Análise Tática NBB: Vasco, por Rodrigo Galego - Café Belgrado

Análise Tática NBB: Vasco, por Rodrigo Galego



Este é o segundo texto da série Análise Tática NBB, por Rodrigo Galego. O primeiro, sobre o Flamengo, pode ser acessado clicando aqui.

Rodrigo é formado em Ed. Física pela UnB e é técnico de basquete profissional. Passou por diversas equipes de base e adulto do Basquete do DF. Dirigiu também o Joaçaba (SC). Foi técnico em duas edições da Liga Ouro, defendendo o CEUB em 2015 e o Blumenau em 2018.  

No blog do Café Belgrado, Rodrigo emprestará seus conhecimentos para levar ao nosso leitor uma análise pormenorizada de aspectos táticos do principal campeonato de basquete do país.

 

Análise de contexto

Após vencer a Liga Ouro em 2016, a equipe do Vasco fez um primeiro ano de adaptação no retorno ao basquete nacional e, no ano seguinte, buscou pesado investimento para montar um time competitivo que brigasse no topo da tabela no NBB. A montagem do elenco acabou não “dando liga” e a equipe terminou na frustrante 11ª colocação. No ano de 2018, muitas mudanças aconteceram. O time foi totalmente desmanchado, restando apenas o atleta Alexey, que havia chegado durante a temporada passada para ajudar na armação em função das lesões dos armadores. Alberto Bial retornou a São Januário 20 anos depois para remontar o Basquete Adulto do clube. Porém, o clube passa por graves problemas estruturais e financeiros e esteve a ponto de abrir mão de sua participação do NBB momentos antes do início da competição. Em virtude destas turbulências, o clube acabou perdendo seu principal jogador, Desmond Holloway. Por tudo que atravessa o Vasco nesta temporada, defino a campanha deste NBB para o clube com apenas uma palavra: superação. Alberto Bial precisará usar de toda sua experiência, carisma e conhecimento para manter este time unido lutando por uma boa participação.

Formação do elenco:

Posição 1: Vitinho; Alexey; Armani; Gabriel

Posição 2: Okorie; Duda

Posição 3:  McKie (recém-chegado); Pilar; Rafael Oliveira

Posição 4: Germerson; Luiz Felipe

Posição 5: Lucão; Lupa

Mesmo com a contratação de Travis McKie, o elenco do Vasco para este NBB pode ser considerado bem enxuto. Por isso, precisará contar com uma troca constante de atletas em algumas posições. O time conta com três armadores jovens no elenco – e os três também podem jogar na 2. O problema dessa opção é que tanto Okorie quanto Duda  são atletas essencialmente desta posição e o time já pede por um bom tempo do jogo que os dois atuem (os dois ficam mais de 30 minutos em quadra de média). Logo, muitas vezes, a montagem do quinteto em quadra pode contar com muitos atletas baixos. Bom para velocidade/ mobilidade no ataque, mas torna-se perigoso pois pode enfraquecer muito a questão física da defesa. Vitinho foi contratado para ser o armador titular e tem o desafio de tentar protagonizar na condução da equipe e não apenas ser um jogador complementar como era em Mogi. Infelizmente, Vitinho se lesionou e ainda não fez sua estreia no NBB.  Alexey e Armani têm tido a missão de ajudarem a conduzir a equipe. Okorie e Duda já mostraram nos poucos jogos que serão a grande válvula de escape do time, junto de Gemerson. Farão de tudo um pouco, puxarão contra-ataque, terão bloqueios indiretos para tentarem deixá-los livres e também jogarão pick and roll para tentar decidir bolas ou abrir espaços para colegas de time. Pilar, Rafa Oliveira e Gemerson são as opções para manter o estilo 4-1 (4 abertos e um pivô) de jogo. Os três atletas podem ocupar a posição 3 e 4. Gemerson já aparece como o jogador que mais tenta pontos para equipe devido a sua versatilidade e terá o desafio nesta temporada de crescer mais no protagonismo nos jogos, evoluir nas tomadas de decisão e tentar manter-se saudável (está jogando quase 39 minutos por jogo em média). Lucão e Lupa terão a chance e o desafio de mostrarem seu jogo e serão extremamente exigidos. Tanto ofensivamente, pois os times adversários apostarão em seu jogo de 1×1, como defensivamente, pois serão os responsáveis para parar os “cincões” das outras equipes, defender os mismatches  e garantir os rebotes.

Característica forte:

O time tem como ponto forte o chute do Duda e sua capacidade de criar desequilíbrio defensivo. Além disso, a capacidade de 1×1 de Okorie, que também força uma recomposição defensiva dos adversários. E pra fechar, o jogo físico e técnico de Gemerson. A prova de que Duda e Okorie são quem lideram este time com a bola nas mãos é que os dois são segundo e terceiro cestinhas da equipe e são os líderes em assistências do time (4,2 para Duda e 4,3 para Okorie, por jogo). Isso mostra que eles, além de atacarem muito à cesta para pontuar, também chamam muito a atenção da defesa e das coberturas defensivas, o que faz com que eles consigam encontrar colegas livres para definir. Por isso, não basta que os dois estejam inspirados. Quem faz a posição 4 e 5 também precisa se mostrar pro jogo. Lucão, Lupa, Pilar, Rafa Oliveira precisam receber a bola e também contribuírem, pois pontuando e chamando a atenção da defesa, conseguirão abrir espaços para que Duda e Okorie recebam a bola de volta e consigam ter espaço para jogar e serem decisivos como até aqui foram nas duas únicas vitórias da equipe. Um caso à parte na equipe é Gemerson. Cestinha da equipe, quem mais tenta pontos e principal reboteiro do time, Gemerson tem tentado atacar no espaço que lhe oferecem. Quando livre tem arremessado bastante e quando os defensores o apertam ou ajudam na cobertura, ele tem tentado “atacar o aro”. Ou seja, um desempenho abaixo de um desses três atletas pode comprometer muito a equipe. Ainda não observamos o time com Mckie em quadra para ver como isso pode mudar.

