. Foi um choque, confesso.

Há 12 anos, eles cometiam a sua maior façanha: demoliam a primeira tentativa de reconstrução dos Estados Unidos depois dos fracassos do Mundial de 2002 e das Olimpíadas de 2004. Esse trio, insuperável, maravilhoso, inacreditável, empurrou para Pequim a retomada da hegemonia estadunidense no basquete internacional. Nunca me esquecerei daquele dia.

Spanoulis, anos depois (FIBA Europe)

Esse time já havia se acostumado com os grandes feitos. O Panathinaikos e o Olympiacos, base do basquete grego, já haviam se estabelecido como grandes potências europeias e mesmo a seleção helênica havia dado aula n Eurobasket um ano antes. O Mundial de 2006, no entanto, legaria para a história uma das maiores atuações que um trio de jogadores foi capaz de desempenhar. Contando, assim, é provável que o amigo não acredite. É difícil mesmo de acreditar.

Não é regra, mas quantas histórias fabulosas vocês já não ouviram que se iniciou de modo improvável? No caso da Grécia, o triunfo heroico, histórico, incomparável, começou a se tornar possível com a “ajuda” de um brasileiro: Anderson Varejão. Foi ele quem tirou de combate Zisis, um armador fundamental para a rotação grega até então.  Isso sobrecarregou o perímetro e basicamente obrigou que Diamantidis, Papaloukas e Spanoulis ficassem em quadra o maior tempo possível. Nada contra Zisis, mas isso acabou se mostrando menos um problema e mais uma solução. Os três controlaram o time e dominaram a competição a partir dali e no duelo contra os Estados Unidos construíram uma atuação de gala.

Diamantidis / FIBA Europe

Contra os americanos, Diamantidis, o espetacular e lendário canhoto, desempenhando funções táticas inacreditáveis, defendendo e atacando, controlando e dominando, jogou impossíveis 39 minutos. O Mago Theo Papaloukas, o senhor do tempo, 33. Spanoulis, assassínio, 30. Três armadores clássicos? Três “combo-guards”? Três ala-armadores? Não sei. Sei que essa trinca, articulando-se e complementando-se, brindou o basquete com uma jornada que entrou para história.

Uma dúzia de anos. Meu Deus! Ninguém vai pedir pro relógio andar mais devagar? Correndo assim, amanhã já terá sido o tempo de Giannis, Porzingis, Jokic. É engraçado imaginar que dois desses três gênios já até se aposentaram. Spanoulis restou, ensinando, dia após dia, o que é jogar basquete. Não é por acaso que o nosso querido Luka Doncic tenha escolhido seu número precisamente inspirado em V-Span. Na NBA, o levará duas vezes: 77, duas vezes Spanoulis! Meu Deus!

[Devo dizer, para não parecer injustiça, em um grande parágrafo parênteses: esses craques, com notável ajuda de nomes como Kakiouzis, Baby Shaq, Fotsis – nesta ocasião, desamparado sem seu par-ideal, Bourousis, e outras grandes peças. Criou-se um discurso, desde que os Estados Unidos voltaram a vencer, de que o que faltava para eles era “organização”, “conseguir levar os melhores”. É um modo excepcional de obscurecer as façanhas que impediram a dominação estadunidense.]

Papaloukas, o mago (FIBA Europe)

Naquela noite, LeBron James (22 anos, 3 de NBA), Carmelo Anthony (23 anos, 3 de NBA), Wade (24 anos, 3 de NBA), Chris Paul (21 anos, um de NBA), Dwight Howard (21 anos, 2 de NBA) receberam uma aula de basquete. Posso dizer que deve ter servido de algo. Ninguém dirá bravatas como essas em dez anos. Nem hoje dizem mais. Outros nomes, coadjuvantes se pensarmos agora, mas de então ótima trajetória na liga, como Joe Johnson, Elton Brand, Kirk Hinrich, Shane Battier, também compunham o time que tomou esse banho de bola. Quer mais? O time já era comandado por Coach K, aquele que lideraria a trajetória americana na retomada da hegemonia do Mundo FIBA. Os EUA perderam porque enfrentaram três gênios do basquete em uma noite genial.  “A pior derrota que eu já sofri”, um dia admitiu, o garboso, vaidoso e competentíssimo técnico de Duke.

Foi uma época em que era possível vencer os Estados Unidos. Talvez hoje não haja mais essa possibilidade. Um pouco porque as gerações americanas são melhores. Um pouco porque as gerações europeias ainda não mostraram a força mental e o talento excepcional de argentinos, gregos, lituanos e espanhóis da primeira década do século XXI. Naquele Mundial, especificamente, os EUA já julgavam ter força o suficiente para restabelecer o domínio. Venceram todos os adversários e chegaram às semifinais invictos. Havia um trio de gregos mágicos no caminho. O resultado foi esse baile que o Youtube guardou para admirarmos eternamente.

 

Na final, os gregos tomaram um improvável sacode da Espanha, que jogava inclusive sem Pau Gasol, uma das partidas mais estranhas de todas que já acompanhei na vida. Isso fica pra outra conversa. Por hoje, celebremos essa trinca que marcou época.



MaisRecentes

Análise Tática NBB: Vasco, por Rodrigo Galego



Continue Lendo

Corinthians faz peneira de Basquete na próxima semana



Continue Lendo

Análise Tática NBB: o Flamengo, por Rodrigo Galego



Continue Lendo