Análise Tática NBB: o Flamengo, por Rodrigo Galego - Café Belgrado

Análise Tática NBB: o Flamengo, por Rodrigo Galego



Este texto abre a série de análises que o blog do Café Belgrado faz das equipes do NBB em parceria com o técnico Rodrigo Galego.

Rodrigo é formado em Ed. Física pela UnB e é técnico de basquete profissional. Passou por diversas equipes de base e adulto do Basquete do DF. Dirigiu também o Joaçaba (SC). Foi técnico em duas edições da Liga Ouro, defendendo o CEUB em 2015 e o Blumenau em 2018.  

No blog do Café Belgrado, Rodrigo emprestará seus conhecimentos para levar ao nosso leitor uma análise pormenorizada de aspectos táticos do principal campeonato de basquete do país.

Análise de contexto

O Flamengo vem para essa temporada com uma mudança enorme de elenco e uma reformulação também na sua comissão técnica. O time sempre é um dos favoritos ao título pelo robusto investimento que faz na montagem de elenco. Desta vez, sob o comando de Gustavo de Conti, foram mantidos apenas os atletas Marquinhos, Olivinha e João Vitor em seu plantel. O rubro-negro carioca vem para brigar pelo título do NBB, da Liga Sulamericana e, por consequência, busca também (caso vença a Sulamericana), o título da Liga das Américas.

Sim! O time foi montado com ambições grandes.

Formação do elenco

Posição 1: Balbi; Davi Rossetto; Matheusinho

Posição 2: Deryk; Crescenzi

Posição 3: Marquinhos; Jhonatan

Posição 4: Olivinha; Nesbitt

Posição 5: Varejão; Rafa Mineiro; João Vitor

Dentre os 12 atletas listados, são 10 atletas de bom nível(os outros dois são jovens ainda procurando espaço). Apenas um é mesmo uma aposta (Crescenzi). Ele se lesionou na pré-temporada e atualmente, dentre os 10 atletas principais, é o que tem menos tempo de quadra. Se ele for bem, se desenvolver, ganhar confiança e moral na competição, fica melhor ainda para as rotações, já que assim teriam um jogador para cada posição. Além disso, o elenco tem uma possibilidade grande de adaptações, como por exemplo, poder jogar com os dois armadores, um jogador que faz 3/2 (Jhonatan) e pode jogar ao lado de Marquinhos. O próprio Marquinhos é um jogador que pode abrir na posição 4 para “acelerar” o time.

Portanto, é possível dizer que há uma vasta possibilidade de encaixes nesta equipe que tem como característica forte ser intensa. Um fundamento do estilo de jogo é correr bem a quadra. Há também um arsenal interessante que mescla bola de 3 e boa capacidade de infiltração. Todos os jogadores exteriores (que jogam de frente pra cesta) são bons arremessadores, o que forçará a defesa adversária a marcar mais em cima, possibilitando mais cortes e infiltração. E nisso, os exteriores do Flamengo também são bons jogadores.

 

A equipe de Brasília “pagou caro” por não defender a transição de forma eficiente.

O ritmo nitidamente será sempre forte, fazendo com que os adversários “paguem caro” caso não façam uma boa defesa de transição e não consigam aguentar o mesmo ritmo durante os 40 minutos de jogo.

Como mencionei anteriormente, o time tem um arsenal grande na correria, velocidade e diversidade de finalizações de 2 e 3 pontos. Não à toa, o time tem tentado quase duzentos pontos por jogo de média. Mesmo sabendo dessa variedade de opções – o time possui o MVP da temporada passada (Marquinhos) e o técnico campeão da última temporada – o que mais me chama a atenção na montagem do time é o garrafão.

Apesar da perda de JP Batista, que na temporada passada era cotado para MVP até a contratação de Anderson Varejão, as chegadas de Nesbitt e Rafael Mineiro, que juntam-se ao próprio Varejão e a Olivinha, fazem com que o time tenha um dos melhores garrafões para defender pick and roll e proteger aro. Digo isso pois, na minha opinião, muitas vezes, os jogos parelhos são decididos nos minutos finais pela qualidade da equipe manter-se saudável marcando agressivamente o jogo de pick. Vejo Mineiro e Varejão, como dois dos melhores protetores de aro brasileiros jogando NBB. Além disso, adicionaram Nesbitt, que não fica  atrás e tem mobilidade e vitalidade para defender agressivamente pick and roll, defender os mismatches que tanto acontecem hoje em dia nos jogos e ainda sair em velocidade pra atacar na transição, que é característica forte do time. Além destes três citados, Olivinha é conhecido pela imensa capacidade de conseguir rebotes para sua equipe e pela entrega em quadra. Dos quatro citados, três possuem capacidade para contribuir com chutes de 3 pontos, o que ajuda a “abrir a quadra” e deixar com que o garrafão tenha espaço para infiltração, pois a defesa correrá riscos se flutuar muito quando estes pivôs estiverem abertos. Logo, o garrafão do Flamengo será um grande desafio a ser enfrentado pelos seus adversários.

