Em nome do filho



Até hoje recebo mensagens de leitores querendo saber da minha coluna às terças no diário LANCE!. Para os que ainda não sabiam desde setembro não escrevo mais naquele espaço no jornal. O blog, no entanto, continua e vocês podem me acompanhar aqui.

A pedidos reproduzo coluna de despedida do jornal, publicada em 29 de agosto passado, mas gostaria que comentários sobre o texto não fossem postados aqui, pelo menos não dessa vez.

“Hoje me despeço desse espaço que ocupei durante seis anos no jornal. Agradeço aos muitos leitores que interagiram comigo no período, dando sugestões, fazendo críticas, concordando, discordando, colocando-se, enfim. Como sempre me coloquei também, contando histórias do mundo do esporte que acrescentaram muito à minha vida.

Minha relação com o mundo da bola é antiga. E me remete à infância, quando ia a jogos do São Paulo com meus primos e a partidas da Portuguesa com meu pai. Acompanhei jogos incríveis da Lusa nos anos 70, 80 e 90. Derrotas marcantes e sofridas, mas vitórias sensacionais também, de uma agremiação que chegou a ter um Enéas, ídolo do meu pai, e que eu gostava muito de ver em campo.

Lamento muito que a Lusa esteja na posição em que se encontra atualmente, algo muito triste para quem viveu momentos inesquecíveis do time na infância e adolescência. A Portuguesa de hoje, infelizmente, agoniza. Nem à Série D resistiu. Culpa de seus próprios dirigentes, mas também da estrutura arcaica do futebol brasileiro. Porque a queda de 2013 até aqui não foi explicada.

Muitos que falam de futebol comigo perguntam da Portuguesa, já que meu pai, o pianista e maestro João Carlos Martins, é considerado por muitos torcedor-símbolo do time. Perguntam também da carreira dele, embora a minha, como jornalista e documentarista, tenha sido desvinculada da de meu pai, tanto que uso o sobrenome da minha mãe e jamais trabalhei com ele. Perguntam também do filme “João, o Maestro”, lançado recentemente e ao qual eu não assisti. Imagino que a parte musical seja bonita, porque meu pai foi um gênio do piano até 20 e tantos anos quando teve um problema numa das mãos nos Estados Unidos. Mas a parte pessoal e familiar, mesmo que tenha sido adaptada, não quero ver. Não conheço o diretor Mauro Lima, que dirigiu também “Meu Nome não é Johnny”, um filme que adorei, e “Tim Maia”, que achei fraco. Não sei se foi ele ou meu pai que “comandou” essa parte, mas mexe em histórias de pessoas que estão vivas e que não tiveram o direito de serem ouvidas.

Minha infância e adolescência, apesar dos refrescos que eram os jogos da Portuguesa e do São Paulo, foram extremamente difíceis. Sofridas. Solitárias. Pesadas mesmo. O início da fase adulta também. Muito complicado. Os fantasmas daquelas épocas me rondam até hoje, embora volta e meia eu consiga espanta-los. E, mesmo que aos trancos e barrancos, sigo em frente. Sempre segui.

A gente aprende muito na dor. Dizem que o sofrimento constrói o caráter da pessoa. Tenho minhas dúvidas. Às vezes preferia ter aprendido não na dor, mas no amor. Porque a dor também cansa, embora faça parte da vida.

Mas por conta da minha história pessoal e das dificuldades que passei na infância e adolescência, dificuldades e dores que são minhas e só minhas, pude crescer. Talvez seja mesmo graças a elas que eu consiga interagir com pessoas de mundos tão diferentes do meu, como lutadores de artes marciais, alguns com dificuldades até para comprar mantimentos e pagar uma condução, atletas que passei a apoiar de uns tempos para cá. Lutadores que têm muitas carências, como eu tive também, e com os quais consigo me conectar. As deles são financeiras, óbvio, afinal vivemos no Brasil, um país extremamente injusto e desigual. Mas são também emocionais. Como foram e ainda são as minhas. E é justamente isso o que me liga a com eles, assunto que será tema de um documentário que pretendo lançar no ano que vem. E de um livro também. São guerreiros. Como eu, modéstia à parte, também sou. Caímos, mas levantamos. Caímos e levantamos. E agora, com todo respeito, fui.”



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