Eliminatórias FIBA: o problema tático que a ausência de alas traz ao Brasil - Café Belgrado

Eliminatórias FIBA: o problema tático que a ausência de alas traz ao Brasil



Volto ao tema “Seleção Brasileira”, nosso favorito neste espaço.

De certa forma, serve como uma atualização do post anterior, no qual perguntei se teríamos poder de fogo para vencer o Canadá, em Quebec. 

Como a Lei de Murphy ainda não foi revogada, sim, a situação piorou: perdemos Rafael Hettsheimeir por lesão. Cortado, a seleção não chamará ninguém.

É evidente que não é o fim do mundo. Nas Eliminatórias, Rafa tem sido uma peça importante para a posição 4-5, sobretudo abrindo espaço para um time que não tem sistema de jogo. Quando acionado, chuta de três. As vezes o dia está bom e a bola cai, as vezes o dia está ruim e ela não entra. É assim, não devemos sonhar com nada além disso. Hettsheimeir é um jogador fundamental no nível NBB, e um coadjuvante interessante para o padrão FIBA.

Dito isso, o contexto é que chama atenção: no elenco convocado por Petrovic, temos apenas Jhonatan e o jovem Didi na posição três e apenas Lucas Dias na posição 4. O resto ou são armadores ou ala-armadores que precisam da bola para pontuar – e que são basicamente irrelevantes defensivamente, ou são pivôs de pouquíssima mobilidade para uma eventual necessidade de jogar aberto.

O retrato do jogo

Isso nos colocará em uma imediata situação de perigo, porque ou teremos um time muito baixo em quadra por mais de 10 minutos, ou pouco móvel. Nenhuma das saídas é boa.

Uma rotação com Huertas – Benite – Leandrinho é suicídio. O Brasil até jogou bastante tempo com Magnano com um armador e dois escoltas, mas neste caso, um deles era Alex. Alex é um mágico capaz de defender armadores ou pivôs com um nível de intensidade fora de série. Benite e Leandrinho (fora de ritmo) não são capazes disso. A rotação nesta função será Léo Meindl/Jhonatan ou um segundo armador (Fischer ou Yago?). Em nenhum dos casos parece um caminho tranquilo.

Estou partindo de um pressuposto que por si só é perigoso: o de que Jhonatan pode jogar 30 minutos em um jogo como esse. Não pode, mas taticamente, é a única solução que não nos torna uma presa fácil na defesa. Ofensivamente, Jhoatan precisará matar as bolas que tiver livre.

Uma outra opção seria Didi ocupar os 10 minutos restantes. O considero fantástico, minha promessa favorita hoje do basquete nacional. Ele está pronto para jogar tanto tempo assim? Bom, as vezes a oportunidade simplesmente bate na porta. Não acredito que Petrovic fará isso, mas acho que a situação do jogo pedirá.

Uma situação remotamente pensável para a posição seria descer Lucas Dias para jogar na posição 3, mas me parece impossível por dois motivos: ele não tem a mobilidade que o nível internacional requer e, mais grave que isso: ele precisará jogar minutos fundamentais na posição 4.

O outro buraco

O buraco da posição 4 é assustador porque como todo mundo – Petrovic inclusive – está cansado de saber, não se vence mais jogos grandes com dois pivôs pesados. O Brasil precisará de Lucas Dias muito, muito, muito tempo em quadra. O problema é que Lucas não terá sua habitual vantagem como no Brasil, de ser quase sempre o único jogador alto e atlético em quadra. O Canadá está cheio desses e aí Lucas Dias, com pouquíssimos recursos técnicos, volta a ser um jogador normal.

Minha aposta é que teremos que ir, na contramão do que é o basquete hoje, com dois pivôs fechados, com pouca saída de jogo. Petrovic já tem tentado abrir Varejão, lhe dando liberdade. As vezes dá certo, mas é bizarro. Varejão, aos 36 anos, tentando ganhar jogos matando aquela bola estilo-Scola não é confiável. Pode ajudar, mas certamente não pode ser nossa aposta primordial.

Augusto Lima é um jogador muito interessante para esse nível, mas colocá-lo ao lado de Varejão enfraquece demais o que ele tem de melhor. O ideal seria que eles revezassem, não dividissem a quadra, mas pra isso acontecer, precisaríamos que houvesse pelo menos mais dois jogadores para a posição 3/4. Me parece meio claro que vamos depender, por muitos minutos, do trio: Varejão/Augusto (mais de 30 minutos cada) e Mineiro (nos minutos que os problemas de falta propiciarem).

Redução de Danos

Uma vez que compreendamos que não tem bom cenário, acho que temos que trabalhar com a lógica de redução de danos. Qual é?

Ao meu ver, o melhor modo de parar o Canadá é esvaziando seu ritmo de jogo. O time estará lotado de atletas super gabaritados, com incrível potencial físico. Assim sendo, não faz o menor sentido apostar em um ritmo intenso de jogo. Ademais, como obrigatoriamente, teremos de contar com dois pivôs de ofício por mais de 15-20 minutos, nem faz sentido tentar acelerar nada. É suicídio.

O risco de esvaziar o jogo é terminar com 4-8 pontos em um período, e em uma sequência de contra-ataque-bola-de-três-enterradas-da-morte-que-levanta-a-torcida-alegre-canadense perder o jogo.

Bem, a situação é dura. Precisaremos matar nossas bolas, e reduzir o volume de jogos deles. Não temos peça pra isso, mas temos que tentar algo.

Qual nossa melhor chance?

Acho que temos um armador genial em ritmo de jogo. Huertas, no entanto, precisa de alguém que saiba jogar pick and roll. Como essa convocação não tem, sua função fica bem prejudicada. De todo modo, temos que maximizar sua condução de jogo e escondê-lo defensivamente.

Uma vez que não teremos pivôs flexíveis, ao menos poderemos cuidar da tábua. Varejão e Augusto são, em tese, ótimos protetores de aro – e mais que isso, eles fecham o caminho para o rebote ofensivo.

No perímetro estará a única chave possível de vitória. Não quero ser simplista, basquete é complicado. No entanto, me parece meio claro: ou nossa bola de três cai-como-um-Neymar-inspiradíssimo ou já era. Nosso aproveitamento tem que beirar 40% chutando num volume inacreditavelmente alto.

Ser realista, neste contexto, é entender que coisas mágicas precisam acontecer para que vençamos.

 



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