Os jovens

O jovem João Vitor, jogador muito alto e que pode atuar como verdadeiro “cincão” do time, tem uma chance enorme de, apesar de jogar provavelmente pouco tempo, estar “estagiando” com muito dos melhores pivôs no Brasil nos últimos anos. Espero que ele continue se desenvolvendo e aproveite as oportunidades, pois irá faltar tempo de quadra para ele. Por fim, o jovem Matheusinho ganhará minutos de quadra em jogos que o Flamengo conseguir se impor e abrir boa vantagem. São jovens interessantes que podem fazer parte da rotação futura do time.

Jogadas importantes

Além do sistema de transição que o time tem, onde todos correm muito para atacar e manter o desequilíbrio defensivo, o time do Flamengo possui uma série de movimentos para que seus jogadores externos recebam a bola mais livres para atacarem diretamente a cesta, ou, para em seguida, executarem o jogo de pick and roll.

 

Algumas opções que o Flamengo possui no ataque

O pick and roll é uma ação muito comum na equipe, pois o fato de que todos seus jogadores têm boa qualidade no arremesso, força com que os adversários tenham de manterem-se pressionando a bola. Isso gera um desequilíbrio defensivo a ser atacado pelo Flamengo. Além disso, dependendo do desequilíbrio defensivo, o time tem explorado e colocado bastante bola no poste baixo. Até agora do que vi, os pivôs têm tido bastante liberdade para jogar no 1×1 próximo à cesta. Todos os cinco pivôs somados têm tentado a cesta por volta de 75 pontos por jogo, em sua grande maioria próximo ao garrafão. Se os pivôs ganharem desenvoltura e performance nesse jogo na área pintada, podem abrir mais espaços para os jogadores abertos receberem ou cortarem em movimento nos espaços vazios, criando assim mais opções de finalização.

Como enfrentá-los?

Para enfrentar o Flamengo, a primeira coisa a se pensar em fazer é ter uma transição defensiva muito efetiva, travando o time já no início da posse de bola, pois uma volta lenta propiciará cesta de 2 pontos em infiltração. Além disso, se correr muito pra dentro do garrafão, o chute de 3 estará livre uma vez que o time tem essa liberdade de, se chegar bem organizado e espaçado, pode atacar a cesta.

Além disso, o adversário precisa atacar bem os extremos da quadra (perímetro e garrafão), variar bem ataque de pick e fazer com que os pivôs mais debilitados fisicamente (Varejão não é mais nenhum adolescente) sofram tendo de correr bastante – e ainda, agredir bastante para defender pick. Deste modo, a chave seria agressividade para fazer boas inversões de bola para chutes e também boas infiltrações para receber falta ou quebrar o sistema de rotações defensivas.

Tenho visto o time do Flamengo trocando bastante quando necessário – e rapidamente tentando reequilibrar a defesa quando o mismatch (principalmente próximo à cesta) se impõe. Logo, quem quiser vencer o Flamengo não precisará apenas ter um bom aproveitamento de arremessos e manter-se agressivo no ataque a ponto de que consiga tirar um pouco a força de transição do time. Precisará ser também consistente. Pois um vacilo ou uma corrida grande de tempo sem pontuar contra eles pode custar o restante da partida.

Defensivamente falando, apesar da capacidade de chute dos pivôs flamenguistas de posição 4 – o que certamente espaça a quadra – creio que aceitaria correr esse risco para uma estratégia de contenção. A ideia seria fazer com que a defesa priorizasse a contestação mais agressiva dos exteriores, forçando-os a finalizarem após o drible. Como consequência, apostaria  em marcar forte o poste baixo, escolhendo chegar um pouco mais atrasado nos jogadores de posição 4 abertos para chute. Dar volume neles talvez pudesse tirar um pouco a bola das mãos de jogadores como Deryk e Marquinhos, que necessitam do domínio na posse para “entrarem no jogo”.

Um treinador tem de fazer escolhas. Uma dúvida que fico é:  eu apostaria na correria que eles fazem – e correr tão ou mais que eles pra tentar desequilibrá-los? Ou armaria os ataques com qualidade, bom espaçamento e timing, deixando o “gás” para correr e evitar o contra-ataque?

Descobriremos com o decorrer da competição.



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