Os jovens:

Os jovens Gabriel e Luiz Felipe irão completar os 12 atletas quando jogarem em casa ou quando, nos jogos fora, os 10 principais atletas não estiverem todos em condições normais de jogo. Por enquanto, terão pouco tempo de quadra. Bial tem usado os dois, mas ainda são jovens em desenvolvimento e terão papel discreto na equipe. Os jovens que irão mesmo atuar são os três armadores. O time ainda não teve a estreia de Vitinho, em virtude da lesão. Armani e Alexey estão tentando ajudar como podem neste momento. Eles precisam saber que todo o volume adversário vai ser dado a eles, para que a defesa possa priorizar sua rotação cuidando dos outros jogadores mais experientes. Precisão ser velozes, precisos nos passes e com bom aproveitamento para ajudarem a equipe quando precisarem deles. Alexey é um armador canhoto com características interessantes de jogo. Por enquanto, quando Bial decide ter em quadra um jogador de posição 1, é ele quem lidera os minutos em quadra com quase 18 minutos de média.

Jogadas importantes:

 

O Vasco tem no jogo de pick and roll duas características. Quando o pick é jogado ou por Alexey ou por Armani, o sistema ofensivo inclui bloqueios indiretos, seja para Duda, Okorie ou Gemerson tentarem jogar em desequilíbrio defensivo do adversário. Caso o pick and roll seja jogado por Duda ou Okorie, a jogada tende a ser mais agressiva e mais rápida buscando um passe livre para uma finalização, ou para a manutenção do desequilíbrio criado. Bial faz essas duas formas de ataque, pois sabe que com Duda ou Okorie, de posse de bola e jogando o pick, as defesas adversárias tendem a agredir o ataque, dando espaços para que outros atletas possam sair livre para pontuar.

Outro ponto interessante do time é sobre Pilar, Rafael Oliveira e Gemerson. Quando pelo menos dois desses três jogadores estão em quadra juntos, eles têm buscado reconhecer qual deles está sendo defendido pelo menor marcador para que este passe a jogar mais próximo à cesta na posição 4, já que os três são capazes de desempenhar a função. Pilar esteve lesionado nos últimos três jogos, prejudicando ainda mais a rotação do time que já não conta com Vitinho na armação. Provável que quando voltar, seja um jogador com mais participação na rotação, já que enquanto esteve jogando teve média de apenas 16 minutos em quadra.  McKie ainda não jogou, então não fez parte desta análise especificamente.

Por fim, a grande maioria das vezes em que o Gemerson faz o bloqueio no jogador com bola ou faz uma situação de “mão a mão”(drible hand-off), ele opta por fazer o “pop”. Pick and pop é o inverso do pick and roll. Ao invés do pivô descer “rolando” como faz no pick and roll após o bloqueio, ele se mantém alto e se desloca por cima para jogar 1×1 de frente com o pivô que o está marcando. Esta situação lhe dá a condição de atacar a cesta de diferentes formas.

Como enfrentá-los?

Existem duas situações claras acontecendo ao meu ver contra o Vasco. A primeira trata dos jovens armadores. Com a não estreia ainda do Vitinho, quando Alexey ou Armani estão em quadra, as defesas tendem a deixá-los mais livres para que tentem decidir o jogo. E isso dá a chance de marcarem mais forte outros jogadores decisivos como Gemerson, Duda e Okorie. A outra opção a ser utilizada é “dar volume de jogo” de 1×1 no Lucão e Lupa após o pick and roll feito pelo time. Isso significa não fazer tanta ajuda(ou apenas uma ajuda simples) quando essa bola entrar nos pivôs no jogo de pick and roll. Assim, Lucão e Lupa precisarão decidir as bolas que estiverem em 1×1. Os dois atletas não tentavam muitos pontos por jogo e têm sido estimulado pelos times adversários a decidirem mais bolas. Lucão teve uma participação muito boa contra o Bauru, por exemplo, pois foi testado quando a defesa de Bauru priorizou marcar com mais ajuda outros jogadores. Vamos ver como esses dois atletas se saem com mais jogos assim na fase de classificação.

Além disso, é preciso apertar para que Duda e Okorie não recebam a bola com muita liberdade, e quando receberem, que estejam prontos para trabalhar situações defensivas e rotações que forcem os dois jogadores a sentirem-se pressionados durante toda a partida. Isso se faz necessário pela qualidade dos dois jogadores. Essa normalmente é uma estratégia de longo prazo durante a partida. Por mais que um deles possa começar muito bem o jogo, normalmente o intuito é ir cansando estes dois jogadores apostando que não chegarão tão inteiros no 4º período – ainda mais com estes jogando por tantos minutos. Por fim, tirar o volume de chute do Gemerson também é importante. Toda bola que tem virado no Gemerson com um pouco de espaço, ele não tem pensado duas vezes antes de finalizar. Muito pela sua confiança e bom chute que tem apresentado de longa distância, e também pela necessidade que o time do Vasco tem de suas finalizações e liberdade que o atleta possui para atacar. Por todas essas variáveis, provavelmente os adversários darão volume nos jovens armadores e nos pivôs de posição 5 do Vasco apostando no desgaste dos 3 principais atletas da equipe: Duda, Okorie e Gemerson.



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