Pancadarias no Uruguai



Reproduzo aqui coluna que publiquei ontem no diário LANCE!, em espaço que ocupo há quase seis anos no jornal, sobre o que penso do caso Felipe Melo. Como alguns concordaram, muitos não, queria deixar pelo menos registrado aqui o que penso a respeito. E no final, em três notinhas, digo o que achei do comportamento e do desabafo de Eduardo Baptista pós-jogo da semana passada:

“As cenas no final do jogo Palmeiras e Peñarol me remeteram a 1993, quando fui a Montevidéu torcer pelo Brasil contra o Uruguai, eliminatórias para a Copa dos Estados Unidos. Jogo tenso, que terminou 1 a 1, e clima pesadíssimo na arquibancada, onde nós, brasileiros, éramos ameaçados por torcedores locais. Na saída do estádio a tensão era visível e, de repente, começamos a ser atacados com pedras, lixeiras, pedaços de pau, que vinham de todas as direções. Felizmente nenhum me atingiu, mas pelo menos dois brasileiros foram alvejados na cabeça e deixaram o Centenário machucados.

Adoro Montevidéu e acho o povo uruguaio extremamente simpático e acolhedor, assim como o argentino, sim, o argentino também, mas, quando se trata de futebol, muitas vezes a coisa se complica. Não só por conta deles, mas dos brasileiros também, porque muito torcedor infelizmente quer briga mesmo. Em 1993 nosso “crime” foi estar usando camisa da Seleção. Só por isso viramos inimigos, quando éramos apenas adversários.

O que aconteceu quarta passada foi lamentável e uma tocaia para o Verdão. Por mais que Felipe Melo tenha errado feio quando falou em dar tapa em uruguaios (ou se tivesse dito chilenos, argentinos, paraguaios…) lá atrás quando se apresentou ao Palmeiras, nada justifica o que fizeram com ele. Tem o direito de comemorar apontando os céus, embora o mais prudente fosse tentar sair o mais rapidamente possível de campo. Mas insisto que nada justifica o que fizeram com ele.

Caçado pelos uruguaios, foi recuando, recuando, recuando e, quando deu um murro num adversário, diria que o fez em legítima defesa. Pois estava sendo acuado. Não fossem os seguranças do Palestra e poderíamos ter visto uma carnificina em Montevidéu.

Entendo que a Conmebol queira dar o exemplo e já puniu preventivamente não apenas atletas do Peñarol, mas também Felipe Melo, embora eu não ache que caiba a ele uma punição.

Tento me colocar no lugar dos uruguaios e fico imaginando se um jogador do Peñarol tivesse dito na sua apresentação que iria defende-lo dando tapas em brasileiros se fosse necessário. Boa parte da nossa imprensa faria um escarcéu, assim como os uruguaios fizeram. Mas insisto que nada justifica a violência. E a perseguição que vimos em campo a Felipe Melo.

Conversei com vários palmeirenses (e torcedores de outros times também) que acham que o ataque foi mesmo premeditado. Também fiquei com essa impressão. Com a vitória épica do Palmeiras, os ânimos ficaram ainda mais à flor da pele, mas repito pela enésima vez: isso não justifica a perseguição a Felipe Melo.

O brasileiro provavelmente pagará pelo seu passado de polêmicas, talvez devesse ter sido mais bem instruído ou assessorado inclusive ao dar alguns pronunciamentos, mas dessa vez o vejo como vítima, não algoz.

Precisa baixar um pouco a bola daqui em diante, embora não deva deixar sua essência de lado. Tem todo o direito de se defender, até porque muitas das críticas que vi a ele em redes sociais são o fim da picada e uma total falta de respeito. Tem que dizer o que pensa, mas precisa usar as palavras certas. Medi-las um pouco mais. E se defender sim. É um direito que ele tem.”

* Do inferno ao…: Eduardo Baptista virou ídolo de muitos palmeirenses, mas precisa se lembrar de que o mundo e o futebol são ingratos e que a vida dá diversas voltas. Fiquei impressionado com as críticas que recebeu (e os xingamentos também) de torcedores ao final do primeiro tempo. Todos indignados com o esquema com três zagueiros. Mas mudou o time e o jogo para o segundo tempo e virou herói;

* Desabafo: O técnico palmeirense tem todo o direito de se defender das críticas e rebater comentários da imprensa e da torcida também, pois não é porque ela paga ingresso que pode sair xingando quem quer que seja. Mas ele precisa entender que a crítica faz parte e que o futebol não se limita ao campo de jogo. É muito mais do que isso. Fatores extracampo e polêmicas em vestiário influenciam demais;

* Versão oficial: No esporte e na política não podemos ficar apenas com as versões oficiais. Se formos acreditar somente nelas iríamos pensar que os políticos acusados pela Lava Jato não fizeram nada de errado. A grande maioria diz que atuou de acordo com a lei, embora o ex-governador Sérgio Cabral já admita pelo menos o uso de caixa dois. Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.



MaisRecentes

Santos na capital



Continue Lendo

O fico de Ceni



Continue Lendo

A vez de Cássio



Continue Lendo