Mídia e futebol



Tenho participado de discussões e debates sobre futebol e esporte em geral e seu papel na educação e na formação de cidadãos. Tudo por conta de convites que tenho recebido por apoiar atletas em São Paulo e no Rio Grande do Sul e também ajudado a equipar uma academia em Esteio, perto de Porto Alegre, a fim de desenvolver projetos de inclusão social.

Por que a luta? Não sou fã de luta, mas, por motivos profissionais, documentário e um livro em gestação, ambos para 2019, acabei entrando nesse universo e estou fazendo, modéstia à parte, uma pequena grande diferença. Influenciando e sendo influenciado. Aprendendo mais do que ensinando. Interagindo. Vivendo. Com pessoas humildes e batalhadoras. Num país injusto e desigual como o Brasil. E aprendendo, aprendendo, aprendendo… Histórias e lições de vida. Impactando e sendo impactado.

Num dos debates, porém, fomos mais a fundo na questão do futebol. Como ferramenta de inclusão social. Daí o assunto foi crescendo, crescendo, crescendo e acabamos parando na administração dos clubes e da CBF, nas lideranças do futebol brasileiro. E caímos no assunto das Sociedades Anônimas Desportivas ou Sociedades Anônimas do Futebol. Que podem, segundo muitos, iniciar as mudanças de que o futebol precisa.

Tenho dúvidas, porém. Sempre defendi uma gestão profissional, desde os tempos da faculdade e meu trabalho de conclusão de curso na Faculdade de Economia e Administração da USP foi exatamente sobre isso. Em 1989. Mas hoje tenho meus questionamentos. Sobre tudo. Muito mais dúvidas do que respostas.

Que o problema do futebol brasileiro é de gestão não tenho dúvidas. E que muitos clubes são administrados de forma amadora, tampouco. Nem deixo de questionar a CBF, madrasta do futebol brasileiro, como brincam muitos, por ter se apoderado de um patrimônio público nacional que passou a ser administrado por um grupinho que não larga o osso.

Na discussão, no entanto, fiz questionamentos sobre a mídia brasileira e os oligarcas do jornalismo nacional. Como são administradas as empresas de jornalismo no Brasil? São propriedade privada, mas estão bem geridas? Não cometem erros de estratégia, de competência e de gestão, inclusive de valores humanos? Sim, a meu ver.

O jornalismo também tem que estar em discussão. Pois vem sendo tão mal gerido como os clubes brasileiros. E nós, jornalistas, erramos demais. Muitas vezes por pressa, por pressão, pelo imediatismo e por tantas outras razões.

O mundo é complicado e a hipocrisia, infelizmente, faz parte da vida. Nos anos 90, por exemplo, trabalhava num grande jornal paulista, aquele que considero o melhor do país, mas como era o trato com os repórteres e redatores? Éramos massa de manobra. Com jornadas exaustivas, que chegaram, em mais de uma ocasião, bem mais de uma ocasião, na verdade, a 20 horas de trabalho por dia. Sem que recebêssemos um centavo a mais. Pelo menos eu não recebia.

Foi assim na Olimpíada de Atlanta, em 1996. Lembro que por 23 dias tive dois dias de folga apenas e fiz as contas na época. Trabalhei em média 14 horas e 35 minutos por dia. Trabalho árduo, de apuração (às vezes apressada pela pressão e cobranças internas), xingamentos na hora do fechamento (em duas ocasiões), falamos tanto sobre o clima no vestiário das equipes, mas e as brigas nas redações? O ego? A vaidade? As brincadeiras sem graça que machucavam?

Vou além. E o pescoção? Até hoje lembro disso com pesar. Pescoção era nosso plantão de sexta. Dizem que o nome pescoção veio porque era difícil digerir. Difícil engolir. Havia vezes em que entrava às 9 horas da manhã para cobrir treino de clube. E saía da redação às 3 horas da madrugada, se não depois, pois fechávamos não só o jornal de sábado mas o de domingo também.

Não deixava de ser uma máquina de moer gente. E de enlouquecer. Tanto que depois que saí do jornal fui trabalhar como voluntário no CVV, Centro de Valorização da Vida, que luta para prevenir o suicídio. E desenvolve nossa escuta. Um lugar incrível.

Sim, temos que discutir a gestão do futebol brasileiro. Mas a da imprensa também. Tantos que pregam ou pregavam o respeito aos direitos humanos não olhavam e talvez não olhem mesmo para o que se passa dentro de suas próprias organizações. E muitos evitam falar sobre isso. Não deveriam. Mas entendo. Podem sofrer retaliações. Daí impera a lei do silêncio.

Enfim, vida que segue… Não pra todos, mas pra muitos sim. Um bom final de semana a vocês e até segunda, João



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